quarta-feira, 27 de junho de 2012

O cronista

          Ainda estou atordoado. Se bem que já faz dois anos que Jango foi derrubado, e quase uma semana desde que cheguei ao sítio do tio de um amigo, que concordou em me abrigar enquanto metade de minha turma da faculdade é perseguida pelos órgãos de segurança. E agora?
          Combato a raiva e a solidão lendo tudo que há na estante da sala. Minha fé no homem comum arrefece um pouco ao percorrer os romancezinhos triviais de um tal de Mallorqui, os quais retratam minuciosamente as circunstâncias que sempre levavam a um tiroteio entre o herói, de nome “Coyote”, e toda sorte de inimigos da lei. Tudo comprado na banca de revistas da Rodoviária, quando o dono do sítio ainda tinha a pachorra de sacolejar por três horas, em estrada de terra, até chegar neste cafundó. Perda de tempo, com tanta literatura revolucionária para ler.
          Hoje meu amigo trouxe mantimentos, para evitar minha ida à vendinha próxima. Sabe-se lá onde estão os olhos e ouvidos da repressão. Mais que pela comida, fiquei eufórico quando vi com ele o livro “A companheira de viagem”, que saiu ano passado. Implorei que deixasse o livro comigo e que trouxesse mais, antes que eu enfiasse dois dedos na tomada para me livrar de vez do Coyote. Para a viagem de volta consegui convence-lo a levar “A casa dos Valdez”, garantindo que era um dos melhores volumes de toda a coleção. Coitado.
          Depois que meu amigo se foi, devorei o livro numa noite. Ao ler “A última crônica”(1), lembrei-me da cena ali retratada. Naquele dia eu também estava no bar da Gávea. Mas, enquanto uma família humilde celebrava o aniversário da filhinha com uma única fatia de bolo de fubá e uma garrafa pequena do refrigerante imperialista, comprados com tudo que o pai tinha no bolso, meus olhos estavam fixos no cronista.
          Eu o reconhecera de uma palestra organizada pelo Diretório Acadêmico. Porém, ao contrário da vivacidade com que ele proferira aquela conferência, desta vez percebi tristeza e preocupação quando entrou e pediu um café. Cabisbaixo, olhava ocasionalmente para os lados, mas nada o animava. Até que a família da aniversariante sentou-se à mesa do lado oposto do salão.
          Observei, extasiado, a transfiguração. De uma desesperança ao entrar, assumiu um ar de curiosidade, atento ao que se passava no canto do bar. Só o perdi de vista quando o garçom atravessou na frente dele, dirigindo-se ao balcão e, depois, voltando para servir o minguado lanche da festinha.
          Mais alguns instantes e já seu rosto se iluminava, mal contendo um sorriso que, irreprimível, se esboçava no canto dos olhos. E quando, de longe, eu ouvi a vozinha frágil da criança cantando “Parabéns pra você...”, os olhos dele brilharam. Assim ficaram, como prova da epifania que gerou, pela mão de Fernando Sabino, uma das mais belas crônicas da literatura brasileira.
          Haja o que houver, sempre me lembrarei de tudo isso para não perder a ternura.



Rafael Linden

4 comentários:

  1. É a sensibilidade já tão em falta no mundo de hoje. Confesso que certas atitudes por ai me levam a pensar se não deveria haver uma escola para resgatar e ensinar delicadeza e ternura, se é que isso se pode aprender uma vez não tendo.

    Lindo texto!

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    1. Obrigado, Carmen. Também não sei se é possível aprender em uma escola. Mas pode-se descobrir dentro de si e nos outros.
      bj

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  2. Olá Rafael
    Lindo Texto,foi divulgado no Agregador Teia,por não conter imagem eu coloquei uma que eu escolhi,caso queira trocar é só me mandar uma que eu troco!
    Até mais

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    1. Eu esqueci de mandar imagem, mas a que você escolheu ficou excelente. Obrigado,
      Rafael

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