quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Michelangelo vai às compras

          A semana começou com uma cerimônia de premiação de cinema e televisão nos Estados Unidos, cujo tom foi dado pela campanha internacional contra o assédio sexual e pelo empoderamento das mulheres em todos os níveis. De início deliciemo-nos com o termo “empoderamento”, com sorte criar-se-á alguma polêmica linguística entre nossos leitores. Pois há na internet quem garanta que a palavra, que traduz do inglês o substantivo empowerment, foi criada por Paulo Freire e está em dicionários badalados como o Aurélio e o Houaiss. Cá no telhado, lamentavelmente, não consta do Houaiss, nem do dicionário etimológico da língua portuguesa de Antonio Geraldo da Cunha, nem do vocabulário ortográfico do mesmo autor, todos editados mais de uma década após a morte do educador citado como inventor do neologismo. A palavra sequer dá as caras no portal do vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras! Mesmo assim, como um dia já escrevemos impunemente uma crônica sobre “espertofones”, fica o empoderado pelo não-empoderado e vamos em frente.
          Ainda antes que vosso amado cronista passe do introito ao busílis, advertimos que o longo e tenebroso primeiro parágrafo está lá para justificar nossa cautelosa atribuição ao leitor rabugento, e não à gentil leitora, de mil histórias sobre visitas ao supermercado, desde a importância de comparar preços - como está a carestia, né? -, até o encontro com alguma celebridade disfarçada com óculos escuros, peruca e outros adereços. A cautela nos foi aconselhada pelo departamento jurídico do blogue, por motivos óbvios. Só então revelamos que a presente obra prima da literatura mundial versa sobre lista de compras.
          Numa hora dessas, nos vem à mente um genial filme alemão - quase todo falado em inglês – de 1989, chamado “Rosalie vai às compras”. É uma hilariante sátira do consumismo, ambientada numa cidadezinha do interior de Arkansas, nos EUA, e magistralmente interpretada pelo elenco encabeçado pela atriz Marianne Sagerbrecht. Embora Rosalie, a personagem principal, tivesse compulsão por compras de todos os tipos, uma de suas manias era encher carrinhos de supermercado com iguarias variadas, tais como um bagre gigantesco ou uma cabeça de porco, além de montanhas de ingredientes destinados a prover sua numerosa família com refeições pantagruélicas, preparadas por um dos filhos que sonhava tornar-se um chef.
          Assim, pelos habituais caminhos tortos, finalmente honraremos o título da crônica. Na verdade nosso texto trata de um curto artigo encontrado num portal de reportagens não usuais, quando não francamente esdrúxulas, denominado Atlas Obscura. Lá, na categoria raridades, encontra-se a lista de compras de ninguém menos do que o toscano Michelangelo Buonarroti, uma das maiores figuras da história da arte universal, autor das esculturas de David e da Pietà, bem como da maravilhosa pintura do teto da Capela Sistina, entre muitas outras obras. Sim senhora, uma prosaica lista de compras, autêntica. E de um objeto criado por ninguém menos, naturalmente se espera nada menos. De fato, a lista vem decorada com desenhos feitos pelo artista, ilustrando os acepipes que, presume-se, teria ele mandado um servo analfabeto buscar no mercado da cidade. A lista com os desenhos foi rabiscada no verso de uma carta e sua sobrevivência é surpreendente, já que Michelangelo teria destruído ou mandado destruir quase todos os seus documentos provisórios, incluindo os esquemas originais de suas obras. Consta que o artista era um homem solitário, melancólico e de hábitos extremamente modestos. Sua propalada frugalidade, no entanto, não combina com a opulência do banquete que a lista de compras sugere, na qual se encontram os nomes e respectivos desenhos de pães, peixes, saladas, raviolis e vinhos em profusão. Coerente com a data da carta, o pacote compunha um belo cardápio de Páscoa, no melhor estilo da nobreza toscana da época.
          Pois é, galera, até mesmo um gênio das artes precisa comer de vez em quando. Não é à toa que, nessa estranha Renascença contemporânea que vem ressuscitando tantas coisas que achávamos devidamente enterradas no lixo da História, celebridade no supermercado é assunto sério nas redes sociais. Lá abundam flagrantes de “famosos” empurrando carrinhos, escolhendo frutas e legumes, examinando estantes de guloseimas e, nos intervalos, posando para selfies com funcionários do estabelecimento. A propósito, por que cargas d’água estivemos a polemizar com “empoderamento” e ainda não apareceu um Paulo Freire para traduzir selfie? Seja como for, uma rápida busca mostrou incontáveis instantâneos de membros de duplas sertanejas, suas ocasionais namoradas curvilíneas e sorridentes, atores atrozes e atrizes atópicas de cinema, teatro ou televisão, políticos do bem e do mal, e outros ícones das páginas de inutilidades jornalísticas. Uns se vestem como para uma ocasião de gala, outros ostentam roupas cuidadosamente desleixadas, as quais nossas avós sequer usariam para tirar o pó da mesinha de cabeceira. As fotos são acompanhadas de legendas palpitantes sobre o cardápio da casa do fulano, o segredo da maciez da cútis da sicraninha, a gracinha que ficou a beltrana dentro do carrinho empurrado por seu eterno amor, ou a simpatia cativante da celebridade que se mistura alegremente com os eufóricos circunstantes. Tem até página do fêice criada exclusivamente para emoldurar gente televisiva fazendo compras em um determinado estabelecimento. Nesse clima, será que a lista de compras de Michelangelo ainda tem alguma chance de bombar na rede?
            O tempora, o mores…


