sábado, 14 de setembro de 2013

Um príncipe agradecido


          O telefone toca.
          - Casa Branca, em que posso ajudar?
          - Chama o Barack, é urgente.
          - Quem gostaria? (em inglês deve ser “Who would like it?”).
          - É Michelle, rápido que eu estou com uma pessoa no outro telefone e preciso dar uma resposta imediata.
          - Desculpe, senhora, mas este é o celular privativo da família. Eu só posso transferir ligações de...
          - É a Michelle Obama, O-ba-ma, entendeu, sua abestada? (não sei exatamente qual é o equivalente a “abestada” no idioma de Shakespeare)
***
          Esse tipo de coisa, naturalmente, ocorre a toda hora. Por exemplo, deu no jornal que o Príncipe Andrew, quinto na lista de sucessão ao trono da Grã-Bretanha, foi confundido com um intruso e abordado por agentes da Scotland Yard nos jardins do Palácio Real.
          - Ei, você aí, os documentos.
          - Quem, eu?
          - Você sim, engraçadinho, os documentos na mão, agora!
          - Deixei em casa.
          - Tu tá querendo levar um tabefe, ô mau elemento? Identifique-se!
          - Eu sou o Príncipe Andrew. (na língua de Harry Potter “I am Prince Andrew”)
          - Que Prince o cacete! Então canta aí “Chuva ácida”!
          - Ô Almeida, não é ácida, é púrpura. A canção se chama “Purple rain”.
          - Ih, Sargento, é mesmo, eu misturo essas coisas desde que o Al Gore passou por aqui. Canta aí, marginal, canta!
          - Cavalheiros, eu não sou cantor, sou o Príncipe Andrew, Duque de York, filho da Rainha Elizabeth.
          - Chiii, Almeida, o cara se parece com o príncipe.
          - Caraca! (em inglês “Cahrêica”). É mesmo, Sargento! Alteza, pelamordideus, me desculpe, é esse maldito sol na cabeça e, além do mais, anteontem um salafrário escalou o muro do palácio e quase entrou aqui, deu um trabalhão, ele gritava que queria pedir um emprego de pajem, nunca se sabe de onde vem as ameaças, né, Sua Alteza Re... Principal... Ducal... quer dizer...
          - Cala a boca, Almeida. Meu caro príncipe, queira perdoar nossa atitude desrespeitosa. Vossa Alteza receberá imediatamente um pedido oficial de desculpas da Scotland Yard.
          - Tudo bem, Sargento, já que é assim você se incomodaria de pedir ao Almeida para tirar o cano desta pistola da minha orelha e largar o meu pesoço para que eu consiga me levantar da grama? Assim, deitado de bruços, está me dando câimbra.
          Dias depois, segundo o jornal inglês The Guardian, o príncipe se disse “agradecido” pelas desculpas da polícia e acrescentou que eles têm um trabalho muito difícil. De fato, convenhamos que reconhecer um dos filhos da Rainha da Inglaterra nos jardins do Palácio de Buckingham não é nada fácil, mesmo para um agente encarregado da segurança da família real.
          Depois essa gente impaciente ainda reclama das telefonistas que, ciosas de seu difícil trabalho, sempre perguntam “Quem gostaria?” quando atendem alguém. Imaginem se um maluco qualquer, desses que se dizem príncipes da Inglaterra, consegue falar com o sub-secretário do assessor do vice-chefe do Serviço de Assistência ao Cliente de uma firma que vende aspiradores de pó pela Internet, transação essa de incalculável importância estratégica e envolta em tamanho sigilo que nem a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos consegue penetrar com seus poderosíssimos computadores espiões.
          Como diria o príncipe, muito agradecido por sinal, o preço da liberdade é a eterna vigilância.


Rafael Linden


8 comentários:

  1. Simplesmente sensacional...

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  2. “Purple rain” achei que fosse "raio" hsuhsuhsu

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    1. Pois é, o Almeida também se confundiu...
      :-)

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  3. Magnifico o texto... parabéns ao Rafael (Autor), adorei!

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  4. Respostas
    1. Obrigado, querida. Sou um blogueiro agradecido...
      :-)

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