quinta-feira, 19 de abril de 2012

Aguiar e o Shazam

           Na Praia Vermelha, um prédio de 1918 abrigava a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. Nos imponentes anfiteatros ouvia-se pefeitamente a voz dos professores, quiséssemos ou não, de qualquer das fileiras geralmente lotadas com mais de trezentos alunos. Por volta de mil novecentos e setenta, um claustro arborizado servia, entre as aulas, de moldura para infindáveis reuniões, conspirações e resistência à ditadura militar. Além, naturalmente, de flertes e conquistas, que a esquerda, ora essa, não era de ferro...
            Faltava pouco para a mudança da Faculdade para a Ilha do Fundão, o que explicava um certo desleixo com a manutenção do velho prédio. Os auditórios, salas de aulas práticas e laboratórios decaíam a olhos vistos. As instalações elétricas eram um escândalo. Debaixo de uma escada um ventilador, ligado o dia todo, refrescava um quadro de força literalmente em brasa. Os bancos da Pracinha Vermelha, como era conhecido o centro do jardim interno, estavam quebrados e mal aguentavam os numerosos alunos que ali se aglomeravam nos convescotes diários.
            A administração desdenhava do edifício, premida pela crônica falta de recursos agravada pela iminência do abandono final. Um homem, porém, tinha a missão de cuidar daquele prédio quando as portas se fechavam: Aguiar, o caseiro. Moreno, baixinho, sempre com a barba por fazer encimada por óculos de fundo de garrafa, todos os dias abria, de manhã cedo, e fechava, no fim da tarde, o pesado portão da entrada lateral, que ficava de frente para o bandejão e por onde transitavam os frequentadores da Faculdade.
            Durante o dia Aguiar passeava pelos corredores, zelando pelo patrimônio, dando jeitinhos e quebrando galhos, em meio a conversas eventuais com a rapaziada. De noite, vez por outra a campainha o convocava a abrir o portão para saída ou entrada de algum cientista ou estudante que tinha o que fazer nos laboratórios de pesquisa, poucos então, situados no interior do prédio. Era meu caso, estagiário que era do Instituto de Biofísica e membro da turma do sereno de um projeto no qual minhas atividades começavam por volta das onze da noite e terminavam lá pelas seis da manhã. Durante algum tempo Aguiar abria e fechava o portão para mim. Depois, subi na vida e passei a integrar um seleto grupo que tinha a chave e, assim, podia entrar e sair livremente sem importunar o caseiro. Junto comigo, no turno da noite, trabalhava um argentino de nome aristocrático, Francisco Maria de Monastério, que cursava a pós-graduação. Para os íntimos era o Chico.
            Nosso último personagem era o Shazam: um vira-latas preto que fora salvo de um atropelamento pelos monitores de Técnica Operatória, os quais cuidaram dos ferimentos, consertaram-lhe mais ou menos a pata quebrada e arranjaram-lhe uma caixa de papelão onde convalesceu e voltou a fazer suas cachorrices, para orgulho dos aprendizes de cirurgião e gáudio dos calouros. Esperto, Shazam achou mais seguro ficar por ali mesmo em vez de arriscar-se em meio ao trânsito das adjacências. Aguiar, que alimentara o cão durante o pós-operatório, acabou por adotá-lo. Daí para a frente, aonde ia o Aguiar lá ia o Shazam, manquejando, alguns passos atrás, tal qual uma obediente esposa japonesa. O cão não era lá muito útil e ignoro o que faria frente a algum ladrão, mas completava o quadro. Raramente se incomodava quando algum conhecido, como eu mesmo, entrava no prédio tarde da noite. Aproximava-se, farejava a identidade do visitante, registrava a ocorrência nos miolos e voltava para a porta da moradia do Aguiar. Já com o Chico era diferente.
            Antes de minha chegada ao laboratório, o argentino já estava lá e trabalhava até altas horas. Conta-se que, certa noite, pouco depois de recuperar-se do atropelamento, Shazam deu de cara com o Chico num corredor deserto da Faculdade. Nacionalista convicto, o cão partiu para a briga disposto a vingar a última bordoada que o zagueiro portenho Labruña dera no Maurinho, ponta-direita da seleção canarinho na Copa Roca de 1957. E deu-se mal. Chico incorporou o truculento beque central rubro-negro Tomires e tascou-lhe um pontapé nos quartos, que atirou o cão a uma distância segura. Pênalti indiscutível, que só o juiz não viu.
            A partir deste dia, Shazam não podia farejar o Chico. Desandava a latir furiosamente e, por valentia ou imprudência, atacava de novo. O fato é que, invariavelmente, a trilha sonora da entrada do argentino no prédio da Praia Vermelha consistia de latidos, grunhidos e palavrões, esses últimos em castelhano, acompanhados de correrias grotescas e cenas lamentáveis de pugilato homem-cão. Eu preferia entrar sòzinho.
            Depois da terceira ou quarta vez, Aguiar desistiu de sair de casa em disparada, de pijama, para ver o que estava acontecendo. Resignou-se e, que se dane, deixou que Shazam e Chico resolvessem sua pendenga por eles mesmos.
            E assim era a rotina, ao menos uma noite por semana, no velho casarão da Praia Vermelha. Enquanto Universidades no primeiro mundo tinham uma brigada de segurança para proteger o patrimônio, nós tínhamos Aguiar e o Shazam.

Rafael  Linden

2 comentários:

  1. No primeiro mundo não existem (ainda) brigadas de seguranças contra argentinos. O sistema Shazan é mais sofisticado.

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  2. O sistema Shazam nos levará ao primeiro mundo...
    :
    -)

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