domingo, 31 de julho de 2016

O bode no museu

          Excelente  título para uma crônica, não é? Faz lembrar a parábola do pobre camponês que vivia com a esposa e cinco filhos num  casebre de um único  cômodo e, enlouquecido com o constante rebuliço,  buscou a  ajuda do sábio de sua aldeia. Foi então aconselhado a colocar dentro de casa suas três galinhas, uma vaca e um bode, animais que garantiam o sustento da família. Assim o fez e logo  voltou a procurar o sábio, ainda mais desesperado. Novo conselho: retirar as galinhas. Mais um dia se passou e foi instruído a remover a vaca. E o último conselho foi tirar o bode de dentro da casa. Como a senhora bem sabe, no dia seguinte o pobre voltou a procurar o sábio, para lhe agradecer os conselhos que, finalmente, fizeram  toda a família apreciar o grande conforto que a tosca choupana lhes proporcionava. A gentil leitora acha edificante? Pois mais nos parece uma pregação obscurantista, destinada a assacar a mais ignóbil crueldade à classe do sábios.
          Malgrado o desconforto deste vosso criado com a aura de sabedoria que se costuma atribuir a tal parábola, dali surgiu a expressão “tirar o bode da sala”, a qual salienta o benefício de, simplesmente, livrar-se de inconveniências que jamais deveriam ter sido provocadas por quem  delas padece. Seria esta a razão pela qual o Moderna Museet de Estocolmo, de bom grado, concordou em emprestar à Tate Modern de Londres uma das mais, senão a mais famosa obra do artista americano Robert Rauschenberg, para ser exibida na maior retrospectiva do trabalho do artista organizada nos últimos vinte anos? Os dois museus são exemplos do que há de mais importante dentre as coleções  de arte moderna e contemporânea na Europa, e a tal obra prima de Rauschenberg vai ser exibida na Inglaterra pela primeira vez em meio século, como parte da mostra que estará aberta a partir de dezembro de 2016 por apenas cinco meses. Mas, afinal, que obra é esta, que causa tanto frisson no mundo das artes, a ponto de ser definida pelo jornal The Guardian  como “ a estrela do Moderna Museet” e “o ponto alto da exposição na Tate”? Pois chama-se Monogram, 1955-1959 e consiste, vejam vocês, de um bode empalhado, cujo tronco atravessa um pneu velho de automóvel, tudo isso montado sobre uma plataforma cheia de quinquilharias, entre as quais se destacam um salto de sapato de borracha e uma bola de tênis encardida, estrategicamente localizada na plataforma logo abaixo do...a senhora sabe…do…do…derrière do bode.
          Mas, alto lá! Não se trata de um bode qualquer. Para horror da gentil leitora que costuma saborear nossas crônicas acariciando dengosamente o dorso de seu gato Angorá, trata-se precisamente de um bode Angorá, variedade caprina das mais nobres, cuja pelagem longa e macia se transforma na lã Mohair, uma das mais apreciadas pelos felizardos que não são alérgicos ao tecido natural. Ainda assim, é notável que uma descrição como a que nossos inúmeros fãs acabaram de ler corresponda a uma obra de arte emblemática, cartão de visitas de um artista festejado pela crítica e por grande parte dos amantes da arte moderna, reconhecido como um revolucionário que, junto com Jasper Johns, sacudiu as artes plásticas nos EUA a partir da segunda metade do século XX, ao romper o paradigma do outrora inovador Expressionismo Abstrato de, entre outros, Jackson Pollock, Mark Rothko e Willem de Koonig.
