quinta-feira, 10 de maio de 2012

O passeio de Afrodite

     Um dos grandes encantos da vida e da arte é o mito de Afrodite, a divindade grega do amor e da beleza, cuja versão romana é Venus. A deusa tem uma dimensão literalmente astronômica, por exemplo, no evento celeste conhecido como trânsito de Venus.
     Este fenômeno é a passagem daquele planeta entre o Sol e a Terra projetando um pequeno círculo escuro que, por algumas horas, desliza sobre a imagem do astro-rei à medida que os planetas se movem em suas órbitas*. Sua última ocorrência no século XXI será em junho de 2012, mas não poderá ser vista na maior parte do Brasil. Depois, só se repetirá daqui a cento e cinco anos! As gerações atuais perderão, assim, sua derradeira oportunidade de apreciar o passeio da deusa diante do sol.
     Aqui na Terra mesmo, ninguém é indiferente ao mito ou à sua controversa origem. Afrodite seria fruto da espuma que brotou da genitália de Urano atirada ao mar depois de castrada por Cronos ou, na opinião de Homero, teria resultado da união de Zeus com Dione. O pintor florentino Sandro Botticelli ofereceu uma versão poética de seu nascimento, outros artistas eternizaram cenas de sua vida íntima e Woody Allen a homenageou em um filme antológico. Dentre imagens de placidez ou de carinho, divulgou-se também amplamente o desejo incontrolável da deusa pelo belo Adonis.
     Já o parmesão Antonio da Correggio pintou o flagrante de um sátiro desnudando a deusa adormecida ao lado de Eros. Sátiros lascivos são comuns nas proximidades de Afrodite, sempre ávidos por seu corpo. E, talvez, sua alma. Afinal, até os nomes Eros, para os gregos, ou Cupido para os romanos, se traduzem como desejo, embora o pequeno arqueiro seja reconhecido como o mensageiro do amor...
     Minha imagem predileta, no entanto, é uma escultura de mais de dois mil anos de idade, que se encontra no Museu Arqueológico de Atenas e representa Afrodite, Eros e o sátiro Pan**. Em mármore, Afrodite repele a chineladas o assédio do fauno tarado, enquanto Eros esvoaça em torno do quiproquó. Também, quem manda aquele bode velho se engraçar com a minha, a nossa deusa! Mas, pensando bem acho que, entre outras coisas, o mito de Afrodite nos atrai tanto porque no fundo aquela escultura representa todos os que já foram repelidos pelos objetos de suas paixões, os quais  frequentemente se atiram aos pés de um Adonis qualquer e, ato contínuo, tratam os feinhos a sapatadas...
     E, assim, o trânsito de Venus transcende a Ciência e mergulha na Poesia. Os derrotistas, aprisionados nas órbitas planetárias, já estão a ruminar a angústia da existência sem os encantos de Afrodite. Os otimistas acham que, se não se dá o trânsito é porque a deusa escolheu passear em frente à sua porta e, quem sabe, entrar de corpo e alma. Fico, é claro, com a segunda opção.

Rafael Linden



** Foto da escultura no Museu Arqueológico de Atenas.


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