sábado, 26 de novembro de 2016

Latrinas do poder

          Já uma vez, ao escrever sobre um pouquinho de Ciência, este humilde cronista trilhou o perigoso caminho da escatologia quando discorreu sobre a descoberta, na Argentina, de um local reservado onde defecavam animais pré-históricos. Eis que novamente o destino nos reserva assunto semelhante o qual, no entanto, será tratado com nossa indefectível elegância. Como sempre.
          O ano da graça de 2016 está acabando e, com ele, o quarto centenário da morte de Shakespeare. Aproveitemos pois para render mais uma homenagem ao bardo, lembrando uma célebre frase do primeiro ato da peça Hamlet, que muita gente acha ser dita pelo protagonista mas, na verdade, sai da boca de Marcellus, um dos sentinelas do Palácio Real. Esse personagem se refere à derrocada moral de seu país com a expressão “…há algo de podre no Reino da Dinamarca”. E não é que, justo agora, vem da Dinamarca a notícia de que um punhado de fezes petrificadas, encontrado num recipiente quebrado no depósito de um museu, foi produzido entre o final do século XVII e o início do século XVIII, e “pertenceu” a um certo bispo? Durma-se com um barulho - ou um cheiro - desses…
          Pois é isso mesmo. A descoberta foi feita pela arqueóloga Jette Linaa junto com seu colega Christian Vraengmose, ambos cientistas do Museu Moesgaard, localizado na cidade dinamarquesa de Aarhus. Esse museu é especializado em Pré-História e Etnografia, e o tal recipiente tinha sido esquecido no depósito desde 1937, quando foi encontrado no local em que ficava o palácio do bispo Jens Bircherod. O clérigo exerceu sua função na cidade de Aalborg entre 1694 e 1708, e o material tinha sido recolhido de uma latrina do seu palácio. A doutora Linaa deu de cara com aquilo quando garimpava indícios de migrações de populações dinamarquesas para centros urbanos entre os séculos XV e XVII.
          A pesquisadora levou o espécime para exame por um arqueobotânico que, tadinho, para começar teve de reidratar o tolete ressecado, com previsíveis consequências odoríficas. Mas o pesquisador foi recompensado com a constatação de que ali havia restos de uma dieta saudável, incluindo sementes, oleaginosas, frutas vermelhas e trigo sarraceno, esse último comum na ilha em que o bispo Bircherod passou a infância e juventude. Tais alimentos correspondiam à dieta das classes privilegiadas da época, enquanto os servos comiam habitualmente carnes de porco e boi, repolho e pão de centeio. Além disso, a latrina que abrigava a preciosidade era usada apenas pelo bispo e sua esposa, portanto um dos dois tinha de ser responsável por aquela m…, perdão, pelo achado. Ainda assim, apesar desta história toda parecer uma paródia dos filmes de Indiana Jones, é a primeira vez que se consegue atribuir um excremento fossilizado a um determinado indivíduo. Ou a um casal, afinal, entre várias reportagens sobre o assunto, incluindo uma entrevista ao vivo que a doutora Linaa concedeu à jornalista Helen Mann para a Radio Canada, este perplexo cronista não conseguiu descobrir a razão pela qual quase todo mundo desconsiderou a hipótese de que a emissora do artefato fosse a esposa. De qualquer modo, a identificação do autor da façanha seiscentista repousa sobre a diferença de dietas entre poderosos e seus servos, um prato cheio – queiram perdoar - para quem frequentemente se entristece com este mundo em que vivemos.
          Como é de se esperar, cá do telhado não podemos deixar de assinalar a coincidência cósmica entre a descoberta arqueológica dos pesquisadores dinamarqueses e uma outra latrina européia, essa contemporânea, fabricada na Polônia e descrita no portal da empresa Xime como um “assento-bidê eletrônico”. Essa tampa de privada pós-moderna também pertence a poderosos, e foi revelada em páginas políticas ou policiais dos jornais – qual é mesmo a diferença entre essas duas? -, a partir do trabalho de uma classe distinta de investigadores, os quais costumam apresentar seus achados a magistrados de varas criminais, ao contrário dos simpáticos cientistas dinamarqueses que frequentam simpósios científicos e eventos culturais.
          Isto posto, a gentil leitora não perde por esperar pois, assim como lá na Dinamarca há outras duas latrinas encontradas em Aalborg à espera do escrutínio da doutora Linaa, certamente há muitas outras privadas modernas a investigar por aqui mesmo. Afinal, sempre existe o que desvendar nos diversos tipos de mobiliário que ornamentam aposentos imperiais, como diria o oficial Marcellus, em reinos nos quais há muito de podre.