          Este último, aliás, contribuiu de certa forma involuntariamente para as hostes inimigas. Conta-se que, muito a contragosto, de Koonig acabou por atender aos insistentes apelos de Rauschenberg para que lhe cedesse um de seus desenhos, a fim de  ser apagado pelo último com o intuito de testar o conceito de que o apagamento de uma obra de arte é uma forma de arte. Não se iluda, caro leitor, saiba que o quadro “Desenho apagado de de Koonig” consta da lista dos trabalhos mais importantes de Rauschenberg. Assim como seu notório “Quadro branco” que é exatamente isso, tal qual o quadro inteiramente branco que serve de fio condutor para a inesquecível peça “Arte”, da francesa Yasmina Reza, que este modesto cronista asssistiu há quase duas décadas aqui no Rio de Janeiro, interpretada de forma magistral por um trio de atores, especialmente  por Pedro Paulo Rangel. E  por aí vai. Portanto, não chega a ser surpreendente que o ápice de uma exposição histórica, como a que está em montagem na Tate Modern, seja um bode empalhado cuja reputação supera, de muito, a de  inúmeras celebridades empalhadas que frequentam as páginas dos jornais e revistas e entulham as redes sociais deste nosso planeta improvável.
          Haverá, sem dúvida, muito a debater sobre a arte de Rauschenberg, a começar pela descrença de muita gente sobre isto ser sequer um assunto. No entanto, um tema desses costuma despertar paixões tanto ou mais extremas quanto a política e o futebol, ambos  também sujeitos a sérias dúvidas sobre se realmente constituem assuntos relevantes. Daqui do telhado, embalsamados em nosso gritante primarismo em questões teóricas no âmbito das artes plásticas, resta-nos ressaltar que gostamos de ver e  rever pinturas de Van Gogh, Monet, Vermeer, Klimt, Kandinsky, Picasso, Magritte, Dali, esculturas  de Michelangelo, Bernini, Brancusi, Rodin, mas também nos intrigam as pinturas de Pollock e outros expressionistas abstratos, bem como  esculturas de Marcel Duchamp e Jean Arp. Já topamos com obras de Rauschenberg ou Jasper Johns, sem danos significativos a nossa integridade psíquica.  Nada nos impediria, portanto, de passar uma tarde na Tate para mergulhar na estudada insanidade de Rauschenberg,  apreciar o bode e toda a coleção que lá estará. E, sobretudo, esquivar-nos de aderir a esta ou aquela posição extrema, tanto dos que o endeusam com ou sem conhecimento de causa, quanto dos que o detestam sem sequer admitir visões alternativas do universo da arte. Na verdade, qualquer um que aprecie obras centenárias e até milenares deve atentar para os adjetivos antes de passar julgamento sobre o trabalho de autores que há poucos anos ainda estavam produzindo trabalhos cuja sobrevivência dificilmente se pode garantir ou descartar. Afinal, à parte uns poucos desenhos, Van Gogh só vendeu em vida um quadro, assim mesmo para uma colega de exposição, enquanto um século depois uma de suas pinturas alcançou o preço de noventa milhões de dólares.
          Ainda assim, e ao contrário de professada resistência a  opiniões definitivas sobre artes plásticas, nossa inabalável fé no valor intrínseco de uma boa pilhéria nos impele a perguntar se o diretor do  Moderna Museet não teria, por acaso, encontrado uma maneira elegante de se livrar de um bode que o incomoda desde que foi parar na sala mais visitada do circuito artístico da Suécia. Alguém aí cuidou de examinar o contrato de cessão do Monogram, para confirmar se há uma data prevista para a obra retornar a Estocolmo?


