domingo, 24 de março de 2013

A melhor idade


          Assunto espinhoso. Começa na infância, quando a criança é informada de que “quando crescer vai entender” isso ou aquilo. Numa dessas, o moleque não apenas se enfurece porque ainda não está na idade de ver respondida sua inocente pergunta “Vovô, o que é Viagra?”, mas fica ansioso porque não sabe quanto tempo terá de esperar. Muitos anos passam antes de merecer resposta. Um dia ele descobre sozinho e começa a torcer para o tempo andar bem devagar.
          Na outra ponta tem a senhorinha que “se acha” e veste um jeans paralisante, aquele que limita os movimentos abaixo da cintura de tal forma que a madame rebola como se estivesse numa competição de marcha atlética. A perua já dobrou o cabo da Boa Esperança e perdeu a noção do tempo. Acha que ainda é um broto – para quem tem menos de trinta anos, broto significa mulher jovem, no dicionário dos coroas. Bota a calça de manhã, quando ainda tem força suficiente para arrastá-la do tornozelo até a cintura e ejeta-se da cama como uma gangorra, caindo diretamente dentro das sandálias de salto 15, previamente dispostas de acordo com a planta desenhada por um engenheiro aeronáutico. Ao fim do dia, haja Hypoglós.
          No meio do caminho, é claro, encontra-se o bem sucedido profissional liberal que enfrenta galhardamente a crise da meia idade. Frequenta furtivamente uma barbearia nos fundos de um prédio decadente, no centro da cidade, onde entra disfarçado com óculos nariz e bigode postiços para pintar os cabelos grisalhos de preto “natural”. E sai de lá dissimulado, para enfim relaxar e trotar na calçada todo lampeiro, como se nada tivesse acontecido, sempre de olho no efeito que sua bela cabeleira fará nas jovens estagiárias que voam de um escritório para outro. Como resultado da má qualidade das tinturas, seu cabelo cai maciçamente e nosso amigo, em lugar de pintar o que sobra, acaba por comprar uma peruca que o deixa definitivamente com ar de caudilho centroamericano.
          E muitos outros tipos faceiros, que sofrem com a pouca idade ou com a chegada gloriosa da “melhor” idade – e bota eufemismo nisso. De minha parte, ao completar sessent’anos, exultei com a licença para, afinal, usar a fila dos idosos no banco superlotado, ou estacionar em vaga reservada no shopping idem. Só para constatar o que eu já suspeitava, ou seja: que a fila preferencial anda muito mais devagar do que a fila normal, porque idoso adora uma conversinha e, em meio ao tédio fulminante de seus afazeres diários, caixa de banco aproveita para se divertir com as histórias da velharada; e que, ora veja, de uma hora para outra toda a clientela do shopping fez sessent’anos e não há vaga de idoso que dê conta da galera da dor nas juntas.
          Para os leitores que estavam com saudade de crônicas cósmicas, esclareço que essa historinha sem graça foi motivada por mais um acontecimento científico de proporções astronômicas. Pois vejam que a Agência Espacial Européia divulgou há poucos dias, a última descoberta obtida com o Telescópio Planck, que passeia pelo espaço a um milhão e meio de quilômetros da Terra. Depois de mais de um ano de observações, os cientistas concluiram que o Universo é mais velho do que se pensava. Cinquenta milhões de anos mais velho! Ou seja, em lugar dos treze bilhões e setecentos e cinquenta milhões de anos que constavam na certidão de nascimento anterior, fornecida pela NASA em 1991, agora se acredita que o Universo tem treze bilhões e oitocentos milhões de anos de idade.
          O que, minha senhora? É uma titica de diferença? Só 0,3% a mais? Sua presteza nas contas é louvável e, admito, a diferença é muito pequena mesmo. Mas há duas considerações a fazer. Para começar, os novos números representam avanços importantes na compreensão da dinâmica dos corpos celestes. Só faz bem aumentar o entendimento destas coisas, quanto mais não seja porque, como tem sido amplamente divulgado, aqui mesmo na Terra volta e meia nos cai um meteorito ou nos passa raspando um asteróide.
          E, por último, mas não menos importante, se a estimada leitora acha que um pouquinho mais de idade não faz nenhuma diferença para o Universo, por que cargas d’água tanta gente faz questão de enganar os outros, ou a si mesmo, sobre a travessia dos 39 para os 40, sofre tanto com as ansiedades de chegar ou não aos 18 ou aos 60, ou apela para tecnologias cosméticas ou apetrechos de vestuário para fingir a idade que não tem?

Rafael Linden


15 comentários:

  1. É pertinente o comentário da sua leitora, caro Rafael. Dentro da metade da mesma década (Ou bilhão de década, sei lá!), qualquer alteração faz pouquíssima diferença. Pelo menos pra nós...

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  2. É... é tão quimérico quanto as tentativas de se aparentar a vida que não tem. Há falta de sensibilidade, simplicidade, gentileza... e para responder a ultima pergunta, creio que é porque muitos ainda não se deram conta da beleza que existe em apenas "ser", sem a necessidade de viver querendo "ter".

    Beijo grande! :)
    CG

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  3. Vidas vão, vidas vêm... e as dúvidas são sempre as mesmas... "vida louca, vida breve"!

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  4. Adorei: em relação ao Universo, eu me senti um bilionésimo mais jovem! Rs

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  5. Delícia Rafa :-))
    [x]Doris

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  6. Sem convite nem mostrar cartão..vou chegando e te lendo...e gostando do teu 'devaneio' pelas realidades de sessentão..que já sou há dois anos apenas. Agradável ver que as percepções quanto aos ditos privilégios dessa idade são comuns também a você..eu que me achava estranhamente inserido neste pessoal que merece fila especial e nela bate mais papo do que se apressa.
    Te ver falar em "broto" me consolou...noutro dia me vi "vaiado" por "forçar uma barra" e dizer que "me amarrei" em uma certa música. Ver minha "antiguidade" atestada me sacudiu e acordou..
    E Hipoglós...como alguém comentou aí antes...também é de me dar saudade da infância carioca e tijucana.
    Será que ainda existe ?
    Prazer...volto qualquer hora...já com novo nome...talvez Ricardo " Cariano" ( carioca que agora é baiano - de moradia,adoção e alegria)...sendo o mesmo Ricpreto que aparece até que me anime a aprender como mudar no Blogger.
    Abraço Cariano e até...

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