Rafael Linden


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Trinta e um e meio quatrilhões de trilhões de zeptossegundos

          Daqui do telhado ouve-se a melodiosa voz da leitora consternada, a lamentar a insanidade que assola a confusa mente deste modesto escriba. Que raio de título é esse? Mal sabe ela que o abantesma no topo do texto significa quase um ano, faltando meras dez horas. Sim, sim, sabemos que a explicação não mitigou sua estupefação. Quem sabe nos próximos parágrafos? Afinal, do que se trata? Pois lá vai, aos pouquinhos como de hábito.
          Há duas décadas estreava na Broadway o musical Rent (“aluguel” no idioma de Shakespeare), criado pelo dramaturgo Jonathan Larson. A peça remete à ópera La Bohème, de Puccini, por sua vez inspirada no livro Scènes de la vie de bohème (“Cenas da vida boêmia” no idioma de Molière), de autoria de um certo Henri Murger com base em sua vida de escritor pobre em Paris no século XIX. Rent conta a história de sete artistas que lutam para sobreviver e perseguir seus sonhos na Nova Iorque dos anos 1980, num cenário de desemprego, drogas, liberação sexual e AIDS. A peça é considerada um divisor de águas neste estilo de musical, foi laureada não apenas com o Tony Award, mas também com o prêmio Pulitzer de Teatro, que colocou o autor na companhia de grandes dramaturgos norteamericanos, como Tennessee Williams, Arthur Miller, Edward Albee e outros. As tragédias fictícias dos personagens, no entanto, carregam a amarga ironia de que, aos trinta e cinco anos de idade, Larson foi vítima de um aparente erro médico em dois hospitais de Nova Iorque e morreu quatro dias antes da estréia consagradora da peça em um dos principais teatros da cidade.
          Uma das canções emblemáticas de Rent chama-se “Temporadas de amor” (Seasons of love). Nela se pergunta como mensurar um ano na vida de alguém, para concluir que, entre várias opções, pode-se – ou deve-se – usar como unidade de medida o amor. A letra começa com o verso “quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos”, correspondente a um ano - faça a conta, rabugento, e não atrapalhe a poesia com bissextos ou relógios atômicos. Ah, agora sim, vislumbra-se uma razão para aquele título esquisito, não é mesmo? Só nos falta explicar o que são os tais zeptosegundos. É simples, basta lembrar que uma hora tem sessenta minutos, e cada minuto tem sessenta segundos. Quem tem alguma simpatia por Matemática chama de milissegundo um milésimo de segundo, enquanto um milionésimo de segundo é chamado de microssegundo. A senhora acha que um microssegundo passa rapidinho? Pois um zeptossegundo dura exatamente um trilionésimo de bilionésimo de segundo. “Trilionésimo de bilionésimo” parece doença do fígado, mas na verdade é uma fração muito, muito, muuuuuuuito pequena de um segundo.
          Hoje em dia a cronometragem das corridas de velocidade, como os cem metros rasos, exige câmeras e equipamentos eletrônicos sofisticados para registrar com precisão o tempo de um recordista. Diferenças entre medalhistas de ouro, prata e bronze com frequência são da ordem de alguns centésimos de segundo, um tempo curto demais até para a platéia ter certeza de quem venceu a prova até sair o resultado oficial. Imagine então a petulância de alguém que pretendesse medir um intervalo de tempo de, digamos, uns oitocentos