quinta-feira, 19 de abril de 2012

Chama o Guimarães!

            “Chama o Guimarães!!”, dizia um dos “Eduardos”, quando entrava em uma sala onde havia alguma algazarra. Ou quando dava tudo errado em um dos laboratórios que dividia com o outro “Eduardo”. “Os Eduardos”, como eram conhecidos no Instituto de Biofísica, eram os Professores Eduardo Oswaldo Cruz e Carlos Eduardo Rocha Miranda, neurobiologistas, o último dos quais foi meu orientador da iniciação científica ao doutorado. A “algazarra” era o bate-papo em voz alta, entremeado com gargalhadas, que vez por outra disparava na sala dos estudantes, ou onde quer que houvesse mais de um de nós, todos na faixa dos 18 aos 25 anos de idade, o último quartil da adolescência segundo alguns. E o “Guimarães”...era o Magalhães.
            O Magalhães era, desde sempre, porteiro da Faculdade Nacional de Medicina na Praia Vermelha. Estava sempre lá quando chegávamos para as aulas - “Bom dia, “Seu” Magalhães!”, “Bom dia, meu filho” - e lá ficava durante todo o horário do expediente regular. Quem não ficava no prédio ao final das aulas sempre o encontrava na saída: “Até amanhã, Seu Magalhães!”, “Até amanhã, meu filho”.
            Mas isso só passava a acontecer depois do vexame inicial a que eram submetidos os calouros. Ignorantes, ingênuos, embasbacados com a nobreza e imponência do prédio, ansiosos por nos integrar àquele ambiente que cobiçáramos tanto até a aprovação no vestibular, éramos presa fácil da cara-de-pau dos veteranos.
            “Calooooouro! Presta atenção! Aquele senhor do outro lado do pátio é o Diretor da Faculdade! É o Professor Magalhães! Muito respeito com ele, viu?!”. E, enquanto os veteranos se afastavam prendendo o riso, lá íamos nós cumprimentar o Magalhães com a devida deferência: “Bom dia, Doutor Magalhães”. Durava um ou dois dias, no máximo, até que alguma alma piedosa nos avisasse do logro e passase a ser “Seu” Magalhães. Mas só mudava o pronome de tratamento, pois era uma época em que, malgrado a rebeldia generalizada, quase obrigatória, ainda se respeitava os mais velhos.
            E o trote sempre funcionava, pois ninguém duvidaria que o Magalhães pudesse ser o Diretor da Faculdade. Baixinho, a cabeleira branca cuidadosamente penteada, óculos de aro fino, estava sempre de terno e gravata, empinado e garboso. Quando se vê uma fotografia daquele tempo, em que Magalhães divide a cena com professores da Faculdade ele é, invariavelmente, o mais elegante. O que mais tinha cara, jeito e fatiota de Diretor. Exceto por Clementino Fraga Filho, José Lopes Pontes, que de fato o foram, e mais um ou outro em dias bons. E, se Diretor não era, fazia as vezes de bedel, chamando atenção quando nos comportávamos perto dele como os adolescentes que éramos.
            E o “Guimarães”? Eduardo contava que, desde seu tempo de estudante ali mesmo na Praia Vermelha, o Magalhães se enfurecia quando, por pura molecagem, alguém o chamava de Guimarães. Não sei como, algum dos estudantes descobrira essa idiossincrasia, a história se espalhou e cristalizou no folclore da Faculdade. Era, diziam, o método mais eficaz, talvez o único, para tirar o Magalhães do sério.
            Havia, portanto, a variante do trote em que um veterano convencia um calouro de que ali estava o Diretor da Faculdade, o Professor Guimarães. Ao primeiro “Bom dia, Doutor Guimarães”, lá se ia a pose e ecoava pelo saguão, corredores e adjacências, o brado retumbante: “Guimarães é a p%$#@ que o p#@riu!!!!!”...

Rafael Linden

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