sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ora (direis) beijar galinhas

          Ainda grogue do furdunço outrora conhecido como tríduo momesco, o qual de uns tempos para cá está mais para novena desvairada, retomamos a rotina com mais um item do cardápio de curiosidades deste planeta improvável. Não sem antes homenagear o poeta Olavo Bilac, que sobreviveu ao desprezo dos modernistas, por escrito ou declamado, entre outras nas formosas linhas do soneto XIII de seu livro Via Láctea - “Ora (direis) ouvir estrelas, certo perdeste o senso”. Pois, na esteira do finado Parnasianismo brasileiro, ainda é oportuno parodiar Bilac no título desta crônica. Afinal, em matéria de insensatez, comparado com beijar galinhas ouvir estrelas é pinto (queiram perdoar).
          A historinha não é delírio de vosso amado cronista, muito menos “feiquiníus”, pois não somos de botar chifre em cabeça de ave. Foi noticiada numa de nossas fontes prediletas de esquisitices, Atlas Obscura. Lá consta ter o insuspeito Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apurado que, dentre cerca de um milhão de notificações de gastroenterites causadas anualmente pela bactéria Salmonella naquele país, vem aumentando o número de casos atribuídos à criação de galinhas no quintal da própria casa. E, pasmem, cerca de um quinto dos doentes nesse último grupo tinham, recentemente, abraçado ou beijado suas galinhas. Uma verdadeira epidemia de amor.
          Antes que o leitor rabugento implique com a crônica por, nas palavras dele não nossas, “perder tempo com diarréia de gringo”, é bom lembrar que tal flagelo pode ocorrer com qualquer um e é mais comum do que se pensa. Os casos graves que levam as pessoas aos hospitais são uma minoria mas, ainda assim, constituem um problema sério. Por aqui as estatísticas do Ministério da Saúde registram números muito menores do que nos EUA, mas não se sabe exatamente como se compara entre os dois países a fração de casos de gastroenterites por Salmonella que não são notificados.
          Seja como for, este telhado não comporta aspectos epidemiológicos das doenças transmitidas por alimentos. O que nos deixa de boca aberta é esse negócio de beijar galinhas, expressão que, no nosso tempo que já vai longe, tinha outro sentido…interrompemos nossa transmissão por recomendação expressa de nosso departamento jurídico. Como íamos dizendo é recomendável que, por mais afeto que um criador de galinhas caseiras tenha para com suas aves, abstenha-se de beijá-las ou abraçá-las por conta do risco de ser infectado. Isso porque a Salmonella é comum nas fezes de galinácios que, ao contrário de nossa combalida espécie, são resistentes a doenças transmitidas por aquelas bactérias. Os microorganismos acabam se espalhando na poeira em torno das aves e ficam só esperando uma mão amiga para catapultá-las para um de nós. O CDC americano também recomenda abster-se da prática comum de dar pintinhos vivos de presente para crianças. É tão bonitinho, né? Mas acontece que pintos em geral tem mais chance ainda de carregar Salmonella nos seus corpinhos amarelinhos, que cabem aqui na minha mão, na minha mão.
          Então taí, gente boa. Não faremos deste espaço campo de batalha entre Parnasianos e Modernistas, mas deixaremos por hoje, para nossa imensa platéia, o conselho de abolir, junto às simpáticas e comestíveis aves, arroubos como o retumbante brado de Bilac - “E eu vos direi: amai para entendê-las!”. Ou pelo menos, se for irresistível, amai vossas galinhas vivas a uma certa distância.

Rafael Linden

          

8 comentários:

  1. Ri muito, ótima crônica. Embora não seja fã delas a ponto de chegar à intimidade de beijos e abraços, terei o devido cuidado e alertarei os proprietários de granjas e chácaras. Muito obrigada. Maria A. S. Coquemala

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  2. Quando eu morei no kibbutz eu tive um pinto de estimação, o Dumbek. Ele era igual cachorro, vinha brincar e bicava a nossa orelha para nos acordar. Além disto, gostava de dormir aninhado no nosso travesseiro. Não sabia que passei um risco mortal! Que medo! 😃

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  3. Veja neste vídeo: Galinhas estão sendo usadas para combater a depressão e a demência em idosos. No Reino Unido. https://www.youtube.com/watch?v=mqWl2LfOM6o

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    1. Bacana, mas ainda assim é necessário cuidado.

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  4. Do tempo em que as professoras moravam em casas e se debruçavam nos peitoris das janelas à apreciar o movimento pelas calçadas e exibir aos varões seus dotes físicos ( passou pelo jurídico). ... Joāozinho vai pela calçada com uma galinha debaixo do braço. Passando à frente da casa da professora ocorre o seguinte diálogo: - Vai comer galinha hoje Joãozinho?
    - Não fessora (resposta completa vetada pelo departamento jurídico do bloguista)

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