sábado, 28 de dezembro de 2013

Carícia de mulher e paz nos estádios

          Queiramos ou não, um dos assuntos do momento é o pau que come solto nas arquibancadas da pátria amada. Para esclarecer de antemão, falamos de futebol. Apesar de briga entre torcidas organizadas não ser nenhuma novidade, a transmissão ao vivo e em cores da pancadaria que abrilhantou um sonolento jogo entre o Atlético Paranaense e o Vasco da Gama, realizado em Joinville no início de dezembro, causou comoção nacional e preocupa as autoridades esportivas. Pensando bem, isso não quer dizer nada, porque “autoridade preocupada” é o que não falta por aí sem consequência alguma, como demonstra a infalível repetição de nossas tragédias pluviais.
          No entanto, como estamos a menos de seis meses da próxima Copa do Mundo, as tais autoridades subitamente se deram conta de que torcidas organizadas às vezes se organizam mesmo é para torcer o pescoço dos outros. E tome entrevista coletiva, pronunciamento e mesa redonda com farto cardápio de indignações, interpretações sociológicas, culturais, políticas e psiquiátricas, apelos dramáticos e garantias de policiamento, identificação, proibição, cadeia e tudo o mais que, até parece, jamais nos ocorreu.
          Então, para não ficar de fora deste caloroso e, provavelmente, inócuo debate, vosso cronista predileto vem a público oferecer sua inestimável contribuição. Diretamente das cabines de imprensa, já instaladas no telhado para cobertura dos palpitantes eventos esportivos de que a nação será orgulhosa anfitriã, explicaremos a causa e informaremos a solução definitiva para a violência nos estádios, cujos protagonistas quase sempre são truculentos homens feitos que deviam ter ao menos um pingo de juízo.
          Em poucas palavras, a causa é falta de mulher e a solução é carinho feminino. E aí vai um pouco de Ciência por trás dessa inequívoca conclusão. Como se fosse de encomenda, esta semana foi publicado na revista científica Nature Neuroscience um artigo muito interessante sobre agressividade. Os autores do trabalho são Quan Yuan, Yuanquan Song, Chung-Hui Yang, Lily Yeh Jan e Yuh Nung Jan, os quais, é óbvio, são todos cientistas da…Universidade da California em San Francisco. Os chefes da equipe, o casal Lily e Yuh Jan, pesquisam há quarenta anos o desenvolvimento e a plasticidade do sistema nervoso, usando como modelo de estudo a mosquinha da banana – que atende pelo nome de Drosófila. Desta forma descobriram uma infinidade de características genéticas e funcionais que foram, ao longo dos anos, redescobertas ou comprovadas em outras espécies animais, inclusive em humanos.
          Não sei se o Doutor Yuh é vascaíno, mas o fato é que o grupo de pesquisa resolveu, agora, estudar a agressividade, um comportamento universal e importante para a sobrevivência individual e a organização social de grupos de animais, desde a aranha d’água – aquele bichinho que caminha na superfície de poças, também chamado de “inseto-Jesus” – até nós todos, inclusive o simpático casal que ora nos lê na tela do computador de rostinho colado e curiosidade aguçada. Ora, direis, mosquinha agressiva? Pois assim se espanta quem nunca viu dois machos de Drosófila a trocar socos e pontapés para resolver quem pega a fêmea que esvoaça faceira, fazendo visage e passando rasteira. E, entre outras características da mosquinha que a tornam um modelo riquíssimo para pesquisa genética, há métodos consagrados para quantificar vários de seus comportamentos. Ou seja, um observador treinado é capaz de dar notas para a agressividade e verificar se algum evento consegue diminui-la ou aumenta-la mais ou menos do que outro evento.
          Para começar, não foi surpresa que dois machos mostram-se mais agressivos um com o outro quando estão na presença de uma fêmea do que na ausência desta. Quando eles estão sós há escaramuças para definir territórios ou hierarquia, mas na presença de fêmeas há um fortíssimo componente de agressividade de causa sexual. Porém, o mais interessante foi o que aconteceu quando os pesquisadores deixaram machos em contato com fêmeas por 24 horas, antes de colocá-los na presença de outro macho e de outra fêmea. Os felizardos ficaram muito menos agressivos do que os que tinham passado o dia anterior solitários. E mais, os pesquisadores mostraram que essa diminuição da agressividade era provocada por substâncias que funcionam como atratores sexuais – chamados feromônios – que passam das fêmeas para os machos através de contato físico entre o casal de mosquinhas, não necessariamente durante a cópula e sim durante as “preliminares”. Sim, minha senhora, até mosquinha de banana pratica preliminares, pode contar para seu marido porque é mais ou menos assim mesmo. Ou seja, carícia de mosca fêmea diminui a agressividade do seu respectivo macho.
          O estudo é muito mais amplo, pois os cientistas fizeram ainda diversos experimentos genéticos, bioquímicos e funcionais até desvendar boa parte dos mecanismos envolvidos nesse efeito do contato físico entre machos e fêmeas. Mas não vou cansá-los com detalhes. Apenas ressaltamos que este trabalho mostra claramente o que fazer para diminuir a violência nas arquibancadas. Basta que namoradas, esposas, amantes ou quaisquer outras mulheres na vida dos torcedores fanáticos os acariciem antes que os mesmos partam para os estádios. Afinal, não foi à toa que, há novecentos anos, o poeta Omar Khayyam escreveu – ou a ele se atribui - ”os sábios não te ensinaram coisa alguma, mas a carícia dos longos cílios de uma mulher poderá revelar-te a felicidade”. As mosquinhas aprenderam. Há uma chance, embora remota, de que o cérebro dos trogloditas que protagonizam espetáculos dantescos como aquele de Joinville seja ao menos tão sofisticado quanto o de uma Drosófila, para que consigam aprender também. Se é que, em pleno século XXI, ainda há fêmeas dispostas a acariciar machos daquela espécie.

