quinta-feira, 19 de abril de 2012

Árvore solitária

            Em março de 2011, um terremoto e um tsunami devastaram o nordeste do Japão, seguidos pelo vazamento de água contaminada de uma usina nuclear, que tornou inabitável uma parte da área afetada. Os eventos deixaram marcas profundas que comoveram o mundo. A destruição, o desespero dos desalojados e as consequências para o país foram reavivados no primeiro aniversário da tragédia.
            Uma imagem, amplamente divulgada pela mídia, marcou uma das cerimônias que lembraram o episódio. Na cidade de Rikuzentakata, dezenas de pessoas se reuniram em frente a um único pinheiro, que restou vivo em meio à vastidão da terra arrasada. A árvore tornara-se um símbolo de sobrevivência, da reação digna do povo japonês e da luta pela recuperação do país.
            Aquele pinheiro reforçou minha convicção de que sempre se pode achar um ponto de apoio em face das desventuras, maiores ou menores, individuais ou coletivas, recentes ou antigas e, quem sabe, as anunciadas. Lembrei-me de ter encontrado um destes fulcros em Berlim.
            Em trânsito durante uma série de palestras em Universidades alemãs, finalmente conheci, em 2010, aquela que é uma das mais belas, culturalmente ricas e imponentes cidades que visitei até hoje. Passeando pelo centro, atravessei o Portão de Brandenburgo e rumei para o sul. Logo depois da Embaixada Americana, cheguei ao Memorial aos Judeus Europeus Assassinados (Denkmals Für Die Ermordeten Juden Europas). É uma das representações abstratas mais poderosas do Holocausto que já conheci. Criado pelo arquiteto Peter Eisenman, o monumento é composto por dois mil e setecentos blocos de concreto enfileirados, tal qual lápides sem ornamentos, em uma praça a céu aberto. Abriga um centro de informações no sub-solo e é parte do conjunto que inclui um Memorial aos Homossexuais Perseguidos pelo Regime Nazista e outro aos Sinti e Roma (Ciganos) Mortos pelo Regime Nazista, ambos situados na vizinhança e construídos por uma fundação estabelecida pelo parlamento alemão.
            Ateu e materialista, ainda assim sou judeu, particularmente pela herança cultural e moral que adquiri, em grande parte na infância e adolescência. Minha condição de judeu, oficialmente definida por ser filho de mãe judia, se manifesta visceralmente, por exemplo, quando exposto à história contada pelo jornalista e escritor norte-americano Daniel Mendelsohn em The Lost. Este livro narra a saga do autor em busca da história perdida de um ramo de sua família, que não deixou a Polônia a tempo e desapareceu durante a ocupação alemã. Mais do que nunca, meu subconsciente aflorou quando adentrei a praça e sentei-me num daqueles blocos de concreto.
            Como sempre acontece ao pensar no nazismo na Europa e na segunda guerra mundial, imaginei meus avós paternos e quase toda a família de meu pai, exterminados na Polônia. Sobraram apenas um ou outro que emigraram para Israel, além dele e de um primo que vieram para o Brasil, em meados da década de 1930 quando, mesmo antes da ocupação, o virulento anti-semitismo então reinante entre os poloneses já ameaçava suas vidas. Assim como em The Lost, a história pregressa se perdeu e até hoje não a reencontrei. Ao contrário do escritor americano, que obteve subsídios pelo testemunho de sobreviventes da cidade polonesa onde morou a família de seu tio, nem essa chance nos resta, já passado tempo demais para contar com a ajuda de algum conterrâneo vivo e de memória saudável.
            É muito distinto o sentimento da perda irreparável, não de uma pessoa, de um amor ou de uma oportunidade, mas de todo um lado da história de nossos antepassados. Meu pai, naturalizado, passou a vida tentando esquecer que fora polonês. Jamais o ouvi comentar o que teria acontecido com seus familiares. Minha mãe limitava-se a contar que deles não houve mais notícias a partir da invasão da Polônia. Sozinho na Alemanha, em meio àquela paisagem minimalista tão intensa, eu cumpria o ritual a que, vez por outra, submeto-me em homenagem aos meus perdidos. Assim como na visita anterior ao Museu do Holocausto de Washington, na platéia da Lista de Schindler ou do Menino do pijama listrado, na pesquisa ocasional de arquivos eletrônicos do Yad Vashem - o centro internacional de pesquisa do Holocausto - ou na leitura de várias passagens de The Lost, chorei a saudade dos que não conheci, sequer como lenda.
            A oeste as árvores chiavam discretamente ao vento que cortava os amplos espaços do vizinho Grosse Tiergarten. O Memorial, no entanto, ocupa uma praça quase nua. Quase. De onde eu estava, olhando para os prédios ao fundo na direção sudeste, via-se uma única árvore em meio aos blocos de concreto. Uma tília, como tantas que se encontra em Berlim e que, em alemão ou ingles, chamam-se...linden.
            A visão daquela árvore em meio aos frios blocos de concreto, como que a dizer “Ei, primo, nós estamos vivos!”, resultou na mistura agridoce de meu rosto ainda molhado com um sorriso tão largo que capturou a atenção de um transeunte. Seguindo meu olhar ele achou a tília e sorriu solidário, sem saber do que.
Eu estava, de novo, pronto para continuar a viagem. Livre para seguir com a vida. Não foi à toa que o pinheiro japonês despertou com força a memória deste instantâneo turístico. Ali, na magnífica Berlim,  bem na minha frente, estava mais uma prova de que, em meio ao nada que restou, sempre existirá uma árvore solitária. Basta olhar na direção certa.

