sexta-feira, 20 de abril de 2012

A banda*

            Aliás, era um conjunto. No final dos anos sessenta, banda tocava em coreto no interior. Um grupo de jovens cabeludos, empunhando guitarras, baixo elétrico e bateria era um con-jun-to. E como rock’n’roll, na época, era coisa “da década anterior”, tratava-se de um conjunto de iê-iê-iê.
            Três de Botafogo, vizinhos no Jardim Montevidéo, uma vila na Rua Real Grandeza bem em frente à Miranda Valverde, a cem metros de uma transversal onde morava (ai...) a Maria Helena. Eu era uma besta mesmo, ela era uns dez anos mais velha que eu, só saía comigo para tomar conta da Verinha, a irmã mais nova que namorava o Nêga, meu melhor amigo. Mas isso foi depois, em 1967 não tinha Maria Helena. Tinha o conjunto.
            Surgiu assim como começaram tantos grandes músicos. Fim de semana, nada para fazer e aquele monte de meninas bonitas que nos ignoravam solenemente. O Maninho ganhara um violão e já tocava direitinho, por cifras. O Jacaré aprendeu a tocar bateria, para desespero da vizinhança. Eu estudava piano, mas queria mesmo era tocar violão. Gorducho e desajeitado, nem apelido maneiro eu tinha. Quem sabe as cordas ajudassem, afinal as garotas adoravam um violão. Nunca estudei o instrumento, aprendi alguns acordes com o Maninho e outros em uns livrinhos comprados na “Guitarra de Prata”, na Rua da Carioca. Para iê-iê-iê de bairro, estava de bom tamanho.
            Como eu lia música, acabei sendo o solista. Depois de algumas tentativas frustradas com outros vizinhos, encontramos o contrabaixista perfeito. Não, não era um astro. Mas seu pai tinha uma indústria, morava numa casa enorme com piscina e espaço de sobra para ensaiar sem protestos da vizinhança e, principalmente, comprou instrumentos e microfones para o conjunto inteiro. Sábado e domingo, lá íamos nós rumo ao Méier (na Zona Norte!!!), ensaiar na casa do Gê. As meninas de lá, então, achavam o máximo.
            Mais Beatles que Rolling Stones. Apesar do preconceito da nossa Zona Sul, as adolescentes de Botafogo e do Méier eram muito parecidas, românticas antes de contestadoras. Mas, peraí, nós éramos um bando de CDFs, tudo primeiro aluno ou mais ou menos isso, estudávamos pra burro, com exceção de Geometria Descritiva tirávamos notas altíssimas, o que diabo estávamos fazendo?! Simples, naquele tempo, quem – ainda - não estava mergulhado na resistência à ditadura estava em um conjunto de iê-iê-iê. E quem não tocava ou cantava, mal que fosse, ajudava a carregar instrumentos, levava as tralhas no carro (alguns felizardos tinham até carteira de motorista) ou era...empresário de conjunto.
            Tínhamos dois: o Gustão e o Paulo Gordo. Enchiam a boca: “- Conseguimos um baile! No Gurilândia, sábado às oito da noite, revezando com o Avec Nous”. Era outro grupo de Botafogo. Nós éramos “The Grave Diggers” - os coveiros - vê se pode. Depois que dois conhecidos morreram, achamos que o nome dava azar e trocamos por outra pérola: “Flash Four”. Idéia minha, uma falta de imaginação medonha. O uniforme (até isso?!) também era de lascar. Camisas listradas multi-coloridas, com golas bem altas, cuidadosamente costuradas sob medida pela mãe de um dos guris da vila, mas de um pano barato comprado nas Casas Pernambucanas, que, pela padronagem, só podia ter sido fabricado para confecção de cortinas.
            Para um punhado de garotos entediados, até que fizemos algum sucesso. Éramos muito requisitados nas redondezas, sem falar na famosa festa anual de São João da vila. Mas também houve os bailes no Fluminense, no Flamengo, no Guanabara, na sede náutica do Vasco da Gama e, com frequência, na velha sede do Botafogo de Futebol e Regatas, ali em frente ao Canecão. Tinha cachê, mesmo os conjuntos de adolescentes ganhavam um “jabá” dos clubes. No Vasco quase tivemos problemas sérios com um fiscal de arrecadação de direitos autorais. Julgávamo-nos menos que amadores, não tínhamos registro como músicos, jamais nos ocorreu regularizar direitos autorais. Por sorte os diretores do clube resolveram a situação, não ouso pensar de que jeito.
            Uma vez, quase fomos expulsos do Botafogo. O clube proibira todos os conjuntos de tocarem a música “(I can’t get no) Satisfaction”, porque a garotada se exaltava e sempre acabava em tumulto. Mas o Maninho, ao afinar a guitarra no intervalo entre duas músicas, resolveu testar a afinação dedilhando, de molecagem, os primeiros acordes do sucesso dos Rolling Stones. Bastou para dezenas de adolescentes começarem a gritar voltando-se para o palco e cantando aos berros a letra de Mick Jagger. Não dava mais para recuar. Os outros três olharam para mim, hesitantes, e eu dei de ombros: “Agora vai. Vai! Vai!!!!”. E foi. Ao final o público, aliviado da síndrome de abstinência, aplaudiu delirantemente. Consagrados, levamos uma tremenda espinafração de um dos diretores do clube que, apoplético, ameaçou-nos com o fogo dos infernos ou banir o conjunto das domingueiras, que era mais ou menos a mesma coisa. Contritos, juramos por tudo que há de mais sagrado que fora um acidente e prometemos nunca mais repetir a traquinagem.