Rafael Linden



14 comentários:

  1. Meu caro Rafael,
    A ciência é maravilhosa, afinal nos confirma, depois de anos intermináveis de pesquisas chinesas na Califórnia e milhões de dólares investidos na empreitada, o que Adão e Eva (nem que seja metaforicamente) já tinham descoberto por pura carência afetiva. O que eles desconheciam naquele éden cinco estrelas, era a opção sexual de certos vândalos atuais, moda que (sem preconceito) só teve inicio, tempos depois (de forma velada e em família) com o nascimento de Caim e Abel.
    Forte abraço,
    Humberto Borges

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    1. Obrigado pelo comentário, caro Humberto. De fato, muitas descobertas são redescobertas. Precisamos, no entanto, considerar que o Doutor Yuh e seus colegas se limitaram a testar contatos físicos entre macho e fêmea. Mas há um cientista da Universidade de Illinois em Chicago, chamado David Featherstone, que demonstrou tentativas de cópula entre machos de Drosófila em certas circunstâncias, interpretando como comportamento homosexual.

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  2. Que tal sugerir uma cota de 50% de mulheres nos certames futebolísticos em nossos estádios? Politicamente e cientificamente correto?

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    1. Você está sugerindo que as carícias ocorram DURANTE os jogos?
      :-)

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  3. Puts!

    É cada coisa que se ver!!!!

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  4. Somente essas "torcidas" e o crime são organizado nesse país... nada mais!

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  5. Gostei do blog e os posts bem humorado. Aproveito e...

    Feliz 2014

    Abraço

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    1. Muito obrigado, volte sempre! Acabei de ver seu blog "Notas e notícias" e achei hilariantes as fotos das " promoções"...
      Abs
      R

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  6. É bem capaz da mulher ser esbagaçada, ao acariciar um homem bruto...
    Ótimo o texto, gostei.

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    1. Também acho, Vania. Obrigado pela mensagem
      R

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  7. Oi Rafael, tudo bom meu amigo?
    Só passei pra avisar que seus links estão sendo aceitos no novo agregador de links do Portal Teia, mas devido a falhas no script e interferência do servidor os links estão caindo no dia anterior quando eram pra cair no dia atual, já estamos trabalhando para encontrar o problema e peço sua compreensão quanto a isso, no começo é assim cheio de probleminhas, mas logo estaremos tudo normalizado.
    Obrigado pela força de sempre!

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