sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

As neves do Rio de Janeiro


          Na manhã do dia 25 de dezembro de 2012, flocos branco finos cairam do céu sobre vários bairros do Centro e da Zona Sul do Rio de Janeiro. Dias depois, a Secretaria do Meio Ambiente, o Centro de Operações, o Corpo de Bombeiros, o Comando da Aeronáutica e os meteorologistas ainda não tinham conseguido explicar o fenômeno, nem identificar a composição da fuligem branca. Então, na placidez do telhado do qual tudo vejo e no qual tudo entendo, ofereço-vos a explicação definitiva do misterioso evento. É simples: no dia de Natal nevou sobre a classe média da Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro.
          Como, prezada leitora? A senhora nunca viu as imagens de Papai Noel todo encapotado, em cima de um trenó puxado por renas, deslizando na neve? O que há de errado com uma nevezinha na manhã do Natal, só porque à tarde os termômetros oficiais marcaram mais de quarenta graus, no bairro da Saúde, num dos dias mais quentes do ano nesta cidade que, dizem, é abençoada? Queira, por favor, ter um pouquinho de fé. Afinal, estamos entrando de mala e cuia no clube dos países importantes, encostando no primeiro mundo a pleno galope. E no primeiro mundo neva no Natal. Só não posso lhe mostrar a prova material porque neve derrete e fez muito calor à tarde.
          Certamente, depois de ler esta crônica – coisa que, como sabem, todo mundo faz -, as autoridades municipais mobilizarão todos os técnicos, engenheiros e cientistas que, porventura, não estiverem de férias fora do Rio de Janeiro neste longo recesso de fim de ano e, a duras penas, encontrarão uma outra explicação para os finos flocos brancos. Segundo a reportagem, o inesperado presente dos céus fez com que muitos cariocas, temerosos, fechassem as janelas e suassem em bicas dentro das casas hermeticamente fechadas para evitar a entrada da fuligem. Pois, de minha parte, seja qual for a explicação alternativa escolho a neve. Por uma razão simples. É mais poético do que, digamos, uma chuva de resíduos industriais altamente tóxicos. Ou não é?
          E fico com a neve, principalmente, pelo antecedente histórico que nenhum brasileiro deveria, jamais, esquecer: o filme “Bye bye Brasil”, de 1979, dirigido pelo genial cineasta Carlos “Cacá” Diegues. Para os extraterrestres que não sabem quem é esse cidadão, trata-se do criador de filmes extraordinários e premiadíssimos como, por exemplo, “A grande cidade”, “Quando o carnaval chegar”, “Xica da Silva”, “Deus é brasileiro” e meu favorito em toda sua obra: “Dias melhores virão”. O filme “Bye bye Brasil” retrata a saga de uma trupe mambembe que cruzou o Nordeste, a Amazônia e parte do Centro-Oeste do Brasil com a “Caravana Rolidei”, apresentando espetáculos para populações pobres das cidades ao longo das estradas, sempre atormentados pela concorrência da televisão, que ameaçava acabar com seu já escasso público. O elenco contava, entre outros, com José Wilker, Betty Faria, Fábio Junior e Zaira Zambelli. A película foi, na maior parte, rodada no município de Piranhas, em Alagoas, famoso por ter sido onde, em 1938, as cabeças de Virgulino Ferreira, o Lampião, e de vários cangaceiros de seu bando ficaram expostas na escadaria da Prefeitura, depois de mortos pela volante do tenente João Bezerra na fazenda Angicos, em Sergipe.
          É deste filme a cena antológica(*) em que o personagem Lorde Cigano, o mágico e líder da trupe interpretado por Wilker, anuncia que, naquele momento, realizará o sonho de todos os brasileiros: “- Eu, Lorde Cigano, guia das nuvens e do tempo, posso...tornar real o sonho de todos os brasileiros...eu posso fazer nevar no Brasil!”. Palavras cabalísticas fazem, então, uma chuva de flocos de algodão cair sobre o palco improvisado e a platéia. Ao som de “White Christmas”, de Irving Berlin, na voz de Bing Crosby, a audiência se diverte, extasiada, enquanto o prefeito da cidade, interpretado pelo ator alagoano Emannuel Cavalcanti, declara satisfeito: “- Tá nevando no sertão! Tá nevando na MINHA administração!”. Tem coisa mais Brasil do que isso?
          Por que cargas d’água não posso concluir que os flocos brancos, que caíram no Centro e em bairros de classe média da Zona Sul do Rio, são a neve que, comum no Sul do país, finalmente chegou ao Rio de Janeiro? Por que a estranheza? Trata-se, tão somente, de mais uma prova cabal da ascensão da classe média. E por que não nevou nos bairros mais chiques da cidade, como o Alto Leblon, ou em outros bairros afluentes do resto do país, como os Jardins em São Paulo, ou Boa Viagem em Recife? É simples, nesses casos a platéia está em Aspen, esquiando, e não precisa da neve local...
          Pois então, ficamos assim. Na manhã do Natal de 2012, nevou em alguns bairros do Rio de Janeiro e, à tarde, fez mais de quarenta graus no Centro da cidade. Para os poucos céticos que ainda restam bastará, creio eu, que ouçam a trilha sonora do filme, a canção “Bye bye Brasil”, de Chico Buarque, que, em certo momento, canta em alto e bom som: “Aqui tá quarenta e dois graus, o sol nunca mais vai se por...”, enquanto Lorde Cigano se prepara para fazer nevar no sertão de Alagoas.
          O Prefeito da cidade do Rio de Janeiro deve estar satisfeitíssimo com este espetacular resultado de sua administração.