Rafael Linden

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Canção que provoca arrepio...

          Queiram perdoar mas, sem a devida vênia, nosso título de hoje é um plágio descarado – ou quase – de um verso da canção “Menino do Rio”, que Caetano Veloso compôs, a pedido de Baby Consuelo, em homenagem ao surfista Petit. Porém, como tudo que se faz aqui no blogue, esse deslize de nossa parte é por uma boa causa. Fazemo-lo para falar do arrepio que nos causam trechos marcantes de certas músicas. Isso mesmo, querida leitora, aquele frisson que lhe dá quando ouve The long and winding road, Jumpin’ Jack Flash, As rosas não falam, Cálice, a Sonata Kreutzer, a Polonaise heróica, a Quinta Sinfonia…nenhuma delas? Tudo bem, algumas dessas arrepiam alguém, a gentil senhora tem as suas e, quem sabe, até o rabugento tem lá sua lista particular. Mas nem todo mundo se arrepia ao ouvir obras musicais, mesmo suas preferidas. Se perguntarmos por aí, haverá quem diga que sente muito prazer, fica hipnotizado, enlevado, feliz, de paz com a vida, mas só uns poucos poderão garantir que ficam arrepiados, no duro, com os pelinhos do braço eriçados e aquele tremelique que sobe e desce pela nuca.
          Esse arrepio é uma manifestação emocional objetiva, uma das mais fortes que o prazer de ouvir boa música é capaz de provocar. Mas não em qualquer um. Muitos se deliciam com suas canções prediletas, porém não chegam a se arrepiar. Já outros se arrepiam ao ouvir algumas das músicas de que gostam, mas só algumas em meio à coleção de CDs que compraram a peso de ouro para desfrutá-los no sacrossanto recesso de seus lares. Curioso, não? Pois não se trata apenas de um factóide moderadamente interessante. É uma observação que atiça o espírito científico de quem se dedica a estudar a Neurociência da experiência estética. O rabugento já resmunga que o que ele quer mesmo é ouvir em paz o seu pagode sem ser incomodado com minúcias sobre o funcionamento do cérebro. Deixemo-lo em paz. Mas saibam que há motivos fortes para cientistas sérios se dedicarem a descobrir os fundamentos biológicos do prazer estético.
          E é isso que faz uma jovem cientista da Wesleyan University, nos EUA. A moça, filha de imigrantes chineses, Bacharel em Psicologia, PhD em Cognição e Comportamento Humano, ex-Instrutora de Neurologia em Harvard e hoje Professora de Psicologia, chama-se…Psyche Loui. Para evitar piadinhas com essa curiosa coerência entre nome próprio e profissão, acrescente-se que Psyche é também Bacharel em Música, exímia violinista e deu aulas de piano e violino em uma escola particular quando era aluna de graduação universitária. Um Curriculo desses explica direitinho seu interesse na Psicobiologia aplicada à estética, não é mesmo? Pois ela resolveu estudar os fundamentos neurobiológicos do tal arrepio causado por músicas em alguns seres humanos.
