sábado, 23 de junho de 2012

Meu terreninho na Lua


          Eu sou do tempo em que se dizia “Fulano vive no mundo da Lua!”, quando o referido cidadão era um sonhador, um distraído ou um maluco. Mudaram os tempos? Estará mais perto de se realizar o sonho de colonizar a Lua e, com isso, enfrentar a temida inviabilização da Terra?
          A perspectiva catastrófica quanto ao nosso futuro neste planeta vem, cada vez mais, motivando preocupações internacionais reais ou fingidas, uma mistura mal feita de Ciência com ideologia e crendices, discursos bem-intencionados e estrelismos oportunistas. Esta mixórdia se materializa em conferências milionárias com transtornos amplos e efeitos diminutos, acompanhadas de ONGs de todos os tipos e qualificações, tendas coloridas com muita oferta de bijuteria e adornos esotéricos, bandeiras na avenida, tambores tonitruantes e seios desnudos em abundância. Definitivamente, meio ambiente e clima são assuntos que deveriam ser levados mais a sério.
          Já os planos da NASA de estabelecer uma base lunar são para valer e acumulam-se indícios de que pode haver solução para um dos problemas mais graves que ainda impedem o mapeamento de regiões potencialmente habitáveis na Lua: a aparente ausência de água. Ou seja, a água terrestre está escasseando e, até o momento, há dúvidas sobre sua existência em nosso satélite, que seria a alternativa habitacional mais próxima.
          No entanto, o grupo de pesquisa de Maria Zuber(1), do Massachusetts Institute of Technology, publicou um artigo(2) descrevendo novos achados obtidos por uma super-equipada estação espacial(3), os quais se somam a estudos anteriores que sugerem haver água na Lua.
          A imprensa vem saudando os resultados desta pesquisa como os mais importantes indícios da existência de gelo no nosso romântico satélite. A bem da verdade, os dados não provam a existência de água, mas são compatíveis com a interpretaçao de que o precioso líquido – e bota precioso nisso – pode existir, de fato, na forma de gelo nas áreas polares, que são as mais protegidas da luz do Sol.
          A expectativa é grande de que, afinal, acabe por se provar que há água na Lua, porque tal fato evitaria a necessidade de se transportar o líquido da Terra para lá, a um alto custo financeiro e logístico. Isso facilitará o estabelecimento da base lunar e a permanência por mais tempo de cientistas, técnicos e, eventualmente, das famílias de quem precisar se mudar daqui de uma vez por todas. Ou seja, o sonho de morar na Lua está, aos poucos, deixando de ser coisa de “lunáticos”, para se transformar em uma chance concreta.
           Mas ainda é apenas uma possibilidade. Não é o caso de desanimar, mas também, não se trata de já ir comprando um pedacinho de terra, digo, de lua para construir sua casinha com jardim, numa ruazinha calma de um subúrbio da melhor cidade lunar, para que as crianças possam andar de bicicleta, jogar bola ou brincar com o cachorro sem medo de atropelamento ou, pior, do aquecimento global. E, tendo como bonus, uma vista deslumbrante do Rio de Janeiro, Veneza, Istambul, a muralha da China...
          Antes que meu advogado vete esta crônica pelo risco de processos, advirto: não comprem terrenos na Lua! Já há muito tempo, espertalhões vem tentando se apossar do nosso satélite sob os mais variados argumentos. Há os que se dizem proprietários de corpos celestes herdados de familiares que os receberam por doação do rei da Prússia, ou como legado de ancestrais iemenitas que viveram há milênios. E há empresários que criaram corporações, como a grotesca Comissão da Embaixada Lunar, que um escroque norte-americano estabeleceu há uns trinta anos e, em nome da qual, já teria amealhado dezenas de milhões de dólares de incautos, que acreditam ter dele adquirido lotes na Lua.
          Então, se bater aquela vontade irresistível de garantir um cantinho para morar quando falharem, por excesso de oba-oba, todas as conferências mundiais sobre mudanças climáticas, faça como eu. Reserve um lote, mas só se não tiver que deixar um cheque-caução ou uma entrada em dinheiro. E sem compromisso. Vai que, até lá, a Terra esfria e começa a nevar em Copacabana...


Rafael Linden


(2) A publicação está na revista Nature, em http://www.nature.com/nature/journal/v486/n7403/full/nature11216.html
(3) Lunar Reconaissance Orbiter. Veja em http://lro.gsfc.nasa.gov/


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