sábado, 17 de agosto de 2013

Pequeno catálogo de torpezas


O grito
          “Corno!” O som ecoa pela igreja, bem na hora da troca de alianças. O pai do noivo, desarvorado, começa a gritar com a mulher: “Foi isso que você ensinou para ele? A ser corno? Igual a mim?!”
          O padre eleva a voz, mas o grito se repete: “corno!!”. Amigos do noivo retiram à força o homem, que continua a berrar: “agora é a tua vez de ser corno!! é a tua vez!!!”
          A platéia confabula: “…é o ex-noivo…não se conforma em perde-la…por que está às gargalhadas?…não parou de rir nem quando levou aquele soco na boca...”.
          O noivo chora convulsivamente: “o que foi que eu fiz? troquei de lugar com ele!”. A noiva, impávida, passa-lhe as mãos de leve pelos cabelos e pede calmamente: “pode continuar a cerimônia, reverendo”...

Uma nova manhã
          O jornal escorrega-lhe pela perna até pousar ao pé da cadeira. O homem contempla em silêncio a silhueta indistinta da mulher. Esta lhe dá as costas e seu olhar se perde no exterior emoldurado pelas pesadas cortinas da sala de estar. Em seu rosto, a luz do sol atinge uma única lágrima, que brilha congelada como se a humilhação tivesse perdido o ímpeto da véspera.

Fim de caso
          Trinta anos de um casamento perfeito. Ele, promotor público, prestes a ascender a um cargo importante. Ela, advogada da maior financeira da capital. Dois filhos maravilhosos. Salários astronômicos. E, um dia, o telefonema dando conta de que sua esposa está presa junto com os grandes estelionatários que ele vinha perseguindo há anos.
          Estão todos na sala, aguardando o juiz. Ele se levanta, calmo, dirige-se ao banco dos réus e descarrega o revolver sobre a mulher. Surpreende-se com a própria indiferença.

Negociação
          O Barriga foi o último a chegar, como sempre. Norival e Jamanta já tinham pedido a cerveja e a calabresa. O garçom deixou mais um copo na mesa e retirou-se rapidamente, trocando olhares significativos com o dono do bar. Ainda se lembravam da última vez e, caso contrário, lá estavam os buracos na pilastra como registro da pressa e da má pontaria. Fregueses de boa memória pagaram as contas e sumiram dali.
          O dono aboletou-se atrás de um barril de chope, à guisa de escudo. O garçom foi para a porta da rua, olhou as luzes das três favelas que cercavam o botequim, suspirou, fez o sinal da cruz e pensou na namorada.
          Depois de meia garrafa e duas fatias de amenidades, começou a conferência.         

Rafael Linden


10 comentários:

  1. As historias curtas são sempre impactantes e surpreendentes, além de convidar á reflexão.
    Como sempre, parabéns.
    Forte abraço
    Humberto Borges

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  2. é... do tácito dos minicontos, passando pelo impacto dos médios, à profusão dos longos... nesse telhado há um contista notável, dá mesmo vontade de sentar ali também :)

    Parabéns Rafael querido!!! Muito bom!!!

    Bises

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  3. Adoooorei.... bjosss!

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  4. Mattheus Castorino19 de agosto de 2013 13:00

    Sensacional a 'negociação'!

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  5. São todos ótimos textos, realmente... parabéns!

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