Rafael Linden


domingo, 24 de dezembro de 2017

A fúrcula do peru

          Às favas a modéstia! Faz bem à autoestima acreditar que, da gentil leitora ao leitor rabugento, nosso numerosíssimo fã-clube padecia de saudade do vosso cronista predileto. Perdoai-nos, queridíssima(o)s leitora(e)s, por quase um ano de afastamento, mergulhados que estivemos na azáfama que se tornou avassaladora neste malfadado 2017. Os mais afoitos se agitam na cadeira, demandando explicações e escusas. Debalde. Vamos ao que interessa.
          Sim, senhora, o assunto é aquele mesmo lá de cima. E, malgrado a desconfiança de que este que vos escreve perdeu definitivamente a compostura, mais uma vez não é nada daquilo que vocês estão pensando. Estamos em plena semana Natalina e o peru no caso é a ave. Já a fúrcula, que leva o Juquinha às gargalhadas, nada mais é do que o “ossinho do peito, ou da sorte”, formado pela fusão das duas clavículas, a qual, ao fim do tradicional banquete serve de pretexto para uma batalha épica. Dois contendores puxam, cada um para um lado, as hastes da forquilha devidamente despida de qualquer resto de saborosa carne. Quando o osso se parte, a família entusiasmada proclama vencedor quem fica com o pedaço maior, tido como símbolo de boa sorte. A Internet, impiedosa, acrescenta a nosso inesgotável cabedal de cultura inútil a preciosa informação de que, além das aves, também exibiam fúrculas os dinossauros terópodes, que incluiam os temidos Tyranossauros. Taí, eu gostaria de ver dois cidadãos batalhando para ver quem fica com o pedaço maior da fúrcula de um Tyranossauro, depois de uma lauta refeição.
          Não deixa de ser irônico que a palavra “fúrcula” seja o diminutivo de furca, que em Latim significa forca. Essa última dificilmente se quebrava quando algum incauto se via condenado a balouçar ao vento pendurado por uma corda no pescoço. Vai ver a rapaziada achou que quebrar a fúrcula é um gesto simbólico, capaz de nos livrar de enforcamentos físicos ou metafóricos. Faz sentido. Provavelmente não é verdade. Afinal, pouca coisa que existe atualmente por aí faz sentido, e vice-versa.
          Nesta altura, a simpática leitora boceja e se pergunta por que razão teria dado uma olhadinha neste texto que, aparentemente, não vai a lugar algum. Assim, para aliviar o sofrimento dos fidelíssimos frequentadores deste espaço que, doravante, ressurgirá com a incomparável elegância de sempre, daremos fim a esta crônica, cujo único objetivo foi servir de pretexto para falar de peru e desejar, a todos e todas que tiveram paciência suficiente para chegar até aqui, um Feliz Natal.
          Daqui do telhado, promessa é dívida. Voltaremos em breve!


