sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Lantejoulas


          Diz-se que a crônica é uma narrativa sobre o cotidiano. Assim espera-se, em geral, que a crônica de Natal seja seguida por outra de Ano Novo. É aí que mora o perigo. Pois, nessa época do ano, quando o cronista não está jiboiando nalgum hotel-fazenda, quase sempre está mofando na fila do supermercado ou esfalfando-se ao assar o peru e produzir a farofa, a uma temperatura ambiente que prova ser o aquecimento global um fenômeno concentrado em sua diminuta cozinha.
          Nestas circunstâncias torna-se difícil achar assuntos de Ano Novo que não resoluções a descumprir, Reveillon na praia, conflitos familiares explosivos à mesa farta ou a traquinagem do Zequinha, que arrancou a coxa da ave e bateu com ela na cabeça do irmãozinho menor. Para fugir do lugar comum e, assim, escapar do desdém dos escassos leitores que já curaram a ressaca e conseguem enxergar estas mal-traçadas linhas, aí vai a crônica de Ano Novo sobre...lantejoulas.
          É outra daquelas em que o embatucado cronista lança mão do último número da revista eletrônica do Smithsonian Institute e, a duras penas, eventualmente desemboca no cotidiano. Portanto, armai-vos de vossa proverbial paciência e, como se costuma dizer no início das sessões solenes da Academia Francesa, vamulá!
          Desta vez refiro-me a um artigo de Emily Spivack, editora de história da moda da Smithsonian. Ela narra brevemente a saga das lantejoulas a partir da descoberta da tumba de Tutancamon, na qual se encontrou um monte de disquinhos de ouro costurados nas vestimentas reais. Isso indicaria, segunda Spivack, que a invenção das lantejoulas teria sido, no mínimo, por volta do décimo quarto século antes de Cristo. No entanto, leio em outras fontes que lantejoulas de ouro foram também encontradas em escavações no Vale do Indo, no Paquistão, e datadas de cerca de vinte e cinco séculos antes da Era Cristã. Portanto, tais acessórios parecem ser ainda mais antigos do que pensa a jornalista.
          Spivack comenta que lantejoulas de ouro costuradas nas roupas poderiam ter vários significados: no caso das vestimentas do faraó, preparação para um outra vida; ou então uma forma de ostentar status e riqueza, um meio de manter preciosidades junto de si para evitar roubo ou, ainda, a confiança no brilho do metal precioso para afastar maus espíritos. Seja qual for o propósito das numerosas lantejoulas de Tutancamon, esses singelos disquinhos brilhantes, com um furinho no meio, acabaram por celebrizar-se como ornamentos de roupas. Talvez por prever tal sucesso, Leonardo da Vinci - ele mesmo - projetou uma máquina de fabricar lantejoulas, que consta de um de seus históricos desenhos no Codex Atlanticus, mantido na Veneranda Biblioteca Ambrosiana de Milão. Ninguém sabe se a engenhoca funcionaria, porque nunca foi construída. Mas é reconfortante imaginar que o grande Leonardo também se dava a uma fuleiragem de vez em quando...
          A articulista prossegue comentando o advento do uso decorativo das lantejoulas e, en passant, menciona o nome do empreendedor Herbert Lieberman, que fez fortuna nos Estados Unidos desenvolvendo progressivamente novos métodos de fabricação das pecinhas, incluindo o uso de gelatina em folha antes da segunda guerra mundial, bem como uma parceria temporária com a companhia Eastman Kodak para emprego de folhas de acetato, até chegar ao processo atual de fabricação em vinil.
          Como sói acontecer com a moda, ultimamente observa-se um retorno febril de paetês e lantejoulas como ornamento de roupas. Mas, para começo de conversa, navegando pela Internet cheguei ao site de uma agência de modelos, a qual ensina que paetê é uma lantejoula simplesinha, enquanto lantejoula é...paetê mais decoradinho. Vejam que maravilha! Já a onipresente Wikipedia reza que um tecido bordado com lantejoulas é...paetê (do francês pailleté). E por que essa transcendental polêmica intrigou o cronista? Porque, na minha infância, costumáva-se assistir pela televisão aos concursos de fantasias do carnaval, onde figuras antológicas como, por exemplo, o museólogo Clóvis Bornay, o figurinista Evandro de Castro Lima e a vedete Wilza Carla pontificavam nas categorias luxo ou originalidade com suas intrincadas vestimentas ricas em plumas e...paetês. E eu que, quando criança, achava que os tais paetês das fantasias de “luxo” eram pedras preciosas, aprendi mais uma nesta altura da vida.
          Mas, que diabo tem isso a ver com o Ano Novo, pergunta a gentil leitora à beira da exasperação. É que, na esteira do revival dos acessórios carnavalescos, o que mais aparece por aí é conselho para as madames capricharem nas lantejoulas em seus vestidos de festa, a começar pelo Reveillon, no qual acredita-se ser de bom tom brilhar intensamente. Lantejoula no vestido, lantejoula no sapato, lantejoula na bolsa, em todo lugar. Essa febre parece ter começado no ano passado e agora estende-se à decoração do próprio local da festa. Estamos em plena era da lantejoula que, a continuar assim, acabará por superar a crise financeira mundial como definidor da década.
          Mas há algo mais a ver com o Ano Novo. Roberto Rodrigues, em uma oficina na Estação das Letras, ensina que a crônica deve, sempre que possível, incluir alguma reflexão sobre aspectos sociais, psicológicos ou filosóficos da condição humana. Então, aí vão dois. Primeiro, concordo com Emily Spivack ser uma pena que o processo de fabricação de lantejoulas com gelatina não tenha sobrevivido. Pois, como lembra a estilista inglesa Christa Weil, “a ausência de lantejoulas conta histórias”, referindo-se a uma passagem de um livro que descreve marcas de mãos humanas impressas em vestidos de baile antigos, na forma de uma falha na cobertura das lantejoulas. Christa comenta que dificilmente se encontra modo mais romântico de arruinar um vestido. Já o descarado cronista abaixo-assinado, pensando no que costuma rolar em tantos Reveillons por aí, fica a imaginar os lugares onde se encontraria falhas na cobertura de lantejoulas de gelatina em vestidos contemporâneos.
          Por fim, ocorre-me que lantejoulas coloridas podem ser pregadas em qualquer pano barato e promover a ostentação de um falso luxo, tal como nos carnavais de outrora. Vistas de longe, lantejoulas metafóricas facilmente brilham na imagem de coisas e gentes que, no fundo, não passam de pano barato. Destarte, é preciso atenção aos ornamentos, nesta época de Ano Novo e a qualquer tempo em que tanta gente planeja, promete, jura e, com frequência, jamais cumpre grandes desígnios que se transformam afinal em pequenezas, as quais não passam da superfície e desaparecem facilmente ao toque das mãos mornas de quem quer que se aproxime.
          Portanto, Feliz Ano Novo!