          Mais precisamente, ela está interessada em saber por que é tão variável a resposta emocional de seres humanos à música. Acreditem, há quem não sinta prazer algum em ouvir música, embora reaja normalmente a outras formas de arte, como a pintura. Já se sabia que o prazer estético associado à música depende de certas conexões entre áreas cerebrais relativamente bem delimitadas, uma parte delas dedicada à sensação auditiva e outra envolvida com diferentes formas de recompensa. Para entender melhor a razão da variabilidade entre pessoas distintas, Psyche e um grupo de colaboradores da Harvard University selecionaram, dentre um grande número de voluntários com reações as mais variadas à música, dois grupos: um de pessoas que se arrepiavam com suas canções prediletas - o “grupo do arrepio” - e outro que, embora tivesse suas predileções musicais, nunca se arrepiava - o “grupo sem arrepio”, é claro. O trabalho foi publicado em março de 2016 na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience.
          O estudo consistiu em apresentar aos participantes trechos de músicas identificadas pelos próprios voluntários como suas prediletas, e registrar para cada indivíduo o relato de suas sensações, bem como a ocorrência ou não de arrepios, o ritmo dos batimentos do coração e a condutância elétrica da pele, essas duas últimas respostas normalmente usadas para detectar alterações de cunho emocional. O resultado mostrou uma relação estreita entre a ocorrência de arrepios e a intensidade da resposta fisiológica à música. Além disso, os pesquisadores examinaram o cérebro dos participantes por uma técnica poderosa de imagem, chamada Ressonância Magnética Nuclear por Tensor de Difusão, detalhes da qual, acreditem, ninguém aqui quer saber. Basta acreditar que é usada para mostrar a estrutura de conexões cerebrais de indivíduos vivos. E o resultado foi interessante, porque o “grupo do arrepio” mostrou um volume muito maior de conexões entre a àrea auditiva e as áreas de recompensa do cérebro do que os “sem arrepio”. Bacaninha, né? Uma porção maior do cérebro é usada por quem apresenta respostas emocionais tão mais intensas que chegam a arrepiar o cidadão! A coincidência com os resultados do ritmo cardíaco e da condutância da pele demonstrou um engajamento fisiológico mais intenso no “grupo do arrepio”, compatível com a diferença de resposta individual à música.
          Pois taí o que a jovem Psyche faz na vida. Persegue com a Neurociência as razões pelas quais uns se emocionam mais do que outros com a música e, agora, já pergunta se uma relação análoga àquela entre a anatomia do cérebro e a experiência estética musical também se aplica a outras formas de arte. Os autores sugeriram que seus resultados podem ser importantes tanto para teorias científicas quanto filosóficas acerca da evolução da estética humana, em particular no caso da música, um elemento cultural heterogêneo porém universal.  De quebra, o trabalho pode dar pistas sobre outros mistérios do cérebro humano como, por exemplo, as causas das diferenças entre pessoas dotadas de alta empatia emocional e indivíduos portadores de distúrbios sócio-emocionais. como no autismo.
          Por fim, ainda podemos saborear a poesia embutida no nome da jovem cientista, Psyche, palavra que em grego significa “alma”, e nome da heroína de uma das mais belas narrativas da mitologia grega, a do amor verdadeiro entre Psyche e Eros. Sabe-se lá, talvez a primeira noite de amor dos protagonistas daquele mito tenha sido a inspiração para o apelido de “orgasmo da pele”, que alguns pesquisadores usam para definir o arrepio provocado pela apreciação estética da música.