ou novecentos zeptossegundos. Pois não é que cientistas da Alemanha, Áustria e Espanha, deixaram de lado um caloroso debate sobre a supremacia gastronômica de bratwurst, Wiener schnitzel ou paella Valenciana e quebraram o recorde? Isso mesmo, o time liderado pelo cientista Martin Schultze, do Instituto de Óptica Quântica de Garching, na Alemanha, conseguiu medir o tempo necessário para um fóton arrancar um elétron da órbita de um átomo do gás Hélio. Não se assustem com a aparente complexidade, essa coisa se traduz como o tempo necessário para uma quantidade mínima de energia expulsar um componente minúsculo de um átomo. O tempo para ejeção do elétron foi calculado em cerca de dez mil zeptossegundos, com uma precisão de mais ou menos oitocentos e cinquenta zeptossegundos. Não se amofinem com detalhes, basta acreditar que se trata de um evento muito, muito, mas muuuuuuuito rápido mesmo. Tanto que o trabalho destes cientistas, publicado na prestigiosa revista Nature Physics, vem sendo festejado como uma façanha respeitável no ramo da Mecânica Quântica, porque deve abrir oportunidades para novas descobertas sobre as propriedades fundamentais de tudo o que existe no Universo.
          Para chegar ao resultado o grupo se valeu de tecnologia de ponta, incluindo lasers sofisticadíssimos, uma câmera que faz o que profissionais chamam de “fotoluminescência resolvida no tempo”, e um monte de equações e estatísticas. Acabaram conseguindo a medida mais precisa de um fenômeno físico feita até hoje no contexto do chamado “efeito fotoelétrico”, a descoberta que deu a Albert Einstein o prêmio Nobel de Física em 1921. Pois é, caros leitores, na nossa santa ingenuidade, em geral achamos que o linguarudo foi premiado por desenvolver a célebre teoria da relatividade, da qual até o rabugento já ouviu falar. Ledo engano. A Academia Sueca fez questão de enfatizar que o que consideravam a mais importante contribuição de Einstein era “a lei do efeito fotoelétrico”. Fazer o que, né? Se houver uma enquete entre os leitores para descobrir qual é a mais bela composição de Tom Jobim, muitos discordarão do resultado, seja qual for. Melhor deixar de lado as batalhas acadêmicas e aceitar que, mesmo que apareça coisa ainda mais espetacular ainda essa semana, a medida feita pelo grupo do Schultze foi porreta.
          E assim, sem sofrimento, a gentil leitora percebe que seu cronista predileto não está completamente gagá. O título lá de cima é inusitado, mas foi por uma boa causa. Serviu para prender a atenção de quem chegou até esse último parágrafo e, como bonus, ainda terá a oportunidade de degustar mais um de nossos devaneios. Desta vez sobre o tempo, que permeou esta crônica desde os zilhões do título, passando pelos vinte anos de Rent, dezenove séculos de Cristo a Murger, trinta e cinco anos de Larson, quatro dias entre sua morte e a estréia da peça, meio milhão de minutos na canção, mili, micro e zeptossegundos. Como dizem os franceses, tout passe, tout lasse, tout casse et tout remplace...Na velocidade do efeito fotoelétrico, no ritmo dos anos ou ao longo das eras geológicas, com o tempo tudo passa. Até as agruras que andamos sofrendo, aqui ou alhures, cada um na sua medida. Às vezes a persistência deste sofrimento parece durar quatrilhões de trilhões de séculos. Mas sempre se pode usar outras unidades de medida.