Rafael Linden


10 comentários:

  1. Que leitura maravilhosa... parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Incrível como o autor consegue associar informação e arte (puramente) literária... Muito bom o texto, aliás, muito bom o blog... Um prato cheio pra quem curte e valorizar a arte da leitura.

    ResponderExcluir
  3. Adorei a sua crônica de Ano Novo! Tão leve e brilhante como as lantejoulas... Mas acho que paetê é diferente de lantejoula. Tinha a impressão que paetê eram tubinhos curtos de vidro, usados junto com as lantejoulas e as miçangas para enfeitar os vestidos elegantes usados em festas como reveillon e baile de 15 anos ( ainda existem???).
    bj
    Eliana

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu não sou especialista no assunto (...), as únicas definições que achei na Internet foram aquelas. Mas admito que minha cultura nesse assunto é superficial...
      :-)

      Excluir
  4. Olá Rafael,
    Sou fã dos textos escritos por você.
    O último parágrafo foi, como se dizia antigamente, uma bofetada com luva de pelica, ou melhor, de lantejoula na cara de muita gente que vive de aparências. Com destaque para "não passam da superfície e desaparecem facilmente ao toque das mãos mornas de quem quer que se aproxime." LINDO !!!
    JU

    ResponderExcluir
  5. Rafael querido, uma delicia de leitura como sempre!!! Feliz 2013!!!!!
    Beijo grande
    Carmem

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, querida. Um ótimo 2013 para você também, cheio de sucesso.
      Beijo
      Rafael

      Excluir

Seu comentário será respondido aqui mesmo neste blog.