quinta-feira, 19 de abril de 2012

As águas calmas da Urca

            Na minha infância, todo fim de semana de verão incluia um par de horas na pequena praia em meia-lua, em frente ao antigo Cassino da Urca que, então, já sediava a TV Tupi. Mar quase sem ondas e, naquela época, raros banhistas numa faixa de areia limpa, que me parecia imensa com seus parcos cem metros. Meu pai era bom nadador e chegara minha vez de aprender.
Antes das oito já estávamos na água. A brandura do sol poupava nossas peles claríssimas. Ele mostrava, eu imitava. Logo consegui acompanhá-lo em ousadas aventuras, na verdade limitadas a minúsculas incursões mar adentro.
De volta à areia, mordicando o infalível picolé, tinha meus olhos fixos na Baía da Guanabara. Imaginava navios robustos, portos acolhedores em terras estranhas. Eu me via timoneiro, singrando mares revoltos e desembarcando vitorioso em lugares exóticos, um mundo inteiro à minha espera. Quem teria coragem de desiludir um menino em êxtase, explicando que a cidadela ao longe era apenas o Morro da Viúva, do outro lado da Enseada de Botafogo?
A caminho de casa, esticava o pescoço para alcançar a janela do Pontiac paterno, pintado em duas cores que lembravam um capuccino. Parávamos para nos debruçar na mureta de uma pontezinha, em torno da qual pequenas embarcações permaneciam ancoradas. Há um certo encanto em barcos vazios, balançando suavemente ao ritmo das marolas produzidas pelo vento que acaricia águas mansas. E eu, hipnotizado por aqueles perfis coloridos, madeiras de tons variados, mastros de todos os tamanhos e portas pequenas que pareciam feitas para uma criança. Com navios assim, eu conquistaria o mundo.
Com o tempo, a poluição arruinou a Baía. Escolhi uma praia oceânica. Ainda que raramente, ia no final da tarde com um livro, quando o sol já buscava o poente. As areias estavam frescas e desertas e as águas, embora mais agitadas, lembravam a Urca. Volta e meia largava a leitura e fitava o horizonte, tantos mares ainda por navegar, aventuras por viver.
Desmentindo meu sonho aventureiro, sentia-me bem naquele ambiente tranquilo, de pouco calor e gente escassa. Mais tarde, na juventude, minha presença nas praias lotadas em horários insalubres só se justificaria pelas lindas mulheres curvilíneas e bronzeadas que, em geral, só me deixavam de lembrança a pele ardida e aplicações de Caladryl...
Afinal, raras vezes estive num barco. Mas, assim como nadei através do exemplo, cresci aprendendo com o caráter, a coragem e a determinação com que meu pai passou a vida enfrentando mares metafóricos, de peito aberto para chegar, vitorioso, à outra margem. Ainda o sinto ao meu lado, a cada luta, a cada conquista, hoje, sempre.


Rafael Linden

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