Rafael Linden



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

De livro fechado não sai letrado

          Cá entre nós, gentil leitora, não é um luxo que o título de nossa crônica de hoje seja um antigo provérbio citado na versão corrente em Portugal? Tamanha “internacionalização” nos eleva a um patamar jamais imaginado por nossos detratores, não é mesmo? Tá, tá, basta de cabotinismo, mas convenhamos que o dito popular fica especialmente saboroso quando regado a um bom Cabeço das Nogueiras Premium, campeão dos azeites d’além-mar. Nesses tristes tempos em que editoras e livrarias penam para sobreviver, quando não desaparecem de todo, há que se falar de livros. Não foi à toa que Machado de Assis fez o personagem Brás Cubas, nosso favorito em toda sua obra, confessar o temor de que suas memórias póstumas se limitassem a um único exemplar, o qual talvez acabasse nas mãos de um bibliômano que “…fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único! Nesse momento passa-lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar único!...”. Vez por outra, queiram perdoar, deve-se citar um mestre ipsis literis.
          E para que fim? Por acaso o humilde autor deste singelo blogue pretende agora se tornar mais um exegeta de Machado? A audácia! Tranquilizai-vos, longe de nós semelhante isso. Apenas nos aflige a sensação de que a cada dia mais livros permanecem fechados por aí, mesmo quando comprados ou recebidos de presente. Fosse apenas o preço a pagar pela migração do livro em papel para as telas de computadores, tabletes ou espertofones, não seria de todo mau. Mas parece que a memória das engenhocas também anda cheia de literatura virgem. Seja como for, é certo que para ler um livro, no papel ou nas entranhas das máquinas, é preciso abri-lo. Mas, ora vejam, não é que a Ciência está agora a ponto de demolir mais essa nossa certeza? E isso graças a pesquisadores que trabalham no Massachussetts Institute of Technology e no Georgia Institute of Technology, nos EUA, entidades mais conhecidas por suas alcunhas MIT e Georgia Tech.
          O grupo foi liderado por um jovem cientista iraniano, chamado Barmak Heshmat. Ele vem se destacando em sua trajetória acadêmica desde sua admissão como estudante universitário no Iran, há cerca de quinze anos, e agora é uma das estrelas do famoso MIT Media Lab, de onde já sairam inúmeras inovações, entre outras, no campo das imagens. Seu objetivo é desenvolver tecnologias para extrair, de forma não-invasiva, informação de estruturas organizadas em camadas superpostas. Esse tipo de trabalho se aplica, por exemplo, à inspeção industrial ou ao exame de objetos pintados e repintados várias vezes, como certas obras de arte. Mas Heshmat focalizou seu trabalho na possibilidade de ler o conteúdo de livros fechados. O leitor rabugento, preguiçoso como ele só, já se interessou pela idéia de desfrutar da literatura sem precisar largar o copo, que segura na mão esquerda, nem os croquetes que besuntam a direita. Mas há propósitos mais nobres nesta tecnologia, a qual poderá, por exemplo, permitir o exame do conteúdo de livros raros, muito antigos, cujo manuseio seria destrutivo por causa do ressecamento que os fragiliza a ponto de impedir que sejam sequer folheados.
          Os sete pesquisadores, liderados por Heshmat, publicaram seu trabalho na revista Nature Communications em setembro de 2016. Lá descrevem uma nova técnica para identificar letras escritas em uma pilha de folhas de papel, sem separar as folhas. Para isso, usaram feixes da chamada “radiação Tera-hertz” ou “raios T”. Essa radiação faz parte da família das ‘radiações eletromagnéticas”, ou seja, tem natureza semelhante à luz visível. Mas as características dos raios T são intermediárias entre o calor, com o qual a gentil leitora se delicia nas praias cariocas, e as micro-ondas que o rabugento usa diariamente para requentar seu jantar. Física da melhor qualidade foi usada pelos pesquisadores para isolar o conteúdo das páginas individuais empilhadas, enquanto Informática super moderna permitiu processar as imagens para detectar as letras escritas. Tudo isso por causa do comportamento dos raios T refletidos pela finíssima camada de ar entre as folhas empilhadas, ou perturbados por materiais distintos, como o papel em branco ou a tinta usada para escrever as letras. O procedimento mostrou claramente, uma por uma, as letras escritas em cada uma das nove folhas de papel empilhadas no experimento publicado pelos cientistas.
          E é agora que o rabugento insulta pelo menos seis gerações da família deste que vos escreve, queixando-se de ler isso tudo aí de cima por causa de meras nove páginas, quando ele esperava a Enciclopédia Britânica ao seu alcance sem esforço nenhum. Pois essas nove páginas são apenas o primeiro passo de um trabalho que promete refinar a nova tecnologia, para aumentar o número de páginas e melhorar as imagens. Afinal, a primeira transmissão de rádio ou televisão, o primeiro computador pessoal e, não duvidem, o primeiro croquete, padeciam do que hoje se considera um primitivismo inaceitável. Toda tecnologia nova começa assim. Mas não se enganem com o número relativamente pequeno de páginas, porque trata-se de um salto respeitável de qualidade tecnológica. Provavelmente, em um futuro não muito distante, seremos capazes de ler um livro raríssimo, um exemplar único como imaginado por Brás Cubas, bastando frequentar um museu ou biblioteca.
          Há uma ironia gratuita nesta tecnologia, que faz uso de uma radiação com características intermediárias entre o calor das micro-ondas e o do sol, quando a comparamos com o mesmo sol ao qual o único exemplar das Memórias Póstumas de Brás Cubas teria sido exposto por um bibliômano em êxtase. E, já que começamos com um provérbio, não custa assinalar que, em breve, o aforismo “não se deve julgar um livro pela capa” poderá perder seu significado literal para permanecer apenas como o sábio conselho de conhecer profundamente aquilo que, na superfície, aparenta algo que não é.


