segunda-feira, 11 de junho de 2012

Concerto para oboé e mágoa


Resta o som plangente de um oboé, a me envolver na melodia triste do século XIX. Mas, de que serve a música dos mortos quando só tu brilhavas, viva e pulsante?

Allegro molto.
Cada manhã emoldurava tua figura graciosa. Sem palavras. O dia voava, mas logo vinha outro e de novo, ao longe, teus olhos luminosos acordavam meu coração.

Andante.
Já me via servo de teus desejos. No entanto, a coragem dissolvia no espectro de antigos nãos. O tempo se arrastava até que te visse outra vez. E tu, com meio sorriso a menos.

Largo.
Mudo, ainda, buscava uma audácia qualquer. Em dias que já não passavam eu via, em restos do teu rosto, as marcas do distanciamento. Lento, inexorável.

Coda.
É tarde. Fiquei só, assombrado pela queixa dolorida do poeta(*)  “pelo meu mal implacável, de não crer no futuro, fui jogado no escuro...”. Perdi o sonho, por tanto temer a mágoa.


Rafael Linden


(*) Cesare Pavese (1908-1950).


6 comentários:

  1. Uma leitura dessa magnitude na madrugada, antes de iniciar os trabalhos do dia (ainda mais sob 4 graus de temperatura) é muito revigorante.

    Lindo!

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    1. Obrigado, Carmen. Uma boa lareira é o melhor remédio para esse texto...

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  2. A D O R E I !!! Como vc mesmo diz, na mosca.

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    1. Valeu, irmão. Continuo experimentando escrever coisas diferentes.
      abraço
      R

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  3. Amei Rafa!,,,
    Só espero que sejaC ficção poética, nada com amores perdidos,

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    1. Pura ficção, Tania. Mas deve ter raízes em algum evento da adolescência, embutido nas profundezas do meu cérebro...

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