domingo, 1 de maio de 2016

Os deuses e o clima


          Aqui no Rio de Janeiro, há poucos dias padecíamos de um calor insuportável quando, subitamente, nos atingiu o que os meteorologistas chamam de uma grande e forte massa de ar polar com ventos moderados, coisa essa que no dialeto carioca é conhecida como tá-frio-pácash. A gentil leitora assustou-se com a incômoda perspectiva de não dar praia no fim de semana. Já o rabugento festejou com meia garrafa daquele conhaque que matou o guarda, enquanto nós aqui degustamos uma reconfortante chávena do melhor Earl Grey disponível na praça. Numa hora dessas, inevitavelmente, nossa mente promíscua desliza para as mudanças climáticas.
          Não, senhora, pode guardar o biquini, que lhe será útil ainda por muito tempo. Esse rápido soluço da temperatura não é sinal de que, justo aqui na Cidade Maravilhosa, o aquecimento global deu lugar a uma nova era glacial, pois mudanças climáticas ocorrem aos poucos, mesmo contando com a inestimável colaboração do desvario ambiental e das emissões descontroladas de carbono. Já o tempo que nos resta antes da extinção da vida no planeta é outra questão, porque ainda se debate qual é a contribuição relativa dos muitos fatores que afetam o clima, dentre eles ciclos naturais, condições locais como crescimento populacional, manejo da terra e das florestas e gerenciamento de recursos hídricos, bem como as práticas industriais. E também há quem acredite que mudanças climáticas acontecem simplesmente porque, dependendo da denominação religiosa, uma única ou várias entidades sobrenaturais assim o querem.
          Por isso tudo, deleita-nos o trabalho publicado na revista Scientific Reports, feito por uma equipe multinacional de cientistas, coordenada pelos limnologistas Sapna Sharma, da Universidade de York, no Canadá, e John Magnuson, da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. O grupo revelou novos indícios a favor da relação entre a atividade industrial, o aquecimento global e a perturbação de ecossistemas em rios e lagos. Na verdade, evidências desta interação já vem se acumulando ao longo de muitos anos, mas o dados de antes da metade do século XIX eram sempre inferidos a partir de achados paleontológicos. Já neste trabalho, a novidade foi a identificação e o uso de informações objetivas colhidas ao longo de quase seiscentos anos.
          Essas informações vieram do Rio Torne que, em grande parte, corre ao longo da fronteira entre a Finlândia e a Suécia na direção do Mar Báltico, e do Lago Suwa, situado na região de Nagano, no Japão. Ambos congelam durante o inverno e degelam no início da primavera e, por razões distintas, a data do início do degelo do Rio Torne vem sendo objeto de registro desde 1693, enquanto o congelamento completo do Lago Suwa vem sendo registrado desde 1443. Esse lago, aliás, fica a menos de cem quilômetros do Monte Fuji, e foi imortalizado em uma das célebres gravuras da maravilhosa coleção produzida pelo artista japonês Katsushika Hokusai no século XIX.
          O Rio Torne é muito badalado na Escandinávia, porque é o local onde a criatividade nórdica inventou o Hotel de Gelo, uma construção de gelo moldado da água do rio. O hotel, que derrete na primavera e é reconstruído a cada ano próximo à cidade sueca de Jukkasjärvi, serve de pousada e local de atividades artísticas. Mas o Torne também é a principal fonte de salmão naquela região, e há séculos serve como via de escoamento de produtos comerciais. Por esse motivo, a partir do fim do século XVII um mercador começou a registrar as datas do início do degelo do rio. Depois, a prática se tornou rotineira, e atualmente há até um insólito concurso anual de advinhação do horário do evento. Deve haver muito pouca coisa para se fazer na beira desse rio… Mas assim se tornaram disponíveis dados confiáveis sobre as datas de início do degelo do rio ao longo de mais de trezentos anos.
          Existe também uma coleção semelhante de dados sobre a data de congelamento total do Lago Suwa, mas por outra razão. Esse registro é feito há mais de quinhentos anos por kannushi, sacerdotes da religião Shinto, em honra da lenda segundo a qual o congelamento do lago permite ao deus Takeminakata atravessá-lo para visitar sua esposa, a deusa Yasakatome, do lado oposto do lago. O Suwa contém, abaixo da superfície, uma fonte de água quente que, por ocasião do congelamento, caprichosamente produz uma trilha elevada e sinuosa na superfície do lago, chamada de omiwatari. Reza a tradição que se trata das pegadas de Takeminakata em sua jornada rumo ao santuário da esposa. O congelamento é seguido de uma cerimônia de purificação celebrada pelos kannushi, a qual é devidamente registrada em papel de arroz e vem sendo preservada por uma sucessão de quinze gerações de sacerdotes. Na prática, o ponto de partida e a direção da elevação eram ainda usados como indicadores para previsão das colheitas, temperatura e chuvas naquela região.
          A análise dos registros revelou alterações substanciais ao longo de séculos nos cronogramas tanto do degelo do Rio Torne quanto do congelamento do Lago Suwa. Tais alterações passaram a ser mais acentuadas a partir de meados do século XIX, coincidindo com a época da Revolução Industrial. A aplicação de métodos estatísticos indicou que estas mudanças, em locais tão distantes um do outro, se relacionam estreitamente com a quantidade de gás carbônico na atmosfera e a temperatura do ar. Foi também notado que a partir da Revolução Industrial aumentou a frequência com que o Lago Suwa deixou de congelar completamente durante o inverno. Os cientistas comentam que, além de efeitos sobre taxas de evaporação e precipitação pluvial, bem como sobre processos biológicos relevantes para a subsistência dos povos que vivem em regiões mais frias, mudanças nos ciclos de congelamento e degelo de lagos e rios afetam atividades esportivas e recreativas e impactam a própria identidade cultural destas populações.
          A Climatologia é fascinante. Mas, não bastasse tudo isso, nós aqui ainda ficamos preocupados com a possibilidade de que falhas do congelamento anual possam abalar irreparavelmente a felicidade conjugal do casal de deuses do Suwa. Já imaginaram a frustração de Takeminakata, ao se ver impedido de atravessar o lago todos os anos para aproveitar aquele friozinho ao encontrar sua doce Yasakatome? Além de todo o estrago concreto que a progressão do aquecimento global possa produzir, só nos faltava que até os romances dos deuses se tornem vítimas das mudanças climáticas…

Rafael Linden

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