Rafael Linden


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Liberdade é uma calça velha

          Parece incrível, mas a alma jovial e pueril deste modesto cronista pertence a alguém do tempo em que se garimpava ferros de passar aquecidos a carvão, máquinas de costura obsoletas e pilões enormes de madeira maciça, vendidos baratinho em bazares no interior de Minas Gerais, para decorar a sala com o que considerávamos “antiguidades”, enquanto nossas avós chamavam aquelas tralhas de “velharias”. Isso depois de dois dias acampados, pela primeira vez nas nossas jovens vidas, em pleno Parque Nacional da Serra dos Órgãos no qual, para montar a barraca emprestada por um desavisado, a proverbial mistura de inexperiência e imprevidência nos fez escolher exatamente o lado vazio da clareira, oposto ao que já estava coalhado de outros aventureiros. Obviamente, nossa tenda foi inundada pela chuva torrencial que escorreu para o lado mais baixo do terreno, precedendo a épica invasão de um exército de formigas atraidas pelas migalhas dos biscoitos que as descuidadas meninas da turma saborearam enquanto os intrépidos varões levaram pelo menos uma hora para prender a barraca no chão, a golpes de caneca de metal, esquecidas que foram as ferramentas apropriadas. Ah, o frescor da juventude…primeira e única aventura campestre deste vosso criado, dali por diante camping só em hotel com várias estrelas no Guia Michelin.
          Naqueles tempos, no entanto, qualquer prazer nos divertia. E todos usávamos jeans, também conhecida como “calça americana”. Uniforme obrigatório, democraticamente distribuido ao longo do espectro ideológico, variava na marca e na origem – importada para alguns, já para outros comprada a preço de banana num depósito de roupas em um subúrbio distante. Também se usava, é bom lembrar, o termo “calça Lee”, indiscriminadamente para roupas daquela marca ou de qualquer outra, nacional ou importada, o que causava frouxos de riso quando alguém dizia que ganhou de presente “uma calça Lee da Levi’s”. A vestimenta era símbolo da juventude “descolada”, meio século antes do adjetivo “descolado” ser incorporado à versão coloquial da última flor do Lácio.
          Jeans eram sempre azuis e, de preferência, desbotadas pelo uso constante ou, antes do advento do stone washing, com água sanitária mesmo, para horror das mães e escárnio das mesmas avós que volta e meia oravam pela saúde mental de seus netos tresloucados. A moda garantia o sucesso de comerciais de TV, como a campanha criada pela agência JW Thompson para  as calças USTOP fabricadas pela São Paulo Alpargatas. O produto era propagado por uma historinha de amor estrelada por uma Sandra Annenberg adolescente e, principalmente, por um filmete embalado pela canção composta por Renato Teixeira, Sérgio Mineiro e Betto Ruschel, que dizia “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser…não usa quem não quer…”. E o jingle continuava com um verso antológico, destinado a enfatizar a diferença entre as calças elegantes usadas por nossos pais e a vestimenta informal que  “…desbota e perde o vinco…denim indigo blue…”.
