sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cobras e olhos negros


          Uma das razões pelas quais este cronista evita mergulhar fundo no próprio subconsciente é que bem sabemos da nossa mania de conjuminar assuntos desconexos. Sabe-se lá o que diria o velho Sigismundo ao topar com tal desvio. Portanto, queiram os ilustríssimos leitores, por caridade, perdoar o título acima e, com todo o respeito, conjuminemos.
          Cada um elege o assunto que lhe apraz. Então, esta semana escolhemos como a mais palpitante a descoberta, feita pelo Ibama junto com a Polícia Federal, de que uma jibóia valiosíssima foi vendida pela ex-administradora de um zoológico de Niterói a um criador de serpentes norte-americano, que a contrabandeou pela fronteira de Roraima com a Guiana e levou-a para os Estados Unidos. Levou a cobra, bem entendido. A cobra réptil, melhor entendido ainda.
          Acontece que esse bicho é raríssimo - ao que parece é a primeira cobra portadora da condição genética chamada leucismo, na qual partes ou até o corpo inteiro de um animal são brancos devido a falta de pigmentação. Não é o mesmo que o albinismo, pois nesse a cor dos olhos é vermelha. No caso em questão, trata-se de uma cobra com corpinho todo branco e olhos negros. Não, minha senhora, o cronista não tem leucismo, apenas não toma muito sol, entre outras coisas porque passa muito tempo escrevendo besteiras nesse blog.
          Consta que, quando o tal zoológico foi fechado, a administradora levou a cobra para casa e, tempos depois, declarou que o animal tinha morrido. Mas os federais encontraram fotografias da senhora, toda sorridente, com o marido e mais o contrabandista americano. E, ao vasculhar as redes sociais, acharam fotos da cobra com o gringo. Há rumores de que filhotes desta jibóia branca tem sido vendidos por uma boa grana, o que levou ao cálculo de que a mãe de todas as cobras vale coisa de um milhão de dólares.
          Não nos tocaria tanto esta história, não fosse ela mais um exemplo de assalto ao patrimônio genético que acontece aos montes do Oiapoque ao Chuí. E, não bastasse a espionagem, o Obama teve sorte de, por poucos dias, escapar de ser enquadrado em pirataria também. Sosseguem, porém, pois não será hoje que descambaremos para o colunismo político, já mais do que saturado em todas as mídias. Conforme reza a tradição deste espaço democrático onde eu mando sozinho, divaguemos outrossim sobre os dois componentes da insólita notícia.
          Em primeiro lugar, a pele branca com olhos negros nos remete ao último filme da carreira da maravilhosa atriz italiana Silvana Mangano. Aliás, passei décadas a pronunciar seu sobrenome “Man-gâ-no”. Eu e todo mundo por aqui, acho. Pois hoje estava eu tão-somente apreciando as imagens de um video falado em italiano no Youtube, quando descobri que na terra de Michelangelo e Berlusconi diz-se “Mân-gano”, com acento na primeira sílaba. Este blog é pura cultura, não é mesmo? Mas voltando ao assunto, a obra de 1987, dirigida pelo cineasta russo Nikita Mikhalkov, era Oci ciornie, ou seja “Olhos negros” e Silvana interpretava uma aristocrata chamada Elisa. A trama envolvia a paixão que seu marido, um bon vivant interpretado por - quem mais? - Marcello Mastroiani, nutria pela personagem da então jovem atriz russa Yelena Safonova, de quem o homem de meia idade se enamorou ao conhece-la num spa. Preciso ver esse filme, dizem que é ótimo.
          E de cobra, o que mais se pode dizer? Já não basta a negociata? Pois tomem ciência de outra história que envolve um americano e uma cobra. Há poucos meses estive em uma simpática birosca chamada Tippi Teas em El Paso, no Texas. É uma casa de chás de propriedade de um casal de remanescentes da era hippie. Pois eu soube que há tempos o marido comprou uma cobra lá mesmo nos EUA. E, sabendo que seu novo animalzinho de estimação era originário do México, não é que o cara levou consigo a cobra numa viagem de avião ao país vizinho para que, segundo ele, a bichinha conhecesse a terra natal?
          Só que na volta a cobra, que viajava enrolada no corpo do cidadão, deu de botar a cabeça para fora da camisa dele e o vizinho de poltrona, ao perceber do que se tratava, começou a berrar como todo bom primata. O resultado foi um tempão perdido em explicações junto às autoridades americanas até que, pasmem, o cidadão conseguiu levar a criatura de volta para o Texas onde, presumo, os três, marido, mulher e cobra, vivem felizes.
          Só mesmo o dono de um estabelecimento que vende uma centena de variedades de chás em folhas, algumas das quais meio suspeitas, bem como roupas que parecem sobras dos figurinos da peça Hair, consegue se tornar personagem de uma história dessas que, devo no entanto admitir, é mais inocente do que a saga da jibóia com leucismo. Afinal, que raio de obsessão estranha tem esses americanos com cobras, né?

Rafael Linden


12 comentários:

  1. Adorei o texto! Muito divertido. Encontrei por acaso, mas pretendo voltar aqui mais vezes.

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    1. Obrigado, Anônimo. Volte sempre, compartilhe com seus amigos!
      R

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  2. é esse cronista não tem leucismo :))) entendo perfeitamente o que é isso. Belo texto, BRAVO!!!

    Um beijo enviado da cidade-luz.

    CG

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  3. Olá Rafael, não é primeira vez que encontro seu blog através do geralinks, dessa vez não foi no site e sim e em um blog que exibia o link, mas em fim, isso é pra dizer o que quis dizer da outra vez (mas não disse porque essa coisa de comentário é muito burocrático - rsrs), você tem um talento sem igual pra argumentação, os seus textos empolgam e palavra por palavra a gente vai devorando os seus textos. Parabéns cara, você é incrível, virei fã!

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    1. Muito obrigado, Valter. E obrigado ao blog que divulgou o link!

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  4. Meu Deus, pra que querem cobras?!!! rs

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  5. Oi Rafa... Saudades! Andei sumida, ne?! Dei gargalhadas lendo sua cronica! Obrigada pelo presente! Foi uma otima maneira de fechar uma pesada semana de trabalho! Espero encontra-lo em breve para que juntos conjuminemos assuntos desconexos!!!! Bjks!

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    1. Marcinha, saudades de você também! Obrigado pela visita, e avise quando passar por estas bandas.
      Beijos
      R

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