quinta-feira, 17 de maio de 2012

Centro do Rio de Janeiro

          Na Rua da Carioca encontrava-se os músicos do regional Época de Ouro, comprando cordas de aço na Guitarra de Prata. E o Cinema Íris, hoje de péssima fama, antigamente de mal mesmo só causava rinite alérgica.
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          Naquele dia de 1966, cheguei do colégio para o trabalho, na Avenida Presidente Vargas, correndo e chorando, não de pressa e paixão, mas de polícia montada e gás lacrimogêneo. Já em abril de 1984, da Candelária à Praça da República, um corpo único tinha um milhão de bocas cantando “Coração de estudante”.
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            Depois das aulas de Clínica Médica, na Santa Casa de Misericórdia, torturávamos nossos estômagos com uma sensacional rabada com polenta, servida num botequim assombroso, bem ao lado do hospital na Rua Santa Luzia. Contrariando todas as expectativas, sobrevivemos.
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          No fim do expediente, sentar no Amarelinho sem fome e sem sede, só para ve-la passar. Atrás do Teatro João Caetano, escolher entre o Altar da Pátria, no Real Gabinete Português de Leitura, ou Mariana Baltar no Centro Cultural Carioca. Ou ambos.
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          Certa época, falava-se muito da construção, na Avenida Rio Branco, de um prédio inteligente. Já sobre os ocupantes, não se ouviu nada. E falava-se mal do Mangue, ali onde hoje fica um prédio enorme da Prefeitura. Hoje em dia diz-se mais ou menos a mesma coisa do mesmo lugar.
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          Cinema, hoje, é apenas a sétima arte. Mas houve um tempo em que frequentar a cinemateca do Museu da Imagem e do Som, na Praça XV, era um ato revolucionário.
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          Eu, garoto, vi a Mangueira passar na Presidente Vargas. Outro dia, um estandarte da decoração de Carnaval caiu na Avenida Rio Branco. Não se sabe se foi ônibus ou tristeza.
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          Por que o Centro do Rio de Janeiro é sempre nostálgico?

Rafael Linden

6 comentários:

  1. Nada como a generosa porção de cubos de queijo provolone frito do Amarelinho, ou o picadinho ao molho madeira, acompanhado de um chopp gelado e bem tirado.De dar água na boca!

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  2. Rafael,mau amigo.Ainda nao vivi bastante a vertente carioca para sentir a nostalgia dos velhos tempos de centro de cidade.Mas me alegro de te-lo como conhecimento...como flaneur convicta,urbanisma subjetiva e moradora , eu leio seu texto com o doce gostinho da familiaridade.Bjos

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    1. Valeu, Lis. Não faltará oportunidade para você descobrir o seu Rio de Janeiro.
      bj
      Rafael

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  3. Olá,
    Constantemente leio seus belos textos cheios de lirismo. O Rio realmente é nostálgico, concordo. Principalmente no tocante à liberdade que se tinha naquela época de ir e vir, sem lenço, sem documento e o melhor, sem medo! Felizes os que puderam aproveitar as noites cariocas. Felizes os que não só viram a banda passar mas que seguiram com ela...
    PS. Adorei "Árvore Solitária" comovente.
    JU

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    1. Muito obrigado, JU. Mas é inevitável, os mais jovens, que não viram a banda passar, serão nostálgicos por outros motivos. É só uma questão de tempo.

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