sábado, 13 de abril de 2013

Um microscópio, um livro e duas laranjas


          Meus numerosos leitores, e não tenho dedos que cheguem para contá-los, já se acostumaram com os títulos escalafobéticos que vez por outra assolam este modesto blog. E haja paciência para descobrir a intenção do cronista ao encabeçar seu mais recente delírio com tal disparate. Mesmo assim lá vai uma historinha que, eventualmente, explica o próprio título.
          Como sabem alguns, acreditam outros e duvidam muitos, o abaixo-assinado é, de profissão, cientista. E, por isso, escrevo estas linhas no avião de volta de Israel, onde participei de um simpósio no Instituto Weizmann de Ciência (usemos a sigla WIS, pela qual é mais conhecido por aí). São impressões de viagem, mas não vou aborrece-los mais que o necessário com minúcias, muito menos com a fieira de fotografias que as máquinas digitais oferecem sem culpa ou risco de extravio na loja de revelação.
          O simpósio é da série WIS-Brasil, a qual reúne cientistas de lá e de instituições brasileiras. O tema, desta vez, foi sinalização celular. Daqui fomos sete cientistas, sendo três mulheres e, do total, apenas três judeus. Tudo politicamente correto, para quem quer saber e quem não está nem aí.
          O WIS é um dos centros de pesquisa mais respeitados do planeta. Cientistas israelenses podem participar das competições por apoio financeiro oferecido pela Comunidade Européia - ou no que havia antes do continente se meter na atual enrrascada. Mas, dizia eu, uma evidência de que o WIS está entre as melhores instituições científicas é que Israel lidera o ranking dos ganhadores de financiamento europeu e o WIS leva a maior parte.
          O instituto fica no que se pode chamar de “campus dos sonhos de um professor da UFRJ”. Não porque minha egrégia alma mater, na mui pitoresca e aprazível ilha do Fundão, não seja uma maravilha arquitetônica, urbanística, ecológica, florestal e funcional, longe de mim semelhante isso…Mas porque, vejam só, o WIS é totalmente arborizado,  com espécies do mundo inteiro plantadas ao longo de suas ruas; os prédios são alcançáveis a pé de qualquer ponto do instituto e estão em excelente estado de conservação - não só os que acabaram de ser construídos, mas até o prédio no qual o químico Chaim Weizmann fundou, em 1934, o Instituto Daniel Sieff de Pesquisas, mais tarde rebatizado com seu nome; tem mosquito, mas não tem dengue! Pela área que ocupa, sua população é limitada a duas mil e quinhentas pessoas, das quais cerca de 300 cientistas senior, 250 técnicos, uns 1.200 estudantes de pós-graduação e pós-doutores e aproximadamente 800 profissionais de apoio.
          Chaim Weizmann era cidadão inglês e um dos líderes do sionismo, a doutrina do retorno dos judeus à região que hoje contém o Estado de Israel. Com talento para inovação, Weizmann inventou um método para obter acetona de bactérias, muito apreciado pelos seus compatriotas à época da primeira guerra mundial. Diz-se que a importância desta contribuição biotecnológica ao esforço de guerra foi a principal razão da chamada Declaração de Balfour, pela qual em 1917 a Inglaterra reservou, para os judeus, parte do protetorado que conquistariam dos turcos naquele conflito. Esta, pelo menos é a versão que ouvi de um cientista do próprio WIS. Foi a partir daí que se desenrolaram os fatos políticos que culminaram, em 1948, na fundação do Estado de Israel. E agora, muita atenção, pois não só o cronista que vos escreve não discutirá neste blog a política do Oriente Médio, como não abrigará tal debate, usando para isto seus poderes ditatorias sob o argumento plenamente democrático de que o blog é meu e ninguém tasca.
          Excluída a política, prossigamos com só mais alguns fatos e um mínimo de literatura. Chaim Weizmann acabou por se tornar o primeiro Presidente de Israel. Note-se que, no regime parlamentarista lá vigente, poderoso mesmo é o Primeiro-Ministro, enquanto a Presidência tem funções mais cerimoniais do que executivas. Mas o importante é que, enquanto a maior parte dos colonos judeus se instalou no campo e partiu para a agricultura, Weizmann tinha se decidido pela Ciência. Para isso, recrutou outros cientistas de vários lugares, inclusive de Israel.
E, assim, lá foram parar os irmãos Aharon e Ephraim Katzir. Aharon era especialista em química de polímeros, e Weizmann mandou construir para ele um novo prédio. E Ephraim, um biofísico, também acabou por ganhar para sua especialidade um prédio. Os três prédios estão lá, de pé, em excelente estado de conservação e em pleno uso, agora por outros departamentos do WIS. Aharon, tragicamente, foi morto em um atentado terrorista no Aeroporto de Tel Aviv. Ephraim, porém, foi eleito Presidente de Israel assim como Weizmann, ou seja, dois de um total de nove até agora. Por alguma razão lá eles apreciam muito os seus cientistas.
          E daí, pergunta o mesmo leitor de sempre, exasperado porque o cronista não chega onde devia chegar, isto é, no significado do título, do título, do tí-tu-lo! Novamente peço vênia, mas nesse caso justifico-me por estar em pleno voo, sem nada mais para fazer de útil, tá? Ainda assim, a “deixa” de que o título precisava era aquela mesmo. Dizia eu, os israelenses se orgulham dos seus cientistas que, há quase oitenta anos, se esforçam por produzir conhecimento e inovação lá mesmo.
          E, embora possa parecer outra coisa, esta crônica trata de orgulho. E foi inspirada no fato do WIS ficar em Rehovot, uma cidade no centro do país, a cerca de meia hora da ultramoderna Tel-Aviv, uma hora da milenar Jerusalém e quatro horas do extremo sul de Israel. Isso de carro, porque o país inteiro é do tamanho de Sergipe. Rehovot tem pouco mais de 100 mil habitantes, entre os quais uns 30 mil imigrantes. Desses, mais da metade veio da antiga União Soviética, o que explica os vários canais de TV a cabo em russo ou com legendas em alfabeto cirílico. A cidade abriga a Faculdade de Agricultura, Alimentos e Meio Ambiente da Universidade de Jerusalém e o Parque Tecnológico Tamar e sua principal avenida é ladeada por laranjeiras.
Há algumas décadas, era para participar da colheita das laranjas nos kibutzim (comunidades agrícolas) que muitos jovens judeus iam, pela primeira vez, a Israel. Os cítricos ainda são importantes na agricultura israelense apesar de, nos últimos anos, terem perdido o mercado internacional para a Espanha. Diga-se de passagem, a logomarca do WIS é uma laranjeira.
Rehovot se orgulha de ser, ao mesmo tempo, um polo irradiador de ciência, de educação e cultura e…de frutas cítricas. E, por essa razão, seu emblema tem os desenhos de um microscópio, um livro e duas laranjas. Alguns de vocês podem achar que perderam seu tempo lendo isso, mas eu considero admirável gente que desenha um emblema desses, de tanto que se orgulha de, numa região inóspita e vivendo há décadas em permanente estado de guerra, produzir uma parte significativa da melhor Ciência do planeta, venerar a educação, preservar e ampliar a cultura e ainda arrancar daquele solo aquelas laranjas e muitos outros produtos agrícolas que só muito suor e muito amor à natureza conseguem extrair das vizinhanças de dois desertos legítimos, com camelos, beduínos, tempestades de areia e talvez menos água do que choveu no Rio de Janeiro no mes passado.
Tomara que, algum dia, aqui no Brasil os motivos mais importantes de nosso orgulho nacional sejam semelhantes aos da cidade de Rehovot, a ponto de, mesmo que só em pensamento, tornarem-se o nosso emblema.

