sexta-feira, 1 de junho de 2012

Metacrônica da incerteza

          Fui instigado por uma colega(1) a comentar, em um parágrafo, uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna. Ora essa, como se eu conseguisse me conter em um parágrafo ao ler um poeta e cronista de tamanha estatura...
          O escritor publicou “Certas incertezas”(2) em 2007, motivado pela concessão do prêmio Santilli-Galileu ao físico portugues José Croca, professor da Universidade de Lisboa, por seu trabalho em mecânica quântica. Não me arrisco a analisar as teorias de Croca, o significado real do tal prêmio, nem a versão jornalística da conquista científica atribuida ao físico em uma reportagem pra lá de esquisita no Jornal das Letras, tudo isso já comentado por outrem com estofo para tal(3). Daqui em diante, este texto será uma crônica da crônica. Uma “metacrônica”.
          Affonso comenta, em grande estilo, a suposta derrocada do “princípio da incerteza”, de Werner Heisenberg. Esse princípio se refere à imprecisão inerente a certas medidas físicas, causada pela necessidade de interferir no objeto para executar a medição. Esqueçamos a física, pensemos na incerteza. O cronista se alegra com a perspectiva de entrarmos em uma nova era, livre da barreira que a incerteza impõe ao conhecimento.
          Simpatizo com o autor no exorcismo de certos demônios filosóficos, literários e artísticos, gerados pelo contorcionismo intelectual de muitos que celebraram uma era de incertezas baseando-se na mecânica quântica para justificar toda sorte de desvarios. Mas daí a desejar que algo ou alguém nos livre da incerteza vai uma distância considerável. Por absurdo, queremos de fato que o mundo retorne a uma era de certezas absolutas? E é aí que meu próprio malabarismo mental encaixa um dramaturgo carioca, por acaso nascido no mesmo ano que o cientista portugues.
          Clovis Levi escreveu junto com Tania Pacheco, em 1975, a peça “Se chovesse vocês estragavam todos”, pela qual ganhou o prêmio Governador do Estado de São Paulo. Comparação pobre, porém limpinha, afinal Croca e Levi são dois criativos premiados. E aí acaba a analogia, pois a peça é uma comédia crítica do autoritarismo, das restrições à liberdade e da imposição da mesmice. Uma das cenas mais marcantes é aquela em que a professora, que vi no Teatro Opinião, em 1976, interpretada pela então estreante Priscila Camargo, explica com ar angelical os malefícios da dúvida. Entre outras façanhas, um diálogo com o aluno representado por Tião d’Ávila, o leva a equacionar a dúvida com o passado. Na peça, como na vida, livrar-se de dúvidas conduz, naturalmente, ao conformismo.
          Pois aí está. O fim da dúvida, o fim da incerteza. Devemos desejá-lo? Em seu poema “Além de mim”(4), Affonso Romano confessa desespero por não compreender certos conceitos e sinais. Não carece. Por exemplo, professores e alunos de instituições de pesquisa científica não apenas convivem pacificamente com problemas não resolvidos, como garimpam novas incertezas para lhes servir de objeto de investigação. Portanto, não se afligem. Ao contrário, cultivam a dúvida. Certezas, eventualmente obtidas após longa e penosa luta contra a couraça que protege os segredos da Natureza, de certa forma esgotam o impulso da aventura humana, que consiste em enfrentar enigmas, resolve-los quando possível e, sem desespero, apreciá-los enquanto envoltos no manto da incerteza.
          Nada fascina mais do que o mistério e a oportunidade de desvendá-lo. Ou tentar. Não são as certezas que movem a humanidade. Aquelas apenas nos fazem pendulear. O que nos impele é a incerteza.

Rafael Linden

(1) Maria Cristina Machado Motta, professora do Instituto de Biofísica da UFRJ, aplicou esse exercício a seus alunos e respectivos orientadores (eu, por exemplo) na disciplina de pós-graduação O nascimento do pensamento ocidental.
(2) Veja a crônica de Affonso Romano no link http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3008
(3) Para os interessados, ver o comentário de Carlos Fiolhais, catedrático de Física da Universidade de Coimbra, no link http://dererummundi.blogspot.com.br/2007/12/grandes-erros-prmio-santilli-galileu.html
(4) Publicado por Affonso Romano em seu livro “Sísifo desce a montanha”, de 2011.

8 comentários:

  1. “O sapo não pula por boniteza, mas por precisão”.

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  2. Bárbaro!!! Sou da teoria de que devemos ser mais fortuitos, e seu texto me fez lembrar de um poema de Maxwell que gosto muito, publicado em "The Life of James Clerk Maxwell" de Lewis Campbell. Deixo aqui um excerto.

    Molecular Evolution

    At quite uncertain times and places,
    The atoms left their heavenly path,
    And by fortuitous embraces,
    Engendered all that being hath.
    And though they seem to cling together,
    And form 'associations' here,
    Yet, soon or late, they burst their tether,
    And through the depths of space career.

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    1. Maravilha, Carmen! Obrigado pelo adendo, tomara que os leitores não percam a chance de ler sua observação.
      beijo
      Rafael

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  3. Rafinha, adorei a crônica chiquérrima, aliás, desculpe, metacrônica... Vejamos se meu comentário desta feita o alcança.

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    1. Sim, alcançou!! Manchete: Primos unidos derrotam Internet...Obrigado, Taninha, ainda acabo aprendendo com você.
      beijo
      Rafael

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  4. Prof. Rafael
    Parabéns pelo blog!
    O princípio da incerteza sempre norteou minha busca por mais e mais dúvidas científicas. É engraçado como alguém que vive para a pesquisa precisa estar sempre nessa corda bamba para se sentir vivo.
    Grande trabalho, vou seguir te acompanhando.
    Um abraço
    Cristiane

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    1. Obrigado, Cristiane. A provocação da Cristina Motta deu certo...
      bjs
      Rafael

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