Rafael Linden

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O bistrô dos arqueólogos

          Depois do desvario gastronômico das festas de Natal e da virada, não há nada melhor para começar o novo ano do que uma boa crônica sobre…como disse, minha senhora? “Boa” seria um milagre natalino? Tá bem, vá lá, uma crônica. Como de hábito a motivação vem do noticiário, temperada com uma pitada do nosso delírio indispensável para diluir a fieira de tragédias do cotidiano. Isto posto, é hora de falar de batatas.
          Por que não tomates, pergunta o rabugento. Pois falemos destes também. A gentil leitora pondera que uma manteiguinha por cima cairia bem com a batata assada, mas é rudemente interrompida pelo rabugento que, por sua vez, não dispensa um gratinado com queijo ralado no topo dos tubérculos. O marombeiro acrescenta que gosta mesmo é de muita proteína e pergunta se não vai junto um filé mal passado ou um belo peixe frito. Por fim manifesta-se o Juquinha, de olho na sobremesa que, é claro, há de ter chocolate. Menu completo, calam-se todos à espera do convite para jantar. Nada feito. Trata-se de Ciência. Coisa mais fora de moda, comentam certos políticos às gargalhadas, a ponto de sufocar com as baforadas de seus caríssimos charutos Gurkha Black Dragon ou afogar-se em legítimo uísque escocês, poucos minutos depois de gualdripar a verba pública para aplicá-la generosamente no bem-estar daqueles com quem compartilham a privada.
          Arre égua, está difícil bem-humorar sem digressionar. Não obstante, fá-lo-emos – oba, mesóclise! - pois esse blogue é para relaxar mesmo. Dizíamos, então, que era hora de batatas, mas acedemos às súplicas de nossos fiéis leitores e acrescentamos outros ingredientes, já que há uma fartura de descobertas arqueológicas de comida velha. Velha mesmo, fora da validade, bem mais do que aquele leite em pó que a senhora quase levou do supermercado, mas descobriu a tempo e passou uma descompostura no gerente. Muito velha mesmo, milênios além da validade, que tal?
          Arqueólogos cansados de desenterrar ruínas, efígies, armas e ossadas andam, com toda a razão, celebrando descobertas intrigantes sobre a alimentação de nossos antepassados. Às vezes trata-se de fezes petrificadas, como no badalado caso do palácio de um bispo dinamarquês do século XVII. Outras vezes a sorte lhes sorri e acham alimentos intactos. Agorinha mesmo foi noticiado que pesquisadores da Universidade da Pensilvania encontraram, na Argentina, dois exemplares de tomatillos, um primo do tomate. Diz a notícia que esses frutos são mais parecidos com cerejas do que com tomates, e que o gosto não é dos melhores, mas já dá uma satisfação ao rabugento. Só tem um detalhezinho, a datação dos tomatillos fossilizados foi estimada em mais de cinquenta milhões de anos. É possível que tenham passado da validade. Caso contrário, podem ser usados para fazer uma saladinha com dúzias de tipos distintos de frutos, legumes e grãos encontrados, junto com restos de ossos de animais e artefatos variados, por um grupo de cientistas de quatro Universidades israelenses. O achado foi em um sítio arqueológico de quase oitocentos mil anos de idade, localizado no vale do Rio Jordão, numa região que foi usada como corredor para a dispersão dos ancestrais dos humanos modernos a partir da África. Essa descoberta está fazendo sucesso, pois desafia a idéia de que naquela época a dieta era quase exclusivamente à base de proteina de origem animal. De fato, indícios do consumo de carnes são muito mais fáceis de encontrar do que das guarnições, já que ao longo de milhares de anos restos de ossos são, em geral, melhor preservados do que resíduos de vegetais e não fazem justiça à variedade de acompanhamentos das refeições de antanho.
