terça-feira, 22 de maio de 2012

Triunfo da arte “menor”

          E o Prêmio Camões de 2012 foi concedido a Dalton Trevisan. Nos seus vinte e quatro anos de existência, pela primeira vez este prêmio, que distingue escritores de lingua portuguesa, é dado a um contista. Antes dele só romancistas, poetas e críticos literários.
          Uma reportagem cita o presidente do juri deste ano, o escritor brasileiro Silviano Santiago, que destacou (sic) “a contribuição original e muito pessoal [de Dalton Trevisan] à arte do conto, que é uma arte muito difícil, dada como menor desde o século XIX”.
          Onde foi que ouvi isso da última vez? Ah, foi da boca de três conhecidos cronistas, referindo-se à ideia prevalente em certos círculos literários de que a crônica é um gênero “menor” de literatura. Epíteto difícil de engolir, quando se pensa em Rubem Braga, o genial escritor que da crônica fez profissão e ganhou espaço indelével na literatura brasileira. E Paulo Mendes Campos e…Machado de Assis!
          Mais difícil ainda aceitar que o conto seja um gênero menor, ao lembrar de Lima Barreto, Rachel de Queiroz, Carlos Heitor Cony, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e…Machado de Assis! E os vizinhos Jorge Luis Borges, Julio Cortázar. Sem falar no próprio Silviano Santiago e no laureado vampiro de Curitiba, um paranaense excêntrico e recluso a ponto de sofrer como apelido o título de seu mais famoso livro. Fora outros contistas, que vocês podem achar, com todo direito, melhores do que os citados.
          Afinal de contas, que diabo é uma arte “menor”? Mais curta? Há contos que dizem mais do que muitos romances premiados. Mais simples? A trama de um bom conto pode ser tão rica quando a de um belo romance. Menos sofisticada, mais acessível? Pois a sofisticação por si só pode, na verdade, condenar um texto a servir apenas ao seu autor. E, se menor, por que tantos romancistas brlhantes escreveram e jamais repudiaram seus contos?
          Acho que fez bem o juri do Prêmio Camões em reconhecer publicamente o conto como gênero literário em pé de igualdade com o romance. Assim como na pintura, na música, no cinema ou vídeo, na literatura não há arte menor. Há artistas menores. E maiores, grandes, gigantescos, como Dalton Trevisan.
          Vejam lá se não merece triunfar um escritor que recheia seus contos fascinantes e perturbadores com joias como esta, um dos muitos pensamentos libidinosos do heroi (?) Nelsinho:
           A boquinha dela pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho­cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz.” *
          E ainda falta redimir a crônica.

Rafael Linden

* O vampiro de Curitiba, no livro homônimo, 1965.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado, Adriana. Cronistas unidos...
      bj
      Rafael

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  2. Conto é um romance liofilizado: só fica o essencial!
    Crônicas são passeios pelo hoje, ontem e amanhã, sob um ponto de vista bem pessoal.
    Ambos têm a capacidade de nos fazer ver e sentir.
    Amo essas duas formas de literatura, incondicionalmente!
    Estou à espera da sua próxima crônica, Rafael.
    Beijos
    Doris

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    1. Eu também jamais compartilhei a idéia de que gênero define qualidade. Obrigado pela visita!
      bjs
      R

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