quinta-feira, 19 de abril de 2012

O jacaré


            Dizem que era lenda, mas sou testemunha. O jacaré que vivia no porão do velho prédio da Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha, existiu.
            Não nasceu lá, é claro. Foi trazido do Pantanal, ainda filhote, pelo eminente cientista Aristides Leão para estudar seu cérebro. Seu, dele, jacaré. Isso foi no início dos anos 70, portanto não perguntem pela licença do IBAMA, que só foi fundado quase vinte anos depois. O fato é que o réptil escafedeu-se da jaula em que estava preso nas proximidades de seu laboratório. Seu, dele, Professor Leão. Jacareziou-se no porão do prédio e várias expedições de captura foram inúteis.
            Como sói acontecer, reinava o deboche. "Ei, quer dizer que o leão perdeu o jacaré? Chama o Jim das Selvas...". Quem acreditava tentava explicar: "Não é um jacarééééé, é um filhote, é de verdade, era para pesquisa, não, não mordeu ninguém, só sumiu, outro dia alguém deu com ele numa das entradas do porão e os dois fugiram assustados, cada qual para um lado, não, eu nunca vi, mas é o que se diz".
            Até que, um dia, um técnico de laboratório que, além de habilidoso, era valente o bastante para encarar um jacaré, foi chamado por volta de meio dia: "- Raymundo, vem depressa que o bicho está lá fora pertinho do alojamento!!". E lá veio o intimorato Mestre Raymundo Bernardes, carregando um pedaço de pau, um saco de aniagem e dois capangas, um dos quais Roberto que, assim como o Mestre, era meu colega de laboratório no Instituto de Biofísica. O alojamento da Casa do Estudante ficava encostado no Morro da Urca, atrás da Faculdade e separado desta por uma ruazinha estreita na qual alguns carros ficavam estacionados. Era visível de dentro do bar do “Seu” Agostinho, onde arriscávamos diàriamente nossa saúde engolindo os artefatos fumegantes e irreconhecíveis perpetrados na cozinha do boteco. E lá estava eu almoçando quando a comitiva passou garbosamente por dentro do pé-sujo, entre os olhares irônicos da rapaziada, e saiu pela porta dos fundos rumo ao jacaré.
            Foi um frisson. Espremiam-se todos na porta do bar para assistir à caçada. Não se via nada, porque o alojamento ficava uns cinco metros acima do térreo da Faculdade e tinha um jardim avarandado na frente, que tapava o lugar onde fora visto o jacaré. Raymundo e sua tropa sumiram ali e alguns mais corajosos aproximaram-se um pouquinho para ver, mas naquele dia a estudantada súbitamente passou a crer e, prudentemente, a temer o jacaré. E já se dizia que o bicho estava enorme, mais de dois metros, tinha que chamar a polícia, não a polícia não, que eles iam sentar a porrada era na gente mesmo, como de costume na época.
            Depois de uns vinte minutos nossos heróis reapareceram no topo do avarandado, segurando o saco de aniagem com a fera dentro. A galera continuava ansiosa porém, aos poucos, percebeu que o jacaré, em todo o tempo que passou sumido, continuava um jacarezinho. Mas, seja como for, cheio de dentes. Quer dizer, tudo isso imaginado, pois só restava, a nós covardes que ficamos a uma distância segura, advinhar o bicho ensacado, firmemente imobilizado por seus captores. Outra força de expressão, pois quem segurava no duro era o Mestre Raymundo. Os outros dois faziam figuração, pálidos e contidos apenas pela expectativa de que a mulherada estivesse a suspirar cá embaixo.
            De repente, deu-se a rabanada. O jacaré, num último esforço em busca da liberdade, chacoalhou o rabo, ou o que parecia se-lo por baixo da aniagem, uma só vez. Mas foi o bastante para meu intrépido amigo Roberto levar o maior susto de sua vida e, adiós muchachos, saltar do avarandado por cima de um fusca, aterrissando - sabe-se lá de que jeito - incólume no asfalto da ruazinha. Foi delirantemente aplaudido pela platéia, que perdeu o jacaré mas ganhou outro assunto. Roberto, um dos líderes estudantis da Faculdade, era muito popular e respeitado por seu ativismo no tempo da ditadura. Infelizmente, o susto arranhou um pouco seu prestígio. Mestre Raymundo, às gargalhadas, continuou segurando o jacaré, sem ajuda de ninguém.
            E assim terminou a história do jacaré do Professor Aristides. Pensando bem, não sei que fim levou o bicho depois deste episódio rocambolesco. Eu mesmo nunca o vi em pessoa, mas presenciei a rabanada do saco de aniagem e sua consequência e, por isso, dou fé e registro como verídica esta coisa toda.

Rafael Linden

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