sábado, 19 de março de 2016

Três atrizes, camarão e borboleta

          No filme “O diabo veste Prada”, de 2006, Anne Hathaway aparece como a personagem Andy, uma jovem recém-formada que consegue um emprego como secretária da personagem Miranda Priestley, poderosa editora de uma revista de moda interpretada por ninguém menos do que Meryl Streep. Numa de suas primeiras contracenas, a secretária não vê diferença entre as cores de dois cintos, provocando em Miranda um monólogo antológico sobre a cor do suéter da moça, a criatividade de estilistas famosos e a indústria da moda, iniciado pelo comentário “…o que você não sabe é que esse seu suéter não é simplesmente azul, não é turquesa, não tem cor de lápis-lazuli, na verdade é cerúleo…”. Ao fundo outra personagem, interpretada por Emily Blunt, rouba parte da cena com um simples balançar da cabeça, reprovando a incapacidade de Andy distinguir cores. É um de vários momentos em que as três atrizes, em particular Meryl, justificam seus salários com abundantes recursos artísticos.
          Pois, aqui do telhado, vosso cronista predileto reviu a cena várias vezes em uma base de dados de monólogos de cinema ou teatro que – juro pelo que há de mais sagrado – existe na internet e, confesso, continuo não vendo diferença de cor entre os dois cintos. Sacumé, né? Hômi com “ó” maiúsculo só reconhece branco, preto, vermelho, amarelo, verde e azul, em combinações de duas ou três, as quais correspondem às camisas de seu time de futebol predileto, é ou não é, rapeize? Mas, à parte esse surto de machismo psicótico, como é que os “hômi” e as mulheres distinguem uma cor da outra?
          Eis uma das muitas questões sobre a Natureza cuja solução envolve a Física, a Química e a Biologia, um pouco de cada. Para simplificar basta acreditar que, lá no fundo dos lindos olhos da gentil leitora, existem células de um tipo particular, chamadas cones. Esses cones são receptores de cor, ou seja, funcionam como detectores seletivos para as múltiplas cores que fazem parte de imagens que a óptica do olho forma sobre a retina. No Homo sapiens, essa nossa espécie que, ora vejam, é a mesma tanto para homens quanto para mulheres, a retina possui três tipos distintos de cones. Cada um é sensível a uma faixa limitada de cores do chamado espectro visível, que é o conjunto de todas as cores daquele belíssimo arco iris que surge em lugares bucólicos ao final de uma chuva refrescante. A percepção das diferentes cores depende de quais dos três tipos são ativados por cada imagem, e o quanto cada tipo é ativado. A partir da combinação da atividade dos cones, a informação é transmitida para o cérebro e leva à percepção da cor de um objeto.
          A visão pode ser objeto de anomalias como o daltonismo, no qual um indivíduo tem reduzida sua capacidade de distinguir cores, por carência ou inativação de um dos três tipos de cones. Mas mesmo em condições normais, nem sempre é possível distinguir duas cores muito parecidas apenas com os três tipos de detectores que a retina humana possui. Esta capacidade pode melhorar com muito treino, coisa que faltava na inexperiente secretária e sobrava na editora da revista caricaturada naquele filme. Ainda assim, animais que possuem uma variedade maior de receptores de cor são capazes de detectar diferenças mais sutis. E, por mais que o leitor rabugento se ache melhor, mais evoluído e mais importante do que meros camarões ou borboletas, muitos desses bichos são bem melhores do que ele para diferenciar cores. De passagem, esclareço que isso não tem nada a ver com o chamado “camarão borboleta”, um jeito peculiar de cortar e limpar o crustáceo para o preparo de camarão empanado. Trata-se de Fisiologia mesmo.
          Tanto camarões quanto borboletas tem olhos muito diferentes dos nossos, mas os princípios da visão de cores são muito parecidos. Vários exemplares possuem mais receptores do que seres humanos e, francamente, alguns exageram. Por exemplo, um camarão conhecido como estomatópode, lacraia-do-mar ou lagosta-boxeadora possui quinze tipos distintos de receptores de cor, e uma borboleta chamada bluebottle tem dezesseis. Essas descobertas foram divulgadas em artigos científicos, um deles publicado pelo cientista norte-americano Thomas Cronin na revista Current Biology em 2006 – mesmo ano do lançamento de ”O diabo veste Prada” -, e outro por um consórcio de pesquisadores do Japão e de Taiwan, na revista Frontiers in Ecology and Evolution em março de 2016. Naqueles dois animais há muito mais receptores sensíveis às cores que os humanos enxergam, além de alguns tipos também sensíveis a ultravioleta, que nós não enxergamos. Essa grande variedade de células, com sensibilidade diferencial para cores bem próximas, aumenta muito a capacidade dos bichinhos distinguirem colorações que nós achamos idênticas.
          Neste exato momento pergunta o rabugento se não seria suficiente uma notinha de pé de página dizendo que há bichos que enxergam cores muito melhor do que os humanos. Precisava de toda essa xaropada cinematográfica lá do início? Ora, respondemos em coro, é claro que sim. Pois assim podemos encerrar apoteoticamente, arredondando o texto com o esperado delírio deste vosso criado, que vislumbra camarões e borboletas debatendo febrilmente as novas tendências de cores da coleção Primavera-Verão 2016 da Maison Chanel ou da grife Oscar de la Renta, deixando boquiaberta a editora da revista Vogue.

Rafael Linden



6 comentários:

  1. LIbera o link dos monólogos, por favor. De resto, adorei o texto!

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    1. Obrigado, Ricardo. O link é http://www.monologuedb.com
      Mas acho que há outros também.
      abs
      R

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  2. Muito saboroso Rafael, se as cores complicam então espero blog do olfato e gosto. A percepção do amarelo há 2 séculos desafiava os cientistas havendo somente cones RGB, precisamos então das outras células da retina e do SNC. Abraço (PS: sempre voto no seu blog!)

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    1. Obrigado pelo comentário, Ricardo. De fato, a visão de cores tem muitos outros mistérios. Olfato e gustação, então, nem me arrisco a incluir em crˆønicas (ainda...)
      Grande abraço
      Rafael

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  3. Adoorei o texto... como nos padrões desse blog rico em conhecimento!

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