sábado, 5 de março de 2016

Ah, Coração Gelado...

          A gentil leitora certamente lembra com saudade dos anos noventa quando, ainda criança, não perdia as aventuras dos Ursinhos Carinhosos, não é mesmo? Não? Nem sabe do que se trata? Eram personagens de desenhos animados, exibidos no programa de TV da apresentadora infantil Mara Maravilha. As histórias giravam em torno de uma família de ursinhos sorridentes, de vários tamanhos e cores, e mais uma fieira de outros bichos simpáticos, cujas aventuras eram sempre resolvidas pelos bons sentimentos dos heróis. O grande vilão daqueles filminhos era um ser tonitruante, vestido de roxo, com um capuz que revelava apenas um par de assustadores olhos vermelhos. Chamava-se “Coração Gelado”, e sua função nas historinhas era sabotar os bons sentimentos dos inocentes ursinhos. Lembrou agora?
          Daí as maiúsculas no título que servem para, entre outras coisas, diferenciá-lo do forró do grupo pernambucano Limão com Mel, ou de melôs românticas de artistas célebres, como José Augusto ou Lucas Dutra…quem? E também para distingui-lo do trêmulo “coração alado” do compositor cearense Raimundo Fagner. E daí, pergunta o leitor rabugento? Tudo isso para, ao fim e ao cabo, o humilde cronista confessar que, novamente, tergiversa? É claro, pois o que nos interessa aqui não é o vilão do desenho animado, nem os lamentos de poetas e cantores. É coração gelado mesmo, literalmente. O coração de um esquilo.
          Apesar da Disney nos empurrar goela abaixo a idéia de que esquilinhos são do bem, nossos fãs que moram no hemisfério Norte os consideram uma praga mesmo. Porém, hoje, esses animaizinhos se tornam personagens de uma crônica neste sagrado espaço que…bom, vamos ao que interessa. Muitos esquilos hibernam durante o inverno. Um deles é um bichinho que pesa cerca de duzentas gramas e ostenta treze listras no dorso. Esse tipo de esquilo é encontrado no meio oeste norte-americano, região em que o inverno costuma ser rigoroso. No verão o bichinho saltita pelas matas, come de tudo sem culpa, acumula gordura corpórea, estoca sementes e outros alimentos na sua toca, e tem uma temperatura corporal parecida com a nossa. Já durante os meses frios, que naquela região vão de novembro a março, o esquilinho entra em hibernação. Sua temperatura corporal cai a cinco graus centígrados, mais ou menos aquela em que mantemos nossa aguinha gelada dentro do refrigerador. Nesta temperatura o bicho fica em torpor, gastando as energias acumuladas nos meses quentes, e sonha com comida quentinha e bem temperada acompanhada por um bom vinho, de preferência um Clos Fourtet St.-Emilion.
          Mais impressionante é que, durante a hibernação, a cada uma ou duas semanas o esquilo acorda por algumas horas, eventualmente mastiga um lanchinho do estoque e volta a dormir por mais uma ou duas semanas. No curto período acordado sua temperatura volta aos trinta e tantos graus e, depois, retorna aos cinco, passando pelos vinte graus, uma temperatura na qual animais que não hibernam sofrem invariavelmente parada cardíaca. Ou seja, o coraçãozinho do esquilo sofre choques térmicos repetidos, um dos quais apenas bastaria para liquidar o leitor rabugento e nos deixar em paz. Essa resistência intriga os cientistas, tanto pelo mistério biológico, quanto pela possibilidade de que o conhecimento dos mecanismos de defesa do coração do esquilo permita, no futuro, desenvolver novos tratamentos para doenças cardíacas.
          Por isso, uma equipe da Universidade de Minnesota, nos EUA, estudou a fundo a expressão de genes e o conteúdo de proteínas do coração destes esquilos em diferentes meses do ano, para comparar espécimes em atividade no verão com aqueles em hibernação, tanto durante o torpor quanto no curto período em que eles acordam temporariamente. O estudo, publicado em outubro de 2015 na revista Journal of Proteome Research, é interessante não apenas pela pergunta biológica, mas também pelo método de análise desenvolvido pelo grupo liderado pelo biólogo Matthew Andrews, e que contou com bioquímicos e especialistas em computação de alto desempenho. Trata-se de programas utilizados no supercomputador da Universidade, capazes de processar uma quantidade enorme de informação sobre os genes e as proteinas. Por uma série de razões técnicas, essa metodologia representa um avanço importante, fornecendo dados novos e abundantes que aumentam muito a compreensão das respostas das células a eventos externos, nesse caso a hibernação.
          Os pesquisadores identificaram um grande número de proteínas que é afetado pelo resfriamento, e agora estão buscando, dentre elas, quais, ou que combinações, são responsáveis pela resistência do coração dos esquilos hibernantes. A enorme quantidade de dados significa que, provavelmente, levará um bom tempo até que as respostas definitivas sejam encontradas. Mas há uma grande expectativa de que estudos desta natureza contribuam para iluminar questões complexas, e os métodos desenvolvidos pela equipe do Doutor Andrews poderão ser muito importantes para avançar o conhecimento biológico e médico.
          Aqui do telhado vejo que a gentil leitora, ainda assim, parece triste. Penso que, malgrado sua estonteante beleza, profunda inteligência e cativante doçura, já terá, em algum momento, sido vítima de um coração gelado. Talvez esteja a suspirar, atormentada pela lembrança do vilão cruel que feriu seus sentimentos e destruiu seus sonhos, ou pelas musiquinhas bregas que teimam em torturá-la com recordações indesejáveis. Que dizer, numa hora dessas? Receio que, em contraposição ao coração do esquilo hibernante, ainda que proliferem os cientistas mais brilhantes e os supercomputadores mais poderosos, os mistérios do coração metafórico sejam impenetráveis…

Rafael Linden



2 comentários:

  1. Comentar em blog é muuuito chato e burocrático... Mas esse eu tenho que dizer, eu preciso dizer: FASCINANTE!
    Adooorei... Bjos.

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