            Mas houve eventos mais pitorescos, como por exemplo o show na União Progrecista (assim mesmo, com “c”...) de Vila Nova. Fomos parar lá também por obra e graça do Paulo Gordo. Nosso valoroso empresário fazia o Serviço Militar e não podia recusar um convite do sargento, grande benemérito da “progrecista” agremiação de Realengo. “Pessoal, eu caí na besteira de contar lá no quartel e vocês vão ter que ir, senão o sargento vai ficar de marcação comigo”. Foi um show literalmente eletrizante. O palco era de cimento, o microfone estava vivo, meu sapato não tinha sola de borracha e eu levei dúzias de choques na boca. Lá pelas tantas passei mal por conta de uma empada assassina. Mais ou menos na mesma hora, o público começou a pedir um sambinha. Anátema!! Tínhamos uma reputação a zelar, de pureza estilística, leia-se preconceito elitista. Nada de Jovem Guarda, nem versões bregas de Renato e seus Blue Caps, muito menos sambinha. Tocávamos só música estrangeira, cantando em inglês (ou, às vezes, numa língua que o Gê achava que era inglês). Passávamos horas e horas “tirando” as harmonias e letras de long-plays importados na casa do Luiz Antonio, o Idêntico, um dos amigos do conjunto. O Luiz morava na Rua Senador Vergueiro e era filho de um comandante da Varig, que lhe trazia as últimas novidades do mercado fonográfico. Era nosso contrabandista de sucessos. Quase o vejo à minha frente, ele era a cara do cantor argentino Fito Paez. Sempre telefonava avisando da chegada de algum inédito. O apelido surgira de seu hábito de, nos ensaios, assinalar o ponto certo gritando esganiçado: “- É isso aí, isso aí, está idêntico aos (Beatles) (Rolling Stones) (Procol Harum) (Beach Boys), idêntico, idêêêêntico!!!!”. Era tudo o que queríamos. Ora, sambinha, faça-me o favor! Mas o Paulo Gordo chegou perto e sussurrou: “Leva aí, que o sargento...”. Deu-se o sambinha, sob os olhares de desprezo do respeitável público, muito mais versado no gênero do que nós. Realengo, nunca mais.
            Também teve o inesquecível baile do Iate Clube de Saquarema, onde revezamos com um conjunto de Ipanema. O solista deles  tinha uma guitarra Fender e um amplificador Vox, importados (ah, Ipanema!). O sonho de consumo dos guitarristas. E o rapaz, generoso, emprestou-me os instrumentos. Eu tocava mal mesmo, mas o som daquela guitarra era demais. Dormimos na casa de praia da família do Campista, outro amigo do conjunto e, no dia seguinte, passamos a manhã na piscina. Todos menos o Jacaré que, a esta altura, estava lá pelas pedras da praia, atracado com uma “minhoca” moreninha que dera bola para ele durante o baile. Eu mesmo nunca vi uma “groupie”, mas o Jacaré era mais velho, mais vivido, usava bigode. Mais tarde, o clube nos brindou com uma feijoada especial, com direito a (argh) pelo de porco e tudo. Dei adeus à Fender e voltei para minha modesta Super-Sonic conectada a um amplificador nacional mesmo. Propriedade do pai do Gê.
            O ápice da carreira foi na televisão. Ao vivo. Na TV Tupi tocamos duas músicas durante o Jornal da Tarde, apresentado pela bela e exótica Iris Lettieri, a locutora dos avisos gravados do Aeroporto do Galeão. Na TV Excelsior foi um concurso de conjuntos amadores, no Programa Cesar de Alencar (!). Mandamos lá um dos últimos sucessos recém-lançados na Inglaterra, que ninguém ainda tinha ouvido por aqui. Afinado, bem ensaiado, idêntico (idêêêêntico!!...) ao original. Entramos pelo cano. Saiu-se vencedor, pelo implacável palmômetro, um conjuntinho brega bem pior que o nosso, porém mais esperto, que executara (deveras) a guarânia “Índia”, entusiasticamente aplaudida pelas macacas de auditório. Restou-nos, fora a indelével mágoa dos injustiçados, o consolo dos cumprimentos dos músicos da orquestra, que gostaram do nosso repertório e elogiaram nossa personalidade. Sei não, mas não me sinto confortável com o fato de que a TV Tupi e a TV Excelsior foram, ambas, extintas pouco depois. Talvez não por acaso.
            Se o conjunto começou do mesmo jeito que os Beatles, acabou depois de uns dois anos, melancolicamente, quando eu e o Maninho passamos para o terceiro ano do Científico e começamos a estudar a sério para o vestibular. O Jacaré terminara o secundário na Escola Técnica e já trabalhava há tempos. Foi o único que levou às últimas consequências o propósito maior do conjunto. Ou seja, casou com uma garota que caiu de amores por ele durante um show! O Gê, bem, o Gê não estava nem aí, por ele continuaria com 17 anos pelo resto da vida. Mas nós tínhamos planos.
            Ainda bem que pulamos fora a tempo, pouco antes de gravar um compacto que teria registrado para sempre nossa ingênua mediocridade. Abandonamos uma carreira nada promissora mas, pensando bem, nem tão diferente de outros que persistiram e tornaram-se ídolos populares. E agora, queiram perdoar, adolesço outra vez e meto-me a escrever...

Rafael Linden
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Publicado em: L. De Meis (org.) – O outro lado da Ciência: contos e crônicas de cientistas brasileiros, vol. II,  Ed. Vieira & Lent, Rio de Janeiro, 2006, pp. 215-222.

2 comentários:

  1. Os grave diggers acabam vendo cell death.....coincidencia?

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  2. Premonição...Mas só se efetivou quando a Cecilia Jacques começou a estudar macrófagos...
    :-)
    beijo, e obrigado por visitar o brogue!

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