Rafael Linden
         

           

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Buraco negro tem cabelo macio

          E lá vai a gentil leitora aos trambolhões, com o chinelo na mão atrás do Juquinha, ainda que esse jure de pés juntos que se trata de uma descoberta científica e não uma grosseria escatológica. Caso contrário ele não teria dito alegremente esta frase para a avó, que ipso facto jaz desmaiada no sofá. Pasmem, o guri pode ser um belo dum canalha, mas desta vez não tem culpa. É isso mesmo. Homessa! Como foi que esta pérola entrou para os…registros – registros, sim, melhor do que a alternativa – da Ciência contemporânea?
          Trata-se, mais uma vez, da velha e boa Física. Um “buraco negro” – black hole na língua do quatrocentão Shakespeare – é um corpo celeste no qual a força da gravidade é tão grande que suga para dentro de si tudo o que existe ao seu redor, inclusive a luz. Por isso não pode ser visualizado, e só se consegue detectá-lo pelos efeitos esdrúxulos que exerce sobre qualquer coisa na vizinhança, por exemplo uma estrela. Esse conceito é estudado por físicos teóricos através de modelos matemáticos complexíssimos.
          A obssessão capilar nesse campo de pesquisa começou na década de 1970, quando o físico norteamericano John Wheeler escreveu, em um artigo publicado na revista Physics Today, que “buracos negros não têm cabelo”. Ele queria dizer que esses corpos celestes tinham características muito bem definidas, determinadas simplesmente pela sua massa, pelo chamado “momento angular total” - uma característica do movimento – e, talvez, também pela sua carga elétrica. Todas essas propriedades são intrínsecas ao buraco negro, ao contrário do “cabelo”, que seria visível como o elegantíssimo penteado da gentil leitora, mesmo descabelada pela perseguição ao inocente Juquinha.
          Nem todo mundo concordava com essa idéia. De cara, a frase de Wheeler foi considerada obscena pelo genial físico Richard Feynman que, entre outras coisas, passou duas temporadas trabalhando e dando aulas no Brasil e aprendeu a batucar na frigideira na bateria de uma Escola de Samba. Mais importante, uma galera de pesquisadores da área saiu mundo afora procurando cabelo, não em ovo, mas em buracos negros. E não é que acharam? Entre eles, dois cientistas da Universidade de Aveiro, em Portugal, que em 2014 publicaram um artigo na prestigiosa revista Physical Review Letters, intitulado literalmente “Buracos negros de Kerr com cabelo escalar”, referindo-se aos trabalhos do eminente cientista neozelandês Roy Kerr. Não é surpresa que tamanha informalidade, de certa forma, acabe dando origem à inocência com que o Juquinha passou a comentar essas coisas com a própria avó. É a mesma candidez com que os editores da revista Superinteressante, em Portugal, celebraram maliciosamente a descoberta de seus compatriotas com uma reportagem intitulada “Cientistas portugueses defendem que buracos negros têm cabelo”.
          E o que vem a ser cabelo de buraco negro? O apelido representa propriedades inéditas de certos tipos de buracos negros diferentes daqueles que foram propostos ao longo das últimas décadas. A teoria é complicada pra chuchu, mas poderá vir a ser comprovada, ou não, no futuro com novas observações do comportamento de estrelas ou gases nas vizinhanças de buracos negros. Esse campo, é claro, tem também o dedo do notório cientista Stephen Hawking. Ele havia, há algum tempo, proposto que a evaporação de buracos negros era capaz de destruir informação. Como se não bastasse tudo o mais, buracos negros poderiam evaporar sem deixar vestígios! Entretanto, recentemente Hawking e dois outros cientistas publicaram, também na Physical Review Letters, um novo artigo em que reavaliam suas premissas e, agora, apresentam indícios do que chamam de “cabelo macio”, componentes que podem conter a informação que supostamente seria perdida quando um buraco negro evaporasse.  
          A proposta de sumiço de informação era um escândalo por ser incompatível com leis da Física Quântica.  Leitores de todos os cantos do planeta murmuram que não é nada demais comparado ao que certos políticos, empresários e outros potentados de países que não convém nomear fazem, ou tentam fazer, com outras tantas leis. Mas os cálculos novos parecem explicar melhor os buracos negros e – ufa! – aproximam-se de um conjunto de conhecimento mais coerente, sem violações de leis fundamentais da Física. Ou seja, foi mesmo o progresso da Ciência que levou o Juquinha a se encantar com a descoberta de que buraco negro tem cabelo macio, tal qual as longas e ondulantes madeixas de nossa mais gentil leitora, que ajudam nosso Universo a ficar mais belo.
          Tá certo? Então, alguém aí poderia, por favor, trazer para a avó do Juquinha uma aguinha com açúcar e explicar essa coisa toda para a respeitável senhorinha?

Rafael Linden



sábado, 14 de maio de 2016

Vive la différence!