          Pois nossa conversa de hoje versa exatamente sobre o corante usado na fabricação daquelas calças, o tal indigo blue. Atualmente usa-se jeans vermelho, preto, verde, alaranjado, listradinho ou, como dizia minha mãe, “cor de burro quando foge”. Mas o indigo ainda é o clássico. Também pudera, pois engana-se a gentil leitora se pensa que esse corante começou a ser usado a partir do século XIX, quando o alemão Levi Strauss e o americano Henry David Lee fabricaram pela primeira vez calças e macacões super resistentes, a princípio de lona, depois de denim os quais, pouco tempo depois de inventados, passaram a ser tingidos com indigo blue. Para quem não sabe, não só aquele Levi Strauss não tem nenhuma relação com o antropólogo belga Claude Lévi-Strauss, mas o indigo é usado para colorir tecidos há milênios!
          A mais recente notícia sobre esse assunto veio de um artigo publicado na revista Science Advances de setembro de 2016, por um grupo de cientistas dos EUA, Inglaterra e Portugal. Até então pensava-se que o primeiro uso do indigo como corante tinha sido há cerca de quatro mil e quinhentos anos, no Egito. Mas o time liderado pelo antropólogo Jeffrey Splitstoser, da George Washington University, descobriu que indigo blue já era usado há mais de seis mil anos. Fragmentos de um tecido de algodão, que tinham sido coletados em um sítio arqueológico chamado Huaca Prieta, no norte do Peru, foram examinados pelos estudiosos, que desconfiaram da decoração azul detectada nos fios do tecido. Com o uso de uma técnica química chamada Cromatografia Líquida de Alto Desempenho, os pesquisadores identificaram o corante azul como uma mistura de indigotina e indirubina, componentes do indigo.
          Antes que alguém se anime a acusar os inventores da “calça americana” de espionagem industrial, os tecidos encontrados em Huaca Prieta dificilmente pertenceram a um modelito milenar de jeans. Mas o Doutor Splitstoser enfatizou, em uma entrevista ao portal Live Science, que povos das Américas já vinham fazendo contribuições científicas e tecnológicas tão cedo quanto ou, nesse caso, mais cedo do que povos em outras partes do mundo. Esse comentário lembra o livro “O homem que amava a China”, no qual o jornalista e escritor Simon Winchester retratou a vida de Joseph Needham, eminente cientista e autor da coleção de livros “Ciência e Civilização na China”. Nessa coleção, Needham descreveu suas descobertas de que muitos artefatos surgidos no Ocidente a partir da Revolução Industrial já tinham precedentes antiquíssimos inventados na China, frequentemente de forma artesanal, por exemplo por lavradores em lugares remotos do país.
          Pois é, minha senhora, pode parecer que não existe nada como um blogue para regurgitar idéias desconexas. Mas há algum sentido oculto na nossa salada mista. Talvez pela ironia contida no contrassenso de tornar símbolo da juventude rebelde dos anos cinquenta e sessenta do século passado, um produto industrial oriundo do gigante imperialista que era, e para muitos ainda é, alvo preferencial da revolta dessa mesma juventude. Ou pela sensação de que, malgrado o sistema internacional de patentes que assegura direitos a quem desenvolve novas tecnologias, de vez em quando basta cavucar para descobrir que nem sempre o novo é original. Ou, convenhamos, porque todo esse esforço para escrever uma crônica, no fundo, não passa de uma desculpa para sublimar uma certa nostalgia. Afinal, teclado de computador também é algo que…não usa quem não quer…

Rafael Linden