Rafael Linden

2 comentários:

  1. Rafa, adorei conhecer esta sua (para mim, ao menos...) nova faceta, ao mesmo tempo tao divertida e sensivel. Ainda bem que resisti `a tentacao de dar apenas uma lida rapida no trabalho, e deixei para degustar seu blog com calma neste sabado nublado... Diverti-me muito com "A banda" (alas, o conjunto!) e com a mencao ao "Veloso" de que meu pai me falou tantas vezes, embora ele mesmo, morador distante e com recursos ainda mais limitados do que os da sua turma, nunca tivesse, ele mesmo, estado ali apreciando a garota que passava `a frente do Poeta.

    Mas o ponto alto de minha leitura foi, sem duvida, seu relato sobre a visita ao Memorial em Berlin. Ha' alguns anos, tive chance de fazer uma viagem na qual tive poucos compromissos profissionais enquanto minha mulher se ocupava de alguns dos compromissos dela. Com isto, tive chance de curtir com mais vagar os locais por onde passamos, o que incluiu varios passeios a pe' e de bicicleta (sem riscos de atropelamentos, como nas nossas ciclovias cariocas...) por Berlin. Como voce, fiquei encantado com a beleza (um tanto seria, mas romantica) daquela cidade que, nao faz tanto tempo assim, foi quase que totalmente destruida pela barbarie da Segunda Guerra. Num de meus passeios, a bicicleta acabou por levar-me ao Memorial. Cheguei meio sem saber onde estava, e sem entender direito do que se tratava, mas imediatamente fui acometido por uma sensacao de pequeneza e um sentimento meio opressivo causado pela visao daquelas milhares de lapides nuas. Sentei-me sobre uma delas, e me pus a pensar no que elas significavam para o artista que as havia disposto de forma tao genial e, especialmente, para as familias daqueles "perdidos" que poderiam estar ali sob aquelas pedras anonimas. Embora nao sendo judeu, nao pude deixar de me emocionar pelos pensamentos e pela beleza fria e crua do Memorial. De onde eu estava, nao me recordo de ter avistado a tal tilia...Ou, talvez, eu a tenha visto e nao registrado, ja' que, para mim, ela nao teria o significado que teve para vc.

    Enfim, meus parabens pela iniciativa, e espero encontrar mais deste "novo" Rafael por aqui em proximos sabados...

    Grande abraco,

    Sergio

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  2. Sergio
    Obrigado pelos comentários e por corroborar o impacto do Memorial de Berlim. É estimulante receber o apoio de pessoas que admiramos. Enquanto o financiamento à minha pesquisa não acabar de vez (...) não posso prometer constância, mas espero que outros escritos saiam de vez em quando.
    Abraços
    Rafael

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