Rafael Linden






16 comentários:

  1. Excelente, Rafael. Quem sabe um dia...

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  2. E o nosso querido Fundão, no momento, está sendo mais deflorestado que outra coisa, né? Quanto ao resto da crônica, maravilhosa, as usual.

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    1. É a maravilha florestal em pleno progresso...
      Obrigado
      bjs
      R

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  3. Linda observação Rafael querido. Deve ter sido muito bom estar lá.
    Olhando para o Brasil, diante de fatos da atualidade surgem tantos "tomara"...
    Beijo grande
    CG

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    1. Tomara que alguns se realizem...
      Obrigado, beijos
      R

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  4. Que delícia de crônica! E que orguilho!!!!! Amei a frase "por alguma razão lá eles apreciam muito os seus cientistas..." A sua cara, Rafofo! Quem sabe esse comentário finalmente chega a vocÊ?

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    1. Chegou com tudo a que tem direito! Será que você ensina o caminho das pedras para meu confrade predileto?
      Obrigado pelo comentário, querida.
      Beijos
      Rafael

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  5. Foi uma das lembranças melhores que israel me deixou quando lá estive há muitos e muitos anos atras. Como eles conseguiram dar vida ao deserto. Combinar pedras com árvores e construir um instituto de pesquisa belissimo! Obrigada por me fazer sorrir mais uma vez Rafa!

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  6. Caro amigo, esse comentário talvez fuja ao assunto, mas creio que ainda não vi alguém usar tão bem pontuação. O seu texto fica perfeito e super insinuante, algo prazeroso e envolvente. Parabéns pela inenarrável arte.
    Abraço!

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    1. Muito obrigado, Lucas. Volte sempre!
      abraços
      Rafael

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  7. Rafael,
    Obrigada pelo texto fluente reunindo história da ciência, história geo-política e o nosso cotidiano universitário, qualquer que seja o estado brasileiro.
    Vera

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    1. Obrigado pelo comentário, Vera. Volte sempre,
      bjs
      R

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