          Voltando às batatas, pesquisadores canadenses descobriram, na região da Colúmbia Britânica, uma estrutura de pedras organizadas de modo a delimitar um espaço contendo mais de três mil exemplares de um tipo de batata, chamada wapato – pronuncia-se “uápatuu”. A wapato é o tubérculo da raiz de uma planta com folhas em formato de ponta de seta, que cresce e floresce em locais pantanosos e costuma servir de alimento para patos, daí seu outro nome duck potato. É nativa do noroeste das Américas, e foi também naturalizada em muitos países da Europa, mas em alguns é considerada uma praga. E o que há de interessante nisso se, só no Peru, existem três mil e oitocentas variedades de batatas? É que o tal sítio arqueológico tem quase quatro mil anos e, embora haja relatos documentados de jardins muito mais antigos no Egito, o “parquinho das batatas” é celebrado como a mais antiga estrutura artificial encontrada em uma escavação, que parece verdadeiramente destinada à produção de um alimento. A construção do cercadinho foi feita com pedras de formato regular, muitas das quais aparentemente moldadas a fogo, e contém pontas de lanças que podem ter sido usadas para cavucar o fundo de forma a soltar os tubérculos, que é o jeito de fazer flutuarem as wapato. Isso é um sinal claro de que o jardinzinho pantanoso foi propositalmente destinado à alimentação humana. Para os interessados, no Youtube há vídeos nos quais exímios naturebas mostram como colher wapato e garantem que a batatinha é comestível quando devidamente assada.
          De quebra, podemos acrescentar um aglomerado de manteiga maior do que uma bola de basquete, desenterrado de um pântano na Irlanda, e cuja idade foi estimada em dois mil anos. As reportagens dizem que a tal manteiga ainda seria comestível, porém de nossa parte não há a menor intenção de experimentar a iguaria. Ainda assim enriquece o menu, assim como os restos de queijo torrrado identificados no fundo de um pote com três mil anos de idade, que foi encontrado na península da Jutlândia, em território da Dinamarca.
          Juntando tudo isso já dá para preparar uma batatas gratinadas no forno de pedra de mil e seiscentos anos de idade, que o arqueólogio Bob Dawe encontrou em 1990 na encosta de um morro na provínicia de Alberta, no Canadá. Recentemente o trambolho foi cuidadosamente transportado para o Museu de Alberta para ser examinado, e Dawe acha que lá dentro há uma refeição completa, que estaria assando quando foi abandonada às pressas, quiçá porque algum invasor botou o cozinheiro para correr. O cientista crê que pode haver nesse forno um belo bife de bisão, o qual cairia bem com batatas gratinadas e uma saladinha. Já para os que não comem carne vermelha, sempre se pode fritar naquela manteiga irlandesa os restos de peixes de água doce que pesquisadores de Universidades britânicas encontraram em potinhos desenterrados de um sítio arqueológico com mais de seis mil anos de idade. Essa descoberta também foi considerada muito importante, por indicar que mesmo quando nossos ancestrais sairam do estágio de caçadores-coletores para inaugurar a agricultura e a pecuária, não deixaram de pescar seus peixinhos.
          E assim, o menu do bistrô está quase completo, com exceção da sobremesa do Juquinha. Mas o guri ficará feliz em saber que, diferente da idéia de que antes da invasão espanhola o cacau era usado na América Central apenas para preparar bebidas, cientistas do Instituto Nacional de Antropologia e História do México encontraram na península de Yucatán traços de cacau em um prato de dois mil e quinhentos anos de idade, o que sugere o uso antiquíssimo de um “molho de chocolate” numa refeição sólida. Coisa essa que faz parte da culinária mexicana até hoje, com seus moles poblanos que acompanham carnes variadas. Daqui ouvimos o garoto reclamar que isso não tem nada a ver com a torta de chocolate da vovó ou o brownie da titia, mas foi o que se pode arranjar. Quem sabe em breve não será descoberta, em algum sítio arqueológico nos Alpes ou esquecida num canto de um depósito do Laténium de Neuchâtel, uma barra inteira do melhor chocolate suíço com mais de dois mil anos de idade, esperando apenas ser catalogada por um cientista guloso.
          Bon apétit.


