sábado, 16 de junho de 2012

Sig, O Pasquim...e eu com isso?


          Morreu o jornalista e escritor Ivan Lessa, criador dos textos que acompanhavam o ratinho branco “Sig”, desenhado pelo cartunista Jaguar. O roedor debutou nos quadrinhos Chopnics, encarapitado no ombro do personagem BD (o “Capitão Ipanema”), alter ego de Hugo “Bidê” Leão de Castro, ator, humorista e um dos fundadores da Banda de Ipanema. O nome completo do Sig era...Sigmund Freud, é claro.
          As tiras, criadas por Jaguar e Ivan para promover uma marca de cerveja, exibiam boêmios do bairro, principalmente frequentadores do antigo Jangadeiros. Foi num bar que BD enunciou e o rato testemunhou a histórica frase “Intelectual não vai à praia. Intelectual bebe”. Depois, Sig pontificou no semanário O Pasquim, fazendo comentários irônicos no canto das tiras ou protagonizando suas próprias historinhas, entre as quais declarações dramáticas de paixão pela atriz Odete Lara e outras beldades da época. Logo foi promovido a mascote e mestre de cerimônias do jornal.
          O jornal deixou de circular em 1991 e, depois do fiasco da tentativa de reeditá-lo e da perda de Henfil, Tarso de Castro, Paulo Francis e Millor Fernandes, a morte de Ivan Lessa nos deixa cada vez mais órfãos d’O Pasquim. Quem não acompanhou este hebdomadário, substantivo pedante escolhido, por pilhéria dos editores, para descrever o jornal, perdeu uma chance de ver o humor cumprir sua mais nobre função – fustigar os poderosos. Ideologias à parte, o jornal do Sig ajudou muita gente a resistir ao autoritarismo e a lutar pela Democracia, com “D” maiúsculo. Não, ainda, a que temos por aqui, eivada de corrupção e cinismo. Não era esse o nosso desejo quando, entre outras atividades subversivas, ansiávamos por cada nova edição d’O Pasquim.
          Minha geração, entre outras, tem uma dívida de gratidão com Jaguar, Tarso de Castro, Sergio Cabral (o pai, não confundam), Ziraldo, Luiz Carlos Maciel, Millor, Sergio Augusto, Ivan Lessa, Paulo Francis, Carlos Leonam, Henfil, Claudius, Fortuna e outros colaboradores, não só por suas contribuições individuais ao humor e à cultura brasileira, mas, como um conjunto, pel’O Pasquim.
          Todos eles, juntos, são a alma do Sig. O rato branco não era apenas um bicho falante fictício. Merece ser o personagem principal desta crônica porque, mais até do que uma pessoa, era um ícone d’O Pasquim e do significado deste jornal para quem viveu a ditadura militar ao deixar a adolescência para trás. Sem o Sig, teria sido mais difícil.

Rafael Linden

2 comentários:

  1. Verdade Rafa. Eu era leitor assíduo desse jornal. Entre tantas, quando o Collor assumiu a presidÊncia e começou a correr de jetski, jato, moto e "otras cositas mas" publicaram na primeira página bem grande - "Dá ... que passa"! Em que lugar do mundo fariam isso com um presidente?!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E este Presidente, em particular, merecia...

      Excluir

Seu comentário será respondido aqui mesmo neste blog.