quarta-feira, 25 de abril de 2012

Autorretrato aos 60 anos*

          Nasceu em Botafogo, no sexto aniversário da bomba atômica de Hiroshima. Foi direto para São Cristóvão e, antes de 6 meses, já tinha voltado. Viveu tanto a vida na zona sul, que só achou o resto da cidade quando inventaram o GPS. Sempre jogou bola. Muito mal. Sempre se apaixonou pela meninas da vizinhança. Debalde.
Por falta de opção, estudava. Muito. Acabou gostando. Estudava tudo da escola e, ainda por cima, piano. Mas desse jamais gostou, afinal não podia carregá-lo para a esquina e tornar-se popular. Só custou a abandonar o instrumento porque lhe dava um pretexto para chegar cedo à escolinha de música e ficar apreciando as meninas (sempre elas) do ballet. Depois resolveu gastar os fins de semana tocando guitarra e cantando num conjuntinho de iê-iê-iê. Muito mal, outra vez. Isso tudo acabou no ano do vestibular. Formou-se médico, mas nunca exerceu, Virou cientista e professor, e descobriu que era possível ser criativo sem ser um artista. Passou anos ensinando e, um dia, percebeu que o que precisava mesmo era voltar a aprender. Tudo de novo, agora através de suas próprias palavras. Ao contrário de Graciliano, parou de fumar cedo e espera viver para sempre. Pelo menos em um ou outro coração.

Rafael Linden

* Parece plágio, e é...Foi um exercício da Oficina de Escrita Criativa: escrever um autorretrato no estilo do Auto-retrato aos 56 anos, de Graciliano Ramos http://www.graciliano.com.br/grporelemesmo.html.


2 comentários:

  1. Esse textículo (urgh...) ficou lindo! Senti algo como Woody Allen por aqui... Mas me deu tristeza. Não o vejo assim, você é um grande vencedor - em tudo!

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    1. Família perdoa qualquer coisa, né?
      :-)
      bj
      R

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