sábado, 6 de dezembro de 2014

Tom Jobim e a Era da Banalização

          Esta semana completa-se duas décadas da morte de Tom Jobim. O grande compositor criou melodias inesquecíveis, ao aliar sua formação clássica com uma inspiração permanente, inquieta, original, coroada com letras arrebatadoras de parceiros como Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Dolores Duran e outros. Na sua ausência, a música brasileira empobreceu, incapaz de substituir um gênio criativo como o mestre Tom.
          De seu legado impressionam a riqueza melódica, a originalidade e a delicadeza das harmonias. Sua ausência é tanto mais sentida quanto mais nos agride a indigência sonora que por aí anda. O leitor rabugento tem razão quando se tranca na companhia de bem preservadas bolachas pretas e CDs cuidadosamente escolhidos, componentes de sua coleção raramente renovada com lançamentos recentes.
          Estará vosso cronista não cronologicamente, mas também, e pior, metaforicamente velho e intolerante? Esquece-se de que não se pode comparar a contemporaneidade com tempos idos, já depurados do lixo que sempre polui a cultura do presente? Ou haverá, de fato, alguma tendência macabra de banalização da música popular?
          Pois foi isso que um grupo de cientistas de Barcelona, liderados por Joan Serrà resolveu investigar, com ferramentas de processamento de dados e a neutralidade possível. Os pesquisadores usaram uma base de dados de acesso público chamada The million song dataset - “conjunto de dados de um milhão de canções” -, criada por Dan Ellis, da Columbia University. Ellis é um engenheiro e professor, que se dedica a desenvolver métodos de extração automática da informação contida em sons. Nesta base de dados, ele e seus colegas vem codificando informação sobre características do som organizado na forma das melodias de um número enorme de canções populares.
          O grupo catalão publicou na revista Scientific Reports sua análise de mais de quatrocentas mil canções compostas nos últimos cinquenta anos, pela qual concluiu que, embora muitas características musicais tenham permanecido estáveis ao longo de meio século, os dados demonstram matematicamente uma tendência progressiva de rarefação de transições de tons, homogeneização de timbres e aumento da proporção de trechos com volume alto, com o passar do tempo. Em resumo, a música popular ao longo dos últimos cinquenta anos se tornou progressivamente mais simplória e barulhenta. O rabugento já se levanta da poltrona, reclinado na qual ouvia placidamente uma sonata de Mozart interpretada por Claudio Arrau, e vocifera contra a platitude deste achado, ora, pipocas, e precisa de cientista para descobrir o que é óbvio para qualquer um que não seja surdo? Calma, senhor, perceba que não se trata de comparar Beethoven com Michel Teló: foram analisadas quatrocentas mil cancões classificadas como música popular. E não é uma opinião – da qual compartilho com nosso irritadiço e crítico leitor -, e sim uma demonstração isenta, obtida por critérios estatísticos de absoluta neutralidade. Se, ainda assim, o rabugento acha pouco, convido-o a procurar na internet fotos do espanhol Serrà e do inglês Ellis, com o que constatará que não se trata de vetustos anciãos de cara amarrada. Ao contrário, são mancebos que parecem perfeitamente capazes de se esbaldar no fim de semana ao som dos similares locais de beijinhos no ombro…
          Então, tudo indica que há, de fato, um empobrecimento progressivo do conteúdo musical no cancioneiro popular. Mas, pensando bem, essa trivialização não parece ser restrita à música popular. É bem possível que estudos semelhantes ao do grupo de Barcelona encontrem, em outros campos da cultura como a Literatura, Arte Plásticas e até as Ciências, padrões semelhantes de simplificação acompanhados por aumento do volume com que os autores apregoam suas próprias obras. Cada vez se faz mais barulho por menos criatividade e inovação. A cada dia menos se valoriza um Tom Jobim, e mais o objeto de consumo fácil e imediato. Não há (ainda?) provas científicas de que esta tendência seja generalizada, muito menos que esta progressão seja intrinsecamente danosa à história da humanidade. Mas não resta dúvida de que assim se banaliza a cultura, possivelmente a única das criações humanas que não tem contraindicação.   
          Talvez por razões semelhantes, outras coisas também vem se tornando progressivamente triviais. Falta de educação, desonestidades de todos os tamanhos e matizes, agressões verbais ou físicas, assassinatos por motivos fúteis. Entre muitas outras obras, o historiador Eric Hobsbawn publicou livros famosos que retratam períodos sucessivos da história desde a Revolução Francesa, com os títulos padronizados “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos impérios” e “A era dos extremos”. Hobsbawn faleceu em 2012, caso contrário poderia se inspirar na falta que nos faz o Tom Jobim e escrever a continuação da série, agora com o título “A era da banalização”.

Rafael Linden



6 comentários:

  1. Olá Rafael,como está?
    Sou o Alfredo do Portal Teia, temos uma novidade, criamos uma nova rede de informações para divulgar as postagens de nossos amigos e seu post já está lá, passa lá pra ver se ficou bom, pode enviar links diretamente lá a partir de agora.
    Tenha um ótimo fim de ano meu amigo!

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    1. Obrigado, Alfredo.

      Só que meu acesso via Mac com Safari ou Firefox está dando erro, sem acesso ao comentário para inserção de posts. Deve ser fácil de corrigir.

      Parabéns pela nova iniciativa, a estética do portal é a melhor que tenho visto em agregadores
      abraços
      Rafael

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  2. Muito boa reflexão. Essa nova Era assusta, realmente.

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    1. É verdade. Obrigado pela visita, Ana.
      Rafael

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