          De uns tempos para cá tornou-se lugar comum celebrar a diversidade. Nada mais justo, afinal preconceito é o que não falta por aí, das mais variadas categorias: étnicas, religiosas, ideológicas, políticas, eleitorais, estúpidas ou cínicas. Ainda assim, nosso habitual garimpo internáutico fracassou na tentativa de encontrar a mais antiga menção ao termo “celebração da diversidade”. O máximo que conseguimos, num portal de etimologia meio suspeito, foi uma referência ao ano de 1963 como data de origem da expressão estampada no topo da crônica com a qual a gentil leitora se delicia neste exato momento. E saibam que, em que pese os esforços de uma tenaz professora de francês dos tempos do ginásio, cujo nome nos escapa, a busca na rede foi indispensável para ajudar vosso amado cronista a escrever o título acima com todos os éfes, érres e biquinhos.
          O rabugento apressa-se a nos criticar, sob a alegação de que “Vive la différence!” é preconceituoso por ser usado em geral para exaltar as diferenças entre homens e mulheres. Nesse caso, só resta enfatizar que nem mesmo uma versão revista e ampliada da Constituição Federal nos impedirá de apreciar na gentil leitora atributos que não nos cabe possuir. E basta de sem-vergonhice, pois aqui se esgota o espaço tradicionalmente dedicado a circunlóquios e é hora do busílis. Hoje falamos de micróbios. Ou microorganismos, como se diz no ambiente acadêmico.
          Micróbios, sim senhora, no plural. E que plural! Não são uma dúzia ou uma centena. Trata-se de um trilhão de espécies distintas de micróbios. Não, senhor, também não é apenas um trilhão de indivíduos. Para se ter uma idéia, o American Kennel Club registra oficialmente pouco menos de duzentas raças de cães, e a Federação Cinológica Internacional reconhece mais de trezentas, mas todas são classificadas como variantes de uma única espécie, Canis familiaris. Agora feche os olhos e imagine um trilhão de espécies de cães, com uma média de, digamos, mil auaus para cada espécie, todos latindo ao mesmo tempo. Sem falar nos sete e meio bilhões de seres humanos que, nunca é demais repetir, são todos e todas da mesma espécie Homo sapiens.
          Acontece que, salvo melhor juizo de especialistas, um trilhão é a nova estimativa do número de espécies de micróbios suficientemente distintas umas das outras para merecer classificação diferencial. A novidade veio de um artigo, publicado em maio de 2016 por Kenneth Locey e Jay Lennon, da Universidade de Indiana nos EUA, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Ken & Jay não são uma marca de sorvete nem uma dupla caipira. São dois especialistas em biodiversidade, que andavam cismados com as estimativas mais recentes da diversidade da fauna e da flora do planeta. De tanto matutar, desenvolveram modelos matemáticos mais robustos para analisar populações compostas por grandes números de espécies de seres vivos. E aplicaram estes modelos aos dados disponíveis sobre mais de trinta e cinco mil comunidades de mamíferos, aves, plantas, bactérias e fungos. Com isso eles esperavam calcular melhor os números de seres vivos, inclusive das espécies mais raras de micróbios, as quais tem sido muito menos estudadas do que plantas e animais corriqueiros. E chegaram a um trilhão de espécies distintas de microorganismos, uma multidão microscópica que se distribui pelos ambientes mais diversos no planeta, inclusive no corpo humano. O complexo envelope de nossos melhores sonhos e piores angústias é, ora vejam,  habitado por algumas dezenas de trilhões de bactérias de várias espécies, a maioria do bem. Isso mesmo, bactérias residentes e domiciliadas no corpo da gentil leitora, no corpo do rabugento, de todos nós. Mesmo depois do banho.
          Por si só, a diversidade dos microorganismos impressiona. Mas os pesquisadores também examinaram outras características da biodiversidade, entre as quais uma propriedade conhecida pelo termo “raridade”. Para simplificar, há espécies ditas “dominantes”, das quais existem grandes números de indivíduos como certos insetos, e espécies raras, das quais há poucos exemplares como a lula gigante. Dez anos antes de Ken & Jay, o cientista Mitchell Sogin, do Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole, nos EUA, estudou microorganismos encontrados em águas profundas do Atlântico Norte, e classificou as  espécies com base em diferenças genéticas. Embora a maioria das amostras fosse dominada por um punhado de espécies abundantes, Sogin identificou milhares de outras, cada uma representada por um número pequeno de bactérias individuais, e inventou o termo “biosfera rara” para designar esse conjunto de espécies raras.
          Poder-se-ia pensar que se trata de espécies em extinção, que não deverão resistir na presença de espécies muito mais abundantes – e bota muito mais nisso. Mas não é o caso. As espécies raras parecem bem adaptadas aos seus nichos e o doutor Sogin especulava que as espécies raras podem ter exercido um grande impacto sobre processos globais em diferentes momentos ao longo da história do planeta. Ken & Jay acrescentaram outras idéias para tentar explicar a persistência destes grupos minoritários, incluindo características dos seus estágios de vida, tendência a se dispersar e colonizar novos habitats, capacidade de repartir nichos ecológicos e habilidade em manter populações reduzidas. Assim, os grupos minoritários teriam o potencial de se tornar dominantes no caso de mudanças do ambiente e, por conseguinte, passar a – ou voltar a - influenciar processos globais.
          O escritor irlandês Oscar Wilde dizia que a Vida imita a Arte. Esse nosso mundo tem dado voltas frequentes e estonteantes, e muita coisa tem incomodado qualquer um que tenha um mínimo de preocupação com o futuro. Por essas e outras, não deixa de ser reconfortante aprender - e reaprender, quantas vezes forem necessárias - que a diversidade é natural, resiliente e dinâmica. E que – Vive la différence! - sempre haverá uma reserva de raridades, até mesmo dentre os membros de nossa espécie, que poderão, em outras circunstâncias, tomar um rumo melhor do que se vê no nosso sofrido planeta. Basta que, tautologicamente, a Vida imite a Biologia.

