Cá pra nós, a gentil leitora nunca se
esqueceu do aniversário do namorado, largou o carro no estacionamento do shopping e voltou para casa de táxi,
perdeu os óculos ou comprou aquele scarpin
de bico fino que lhe esmagou os dedinhos do pé e a deixou com dor nas costas
durante duas semanas? Ou algo parecido? E não é numa hora dessas que lhe vem a
pergunta retórica “onde eu estava com a minha cabeça”? Já outros leitores deste
espaço, que é um primor de democracia e tolerância musical, reconhecerão no
título a letra de uma canção, de uma dupla sertaneja que se desfez tragicamente
com a morte de um dos músicos. No entanto, diferente de quem se preocupa com a
própria cabeça, há os que teimam em saber onde está a dos outros. Às vezes
literalmente, como os cristãos que debatem há séculos a história rocambolesca
da cabeça de São João Batista, a qual atualmente acreditam ser a relíquia que se
encontra na Basílica de São Silvestre Primeiro, em Roma.
Mas hoje a cabeça que nos interessa é
a de William Shakespeare. Não o personagem romântico do filme “Shakespeare
Apaixonado”, e sim o poeta, dramaturgo e ator inglês, de carne e osso,
apelidado “o bardo de Avon”. Mesmo se não houvesse as inúmeras razões de ordem
cultural que existem para celebrá-lo, nos bastaria o saudável hábito de
comemorar datas históricas, já que em abril de 2016 completam-se quatro séculos
de sua morte. Eis que o leitor rabugento, mais uma vez, reclama desta mania de
comemorar aniversário da morte de celebridades, coisa mais fúnebre pois, na
opinião dele, o que se deve celebrar é nascimento e outras efemérides alegres.
Vá lá, tem sua razão. Mas deve consolá-lo o fato de que nossa conversa não apenas se encaixa na morte de Shakespeare, como é ambientada em torno de
seu túmulo. Só assim este modesto cronista tem alguma chance de escrever algo
diferente dos profissionais da Literatura e das Artes Cênicas que, com toda
justiça, derramarão durante o ano uma enxurrada de crônicas, depoimentos,
entrevistas, teses acadêmicas, simpósios, festivais de teatro e outros eventos de
alta qualidade e merecido prestígio.
Para começar, engana-se quem pensa
que escolhemos a cabeça do bardo por sua genialidade. Escolhemo-la per se, porque data de 1879 um relato de
que, oitenta e cinco anos antes, ladrões de túmulos teriam roubado a cabeça do
poeta. Isso a mando de um médico, motivado por um magnata que oferecera
trezentos guinéus a quem lhe trouxesse o crânio de Shakespeare, a fim de saber
se ele realmente se parecia com o retrato pintado que havia na igreja. Podem crer,
daqui do telhado localizamos a coleção da revista The Argosy em um portal chamado
Internet Archive e, na página 268 do
volume XXVIII da revista, está lá esta historinha atribuida a um anônimo “homem
de Warwickshire”. Com perdão da má palavra, lemo-la de cabo a rabo.
O relato, é claro, não prova que a
cabeça tenha sido roubada, afinal The
Argosy se apresentava como “uma revista de contos, viagens, ensaios e
poemas”. Mas Shakespeare é tão irresistível como autor quanto como lenda. Tanto
assim que, no dia 26 de março de 2016, foi ao ar no Canal 4 da TV inglesa um
documentário chamado “O túmulo de Shakespeare”, sobre a primeira investigação
arqueológica da tumba do bardo, realizada pelo arqueólogo Kevin Colls e pela
geofísica Erica Utsi. Não, senhora, não o vi porque nem TV a cabo mostra aquele
canal por aqui, mas soube disso por uma matéria da Smithsonian Magazine, li a sinopse no portal da emissora - aliás
muito informativa - e mal posso esperar pela liberação do vídeo.
Antes de se horrorizarem com a
presumível dessagração da última morada do poeta, saibam que o estudo foi
autorizado pelo pároco da Igreja da Santíssima Trindade, onde está o túmulo, e
pela Diocese de Coventry porque, ao contrário das escavações habituais, foi
usado um equipamento que mostra detalhes de objetos abaixo do solo sem mexer em
nada. Esse instrumento é chamado georadar, e é usado em Geofísica para medir a
espessura de camadas, por exemplo do gelo no Ártico, em Engenharia para localizar
estruturas subterrâneas como tubulações, tem uso militar para detecção de
túneis, e policial para encontrar túmulos clandestinos. A Doutora Utsi desenvolve
georadares de última geração, com os quais já fez descobertas importantes em
outros locais. E desta vez, o estudo do túmulo de William reacendeu a polêmica
sobre o suposto roubo de sua cabeça.
Os cientistas relatam fortes indícios
de um reparo feito na cova, compatíveis com manipulação do jazigo. O chato é
que a tecnologia do georadar não permite – ainda – a identificação de ossos, impedindo
uma conclusão definitiva. Mas os indícios de que aquela parte da sepultura foi violada
coincidem com o relato publicado na The
Argosy há quase um século e meio, no qual o autor dizia que os ladrões trouxeram
argamassa adicional para tentar reconstituir o solo revolvido, que acharam os
restos mortais a cerca de noventa centímetros da superfície – a cova de
Shakespeare tem menos de um metro de profundidade -, e que o crânio foi
encontrado a uma certa distância da extremidade da lápide – a qual, segundo as
medidas do georadar, é de fato mais curta do que a cova propriamente dita. Muita
coincidência, né? Seja como for, o crânio roubado nunca foi encontrado e o mais
recente candidato a “cabeça de Shakespeare”, localizado na igreja de São
Leonardo no vilarejo de Beoley, foi reconstruido por um antropólogo forense e pertencia
a uma septuagenária.
Ainda assim, não dá para falar em
Shakespeare sem lembrar da famosa cena de Hamlet,
na qual o protagonista da peça segura um crânio recém-exumado e recita uma das
linhas mais emblemáticas da obra do bardo. Não, senhor, não é “…ser ou não ser…”
como muitos pensam. Trata-se de outra cena, na qual o príncipe da Dinamarca lamenta
“…pobre Yorick, eu o conheci…”, referindo-se ao antigo bobo da corte. Pensando nisso, aqui vai mais um fruto do habitual
delírio decorrente de nossa acrofobia em cima do telhado - uma teoria sobre o
destino da cabeça do próprio William Shakespeare. Quem sabe o crânio roubado do
ator não esteja sendo usado, há muitos e muitos anos, pela Royal Shakespeare Company nas encenações de Hamlet, fato esse de conhecimento apenas do contra-regra do teatro
de Stratford-upon-Avon, sede da compania. Esse senhor, como todo bom inglês,
descende de uma linhagem centenária de familiares com ocupação semelhante e é o
único detentor vivo do segredo que, no leito de morte, revelará apenas ao seu
dileto filho e herdeiro do emprego, perpetuando a situação. Afinal, nada mais
britânico do que uma explicação dessas para o mistério da cabeça de seu maior
símbolo cultural…
Rafael Linden
Si non è vero....
ResponderExcluir😀😀😀
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