sábado, 13 de dezembro de 2014

O esqueleto no armário da coroa

          Não é nada disso, madame. Este blogue não publica histórias de terror. É apenas um chamariz adequado para a crônica de hoje, que trata de uma novidade meio desagradável para uma certa realeza. E a coroa do título, com todo o respeito, não é a gentil leitora, nem a vovó, nem a dona Mariquinhas do sexto andar. A coroa, no caso, é a britânica. E o tal esqueleto é, nada mais nada menos, do que a estarrecedora revelação de um adultério.
          Como disse, senhora? Hoje em dia revelação de adultério dificilmente é estarrecedora? Pois, pasme, trata-se de um chifre de setecentos anos. Mas só agora a Ciência traz a público a prova material de que um membro da linhagem da monarquia britânica era um bastardo, não apenas metafórico, mas genético mesmo.
          Há algum tempo foi descoberto um esqueleto enterrado debaixo de um estacionamento na cidade inglesa de Leicester, e identificado como pertencente ao rei Ricardo III. Este monarca reinou por apenas dois anos, de 1483 a 1485, durante os quais construiu uma fama diabólica, e foi morto em batalha por seu inimigo Henry Tudor, o qual com isso abiscoitou o trono. Quando da descoberta arqueológica, foi noticiado que os cientistas tinham confirmado a identidade de Ricardo III pelo exame do DNA extraído das mitocôndrias dos restos mortais, comparado ao DNA das mitocôdrias de uma descendente de Anne de York, irmã do rei Ricardo.
          Então, há poucos dias a revista Nature Communications publicou um artigo assinado por cientistas de vários países além dos pesquisadores da Universidade de Leicester, contendo a descrição do estudo feito com todo o DNA recuperado do esqueleto, a análise genética e os cálculos dos cientistas de que a chance daquele esqueleto não ser de Ricardo III é menor do que seis em um milhão. Ou seja, é praticamente impossível que a identificação seja falsa. Vosso amado cronista não é versado em Genética, mas tem um punhado de amigos gaúchos com os quais vem aos poucos aprendendo alguma coisa e adorou a leitura, principalmente pela forma como a pesquisa foi relacionada à genealogia da família real da Inglaterra.
          Na verdade, a história daquela ilha velha não é das mais edificantes, recheada de  fratricídios e outras tragédias movidas pela ânsia de poder típica da aristocracia. Mas ninguém que passe algum tempo por lá consegue ficar indiferente às curiosidades daquele povo excêntrico. E, ora vejam, nesse mesmo artigo a Genética, além de bater um recorde ao confirmar a identidade de uma pessoa que se encontrava desaparecida há 527 anos – nem os roteiristas de C.S.I. tinham até agora inventado uma história assim - , ainda nos brindou com a revelação de um adultério.
          Não, senhora, não é gozação. Aqui no telhado de fato mentimos um pouquinho, afinal esse blogue foi criado para escrever ficção. Mas hoje trata-se de pura verdade. A respeitável publicação científica resvalou para o estilo mundano da revista Caras e anunciou para o mundo que houve um bastardo na linhagem real descendente do monarca Eduardo III, que reinou no século XIV e é o trisavô de Ricardo III.
          Os cientistas se valeram de certas regras da Genética. Da mesma forma que a linhagem materna pode ser confirmada pelo exame do DNA das mitocôndrias, que são herdadas sempre da mãe, a linhagem paterna pode ser confirmada pelo exame de uma porção invariante do cromossomo Y, a qual passa sempre de pai para filho homem. Pois não é que, ao comparar as características do DNA de Ricardo III com o DNA correspondente de descendentes da família real, os pesquisadores descobriram que um desses descendentes tem o cromossomo Y diferente dos demais? Pela análise genealógica, os cientistas concluiram que essa alteração é consequência de um evento de falsa paternidade, ocorrido em algum momento ao longo das dezenove gerações que sucederam o rei Eduardo III desde o século XIV.
          Nosso leitor rabugento, sempre alerta, dá de ombros e comenta com seus botões que isso também não é nenhuma novidade, porque a história britânica já registrava que dois outros filhos nascidos fora dos sagrados laços do matrimônio foram legitimados entre os séculos XIV e XVIII. Mas no caso da descoberta atual, o rabo da proverbial porca torce um pouco além do habitual. Pois o já sobejamente celebrado rei Eduardo III teve vários filhos, um dos quais, Edmundo, foi o bisavô de Ricardo III. Mas a fofoca da época era de que Eduardo III sequer estivera presente ao nascimento de outro rebento, chamado John, porque esse não seria seu filho e sim, quem diria, de um açougueiro belga…
          Ah, agora tenho a atenção de todos, né? Pois saibam que, se de fato John não era filho de Eduardo III, então seus descendentes, que constituiram a dinastia Tudor, não teriam direito ao trono britânico! Por mera sorte Elizabeth II, hoje rainha da Inglaterra, é descendente de outro dos filhos de Eduardo III e não do pobre John que, dizem, se enfurecia toda vez que alguém insinuava ser ele um bastardo.
          Isso tudo para mostrar para nossos fiéis leitores que a Genética não só é interessante e útil para a Biologia e a Medicina, mas também pode transformar uma revista com a marca da poderosa Nature em sucedânea de um dos maiores sucessos da imprensa brasileira, os “Mexericos da Candinha”, coluna de fofocas da década de 1950, escrita semanalmente para a Revista do Rádio pelo jornalista Borelli Filho, e que revelou inúmeros esqueletos dos armários das celebridades da época.

Rafael Linden



12 comentários:

  1. Gostei muito da crônica de hoje. E, como geneticista, gosto de ver como os genes podem contar as história do passado. Eles (os genes) sim não mentem jamais. Maria Luiza

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  2. Muito bom... Sempre temos mais novidades na História da Humanidade...

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    1. É só procurar...
      Obrigado pela visita, Ana.
      Rafael

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  3. Oi Rafael, divulguei seu link no Turbonauta, só fiquei na dúvida se coloquei a imagem correta, qualquer coisa vc me fala, té mais!

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    1. Obrigado, Alfredo. A ilustração está ótima.
      Abraços
      Rafael

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