Rafael Linden


domingo, 1 de maio de 2016

Os deuses e o clima


          Aqui no Rio de Janeiro, há poucos dias padecíamos de um calor insuportável quando, subitamente, nos atingiu o que os meteorologistas chamam de uma grande e forte massa de ar polar com ventos moderados, coisa essa que no dialeto carioca é conhecida como tá-frio-pácash. A gentil leitora assustou-se com a incômoda perspectiva de não dar praia no fim de semana. Já o rabugento festejou com meia garrafa daquele conhaque que matou o guarda, enquanto nós aqui degustamos uma reconfortante chávena do melhor Earl Grey disponível na praça. Numa hora dessas, inevitavelmente, nossa mente promíscua desliza para as mudanças climáticas.
          Não, senhora, pode guardar o biquini, que lhe será útil ainda por muito tempo. Esse rápido soluço da temperatura não é sinal de que, justo aqui na Cidade Maravilhosa, o aquecimento global deu lugar a uma nova era glacial, pois mudanças climáticas ocorrem aos poucos, mesmo contando com a inestimável colaboração do desvario ambiental e das emissões descontroladas de carbono. Já o tempo que nos resta antes da extinção da vida no planeta é outra questão, porque ainda se debate qual é a contribuição relativa dos muitos fatores que afetam o clima, dentre eles ciclos naturais, condições locais como crescimento populacional, manejo da terra e das florestas e gerenciamento de recursos hídricos, bem como as práticas industriais. E também há quem acredite que mudanças climáticas acontecem simplesmente porque, dependendo da denominação religiosa, uma única ou várias entidades sobrenaturais assim o querem.
          Por isso tudo, deleita-nos o trabalho publicado na revista Scientific Reports, feito por uma equipe multinacional de cientistas, coordenada pelos limnologistas Sapna Sharma, da Universidade de York, no Canadá, e John Magnuson, da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. O grupo revelou novos indícios a favor da relação entre a atividade industrial, o aquecimento global e a perturbação de ecossistemas em rios e lagos. Na verdade, evidências desta interação já vem se acumulando ao longo de muitos anos, mas o dados de antes da metade do século XIX eram sempre inferidos a partir de achados paleontológicos. Já neste trabalho, a novidade foi a identificação e o uso de informações objetivas colhidas ao longo de quase seiscentos anos.
          Essas informações vieram do Rio Torne que, em grande parte, corre ao longo da fronteira entre a Finlândia e a Suécia na direção do Mar Báltico, e do Lago Suwa, situado na região de Nagano, no Japão. Ambos congelam durante o inverno e degelam no início da primavera e, por razões distintas, a data do início do degelo do Rio Torne vem sendo objeto de registro desde 1693, enquanto o congelamento completo do Lago Suwa vem sendo registrado desde 1443. Esse lago, aliás, fica a menos de cem quilômetros do Monte Fuji, e foi imortalizado em uma das célebres gravuras da maravilhosa coleção produzida pelo artista japonês Katsushika Hokusai no século XIX.