Rafael Linden




10 comentários:

  1. Pois é, Rafael, a neve não derreteu, mas nós ainda estamos derretendo, não mesmo? Rsrsrs
    Que delícia! O lirismo bucólico predominando em seu texto de espírito natalino.
    Não querendo jogar gelo na sua constatação poética e, acreditando que você já deve saber, parece que estão tentando explicar as cinzas, associando-as a uma nuvem do vulcão chileno.

    Confira:

    http://www.apolo11.com/vulcoes.php?titulo=Video_Veja_como_a_nuvem_do_vulcao_chileno_chegou_ate_o_Brasil&posic=dat_20121227-090858.inc

    Mas como eles também não têm certeza, vamos continuar acreditando que nevou no Natal de 2012, aqui Rio de Janeiro, fim do 1º mandato da atual administração. Ficando a esperança que no seu 2º mandato, o nosso alcaide dê um jeito de arrumar neve o suficiente para a confecção de boneco de neve.

    Seja muito feliz em 2013! E que o mundo brinde com tudo aquilo que você merece e precisa.

    Um abraço apertado. Marluci

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    1. Vulcão ou não, eu fico com a neve mesmo...
      Obrigado, querida. Tudo de bom e do melhor para você também.
      bjs
      Rafael

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  2. Oi Rafael,

    Adorei o texto e concordo com você, vamos ficar com a teoria dos flocos de neve. Afinal, conforme o filme em cartaz que fui assistir com meu sobrinho, "A origem dos guardiões", acreditar é tudo!
    Desejo um grande 2013 e continue inspirado para nos brindar com seus maravilhosos textos.
    Grande beijo,

    Penha Cristina Barradas

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    1. Cris, obrigado.
      Tudo de bom também para você e todos os seus.
      beijos
      Rafael

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  3. Sábias palavras de conhecimento e extrema arte de se expressar como raros...

    Abraço!

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    1. Obrigado pelo incentivo. Volte sempre.
      abraços
      Rafael

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  4. Oi Rafael,
    Muito boa a crônica!! Acredite se quiser, acabei de "descobrir" o blog. Tudo de bom em 2013, muitas crônicas e um grande abraço!!!

    Rafael Erlich

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    1. Oi xará, há quanto tempo! Obrigado pela visita, mande um email de vez em quando contando as novidades!
      abraço grande
      Rafael

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  5. Adorei Rafael, como o Brasil não existe mesmo! Está além da imaginação.
    beijo
    Maga
    (estou enterrada sob mais de 1m de neve aqui no Canadá e morrendo de inveja do Rio 40 graus)

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    1. Oi Maga, saudades de você! Quanto ao clima, eu daria tudo por um meio termo entre o frio de Montreal e o calor insano que faz aqui no Rio.
      beijos
      Rafael

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