sábado, 20 de dezembro de 2014

A dieta do verão e o aquecimento global


          Estamos a pouco dias do verão no Rio de Janeiro. Aproxima-se a estação da alegria, criançada em férias, muito sol, suor e cerveja estupidamente gelada, gente sarada com roupas exíguas, pele bronzeada, tatuagens fresquinhas, exibindo aquela saúde toda na praia, com o único e edificante propósito de entabular uma parceria para o fim da noite. Vez por outra, fazer o que, tropeça-se no rotundo tio Pelópidas, para nos lembrar que “corpo definido” tem definições mais amplas que se pode imaginar.
          Encontro a gentil leitora no meio termo que separa Pelópidas e sua esposa, igualmente robusta, do galã da novela e, ai ai, daquela formosura que trafega num biquini feito de, ao todo, doze centímetros de um único fio de fibra sintética. Eis que nossa fã incondicional se encontra em pânico. Pois não é que o verão bate à porta e ela ainda está três quilos acima do peso cientificamente indicado para si, de acordo com o último exemplar da revista Marie Claire? Ah, o horror! Para piorar as coisas, o recesso de Natal e Ano Novo, que poderia ser passado na academia de malhação, coincide - vejam que coincidência - com o Natal e o Ano Novo...
          Nestas datas festivas, cônscios de suas tradições eclesiásticas ou culturais, a galera se dedica apropriadamente a entupir o bucho de aves e presuntos, farofas, guloseimas, tudo isso regado a bebidas altamente calóricas. Agora danou-se. As amigas da nossa leitora vão se fartar de, na sua ausência, demonstrar o quanto a amam, às gargalhadas, saboreando as mais cruéis piadas sobre pneuzinhos e outros acessórios automobilísticos que costumam decorar as vizinhanças dos escassos biquinis. Urge uma dieta radical, acompanhada de abundantes orações a Santa Rosa de Lima, pedindo-lhe inspiração para, se possível, jejuar até meados de janeiro. E é neste exato momento que o leitor rabugento, tomado por um misto de desprezo pelas preocupações mundanas e curiosidade científica, pergunta: - E, se essa maluquice der certo, para onde vai a gordura perdida quando a leitora emagrece?
          Arrá! A frase que agora se lhe descortina aos olhos é o intervalo de poucos segundos que o cronista lhe oferece para que pense na resposta. Enquanto isso, informo que o respeitável periódico científico British Medical Journal publicou há poucos dias um interessante artigo dos australianos Ruben Meerman e Andrew Brown, com o título da pergunta que aquele chato fez ainda agorinha.
          Para começar, os pesquisadores fizeram uma enquete, perguntando isso a um grupo de médicos, nutricionistas e preparadores físicos – que nossa sofisticada platéía costuma chamar de personal trainers -. Dentre as várias opções, que incluiam as fezes, suor, urina, músculo e outras, a mais popular entre todos estes profissionais foi que a gordura perdida se transformava em energia ou calor.
          Os autores do trabalho apontaram para a improbabilidade desta resposta, que viola a chamada lei da conservação das massas, a qual é essencialmente respeitada no nível de reações químicas como as que acontecem no emagrecimento, baseadas na metabolização de triglicerídeos, uma classe de gorduras armazenadas nos chamados adipócitos. Então, apesar da teoria da relatividade oferecer o conceito de  transformação de massa em energia, o simples desaparecimento da gordura e aparecimento de calor não é convincente.
          Os cientistas estudaram as reações químicas e calcularam as quantidades dos derivados formados no emagrecimento. Chegaram a duas conclusões: primeiro, que a gordura perdida acaba, por força da oxidação dos triglicerídeos, se transformando em dióxido de carbono – o conhecido CO2 - e água, nas quantidades previstas pela lei da conservação das massas; e segundo, que esse CO2 que vem da gordura “queimada” é expelido pelos pulmões, na respiração, enquanto a água sai pelos caminhos habituais como o suor ou a urina. Ou seja, a gordura que a escultural leitora perdeu ontem, depois de duas horas na esteira e um monte de pulinhos, virou mero CO2.
          O rabugento se contorce de raiva, achando que o cronista, num arroubo de sandice, vai enveredar pela teoria de que quando alguém se exercita na Mata Atlântica não está se beneficiando do ar puro, e sim contribuindo com seu CO2 para a fotossíntese e, por isso, para a saúde das plantas. Longe de nós semelhante isso. E também não cairemos no pagode do cientista doido ao afirmar que mais do que o desmatamento, o escapamento dos automóveis, a poluição industrial ou a flatulência do gado, quem realmente está provocando o aquecimento global é o CO2 produzido pelos seres humanos que se esfalfam diariamente nas academias de ginástica. Também isso não faremos.
          Mas, não fossem a obrigações que nos afligem, seria divertido tomar os resultados quantitativos do trabalho dos australianos e testar a hipótese de que o calor insano que, estejam certos, vai fazer nos próximos meses na Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro recebe uma contribuição significativa do efeito estufa criado por uma infinidade de cariocas aflitos por, todos ao mesmo tempo, entrarem nas sungas e biquinis com as quais pretendem desfilar nas extensas e tristemente poluídas praias desta comarca, exibindo suas formas apolíneas recentemente ajustadas por horas a fio malhando desesperadamente. Quem sabe, né?

Rafael Linden


8 comentários:

  1. É isso, simples assim!

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  2. Boa essa do CO2 e aquecimento :) e cabe aqui a frase de Lubert Stryer, "As interações moleculares reversíveis são a essência da dança da vida."
    O que se esquece durante a busca por padrões ditados é que na dança da vida podemos escolher a música e ser feliz.
    Beijo grande

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  3. Realmente, simples assim!!!!!!

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  4. Adorei, professor! Agora terei um ótimo argumento contra as dietas!! rsrs
    Excelente texto! Beijooos

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    1. E quem precisa de argumentos?
      :-)

      Obrigado pela visita!
      bjs
      R

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