          O Rio Torne é muito badalado na Escandinávia, porque é o local onde a criatividade nórdica inventou o Hotel de Gelo, uma construção de gelo moldado da água do rio. O hotel, que derrete na primavera e é reconstruído a cada ano próximo à cidade sueca de Jukkasjärvi, serve de pousada e local de atividades artísticas. Mas o Torne também é a principal fonte de salmão naquela região, e há séculos serve como via de escoamento de produtos comerciais. Por esse motivo, a partir do fim do século XVII um mercador começou a registrar as datas do início do degelo do rio. Depois, a prática se tornou rotineira, e atualmente há até um insólito concurso anual de advinhação do horário do evento. Deve haver muito pouca coisa para se fazer na beira desse rio… Mas assim se tornaram disponíveis dados confiáveis sobre as datas de início do degelo do rio ao longo de mais de trezentos anos.
          Existe também uma coleção semelhante de dados sobre a data de congelamento total do Lago Suwa, mas por outra razão. Esse registro é feito há mais de quinhentos anos por kannushi, sacerdotes da religião Shinto, em honra da lenda segundo a qual o congelamento do lago permite ao deus Takeminakata atravessá-lo para visitar sua esposa, a deusa Yasakatome, do lado oposto do lago. O Suwa contém, abaixo da superfície, uma fonte de água quente que, por ocasião do congelamento, caprichosamente produz uma trilha elevada e sinuosa na superfície do lago, chamada de omiwatari. Reza a tradição que se trata das pegadas de Takeminakata em sua jornada rumo ao santuário da esposa. O congelamento é seguido de uma cerimônia de purificação celebrada pelos kannushi, a qual é devidamente registrada em papel de arroz e vem sendo preservada por uma sucessão de quinze gerações de sacerdotes. Na prática, o ponto de partida e a direção da elevação eram ainda usados como indicadores para previsão das colheitas, temperatura e chuvas naquela região.
          A análise dos registros revelou alterações substanciais ao longo de séculos nos cronogramas tanto do degelo do Rio Torne quanto do congelamento do Lago Suwa. Tais alterações passaram a ser mais acentuadas a partir de meados do século XIX, coincidindo com a época da Revolução Industrial. A aplicação de métodos estatísticos indicou que estas mudanças, em locais tão distantes um do outro, se relacionam estreitamente com a quantidade de gás carbônico na atmosfera e a temperatura do ar. Foi também notado que a partir da Revolução Industrial aumentou a frequência com que o Lago Suwa deixou de congelar completamente durante o inverno. Os cientistas comentam que, além de efeitos sobre taxas de evaporação e precipitação pluvial, bem como sobre processos biológicos relevantes para a subsistência dos povos que vivem em regiões mais frias, mudanças nos ciclos de congelamento e degelo de lagos e rios afetam atividades esportivas e recreativas e impactam a própria identidade cultural destas populações.
          A Climatologia é fascinante. Mas, não bastasse tudo isso, nós aqui ainda ficamos preocupados com a possibilidade de que falhas do congelamento anual possam abalar irreparavelmente a felicidade conjugal do casal de deuses do Suwa. Já imaginaram a frustração de Takeminakata, ao se ver impedido de atravessar o lago todos os anos para aproveitar aquele friozinho ao encontrar sua doce Yasakatome? Além de todo o estrago concreto que a progressão do aquecimento global possa produzir, só nos faltava que até os romances dos deuses se tornem vítimas das mudanças climáticas…

Rafael Linden