Rafael Linden


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A misteriosa ave natalina

          É chegada a véspera do Natal e a gentil leitora dá os últimos retoques na decoração do pinheirinho, antevendo a alegria das crianças ansiosas pela visita de Papai Noel. Vez por outra, nossa fã dá uma olhadinha no forno para ver a quantas anda a deliciosa ave natalina que, em poucas horas, se desmanchará nas bocas ávidas da família reunida. E é aí que lhe vem à mente a dúvida cruel: afinal, que ave é essa que eu estou assando?
          Pois ainda ontem, num supermercado da cidade, uma simpática reporter de TV entrevistou uma freguesa que se queixava da carestia. A aflita senhora se dizia assustada com os preparativos da ceia tradicional, pois o preço do peru está pela hora da morte e, você sabe, com essa crise e coisa e tal... Ato contínuo, a zelosa jornalista passou a palavra para o responsável pelo setor de carnes congeladas do estabelecimento. Este, esbanjando autoridade, ofereceu à freguesa a alternativa de assar uma “ave temperada congelada”, de excelente qualidade, com gosto quase idêntico ao do peru, a um custo bem menor. Malgrado a alegria que tomou conta da telinha, o que de fato nos impressionou foi constatar que, assim como nossa leitora, jamais nos perguntamos que diabo de ave seria aquela, de tamanha importância para as festas natalinas. Se não um peru, o que é?
          Numa hora dessas, o que faz um cronista? Não, senhora, não é o caso de alertar as autoridades sanitárias. O escritor recorre à Internet, digitando “ave temperada congelada” no buscador. Em fração de segundo, chega-nos aos olhos a bagatela de setenta mil verbetes, o primeiro dos quais oferece a explicação de que se trata de “uma ave com maior concentração de carnes nobres, como peito e coxas”. Não fosse a foto da embalagem, poder-se-ia desconfiar de pornografia. O segundo verbete informa que a ave congelada de outra marca está indisponível. Uma corrida às compras pelos telespectadores do noticiário matutino? Prosseguindo na busca, finalmente descobrimos que ao menos algumas das aves temperadas são…frangos. Mas não é qualquer frango. Um deles é “uma linhagem especial que veio das terras altas da Escócia”. Só um especialista pode explicar aos caros leitores a razão de sair mundo afora para escolher um galináceo entre, pelo menos, as variedades Light Sussex, Jubilee Orpington, Cuckoo Maran, Anaconda, Salmon Faveolle, Welsummer, Buff Orpinton e muitas outras, e trazer a eleita para nossa terrinha, que produz mais de doze milhões de toneladas por ano e exporta frangos para mais de cento e quarenta países. Mas, são coisas da indústria, que pouco nos importam se a tal ave, quando assada, é saborosa, nutritiva e mais barata que um peru.
          Então, respiram aliviados nosso inúmeros seguidores, trata-se de frangos como, por exemplo, o “chester” que, enfim aprendemos, é uma marca registrada por uma empresa para designar frangos tão peitudos e coxudos quanto vários outros de outras marcas. É claro, resmunga o rabugento, esse cronista metido a besta, por acaso, achava que a ave temperada congelada era urubu? Não chegamos a esse extremo, mas, entre as pérolas com que a Internet nos brinda, encontramos o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Aves Temperadas, expedido pelo Ministério da Agricultura, o qual, a folhas tantas define que “…entende-se por Aves Temperadas o produto cárneo industrializado, obtido de aves domésticas como Frango, Galinha, Peru, Marreco, Galinha d'Angola e outros…”. Outros? Que outros??!! Consola-nos saber que urubu não é propriamente uma ave doméstica, e que também estamos livres das galinhas selvagens da ilha de Kauai, no Havaí, descendentes de galinhas domésticas que escaparam dos quintais de casas na ilha e foram morar na floresta vizinha. Mas, acreditem, o insuspeito IBAMA considera oficialmente domésticas para fins de operacionalização – seja lá o que isso for -, aves como canários, periquitos, pombos e até cisnes negros. Esperneie quanto quiser, rabugento, porém nada impede que o seu vizinho rotule como “ave temperada congelada” qualquer exemplar de sua ruidosa criação de periquitos que ele porventura roube e guarde no freezer.
          Confessamos, então, que mesmo depois de tanta busca na Internet, infelizmente, persiste uma pulga atrás de nossa orelha. Entre outras coisas, por conta de uma historinha que nos chegou a partir do testemunho de um ilustre ex-aluno de respeitabilíssima Universidade brasileira. Vizinhos ao prédio onde nosso informante estudou, há uma praça cheia do que a modernidade chamaria de food trucks, ou seja, na verdade uns trailers mal-ajambrados, entre os quais se destaca uma pastelaria muito popular. Um professor costumava encomendar, para entrega em sua unidade de ensino, pombos vadios para demonstrações nas aulas práticas de Anatomia de Aves. Um belo dia, na falta de animais, o professor saiu à pracinha, onde sempre se via uma infinidade de pombos. Desajeitado, o mestre tentava de tudo, mas não conseguia capturar nenhum. Lá pelas tantas, o dono da pastelaria saiu de seu trailer e ofereceu ajuda. Aproximou-se lentamente de um pombo que ciscava no chão e logo a ave se deixou pegar, sem resistência, ao som da melodiosa voz do Sr. Wang, que cantarolava mansamente “fango…fango...”.
          Feliz Natal!
         
Rafael Linden