segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O cachorro e a roupa lavada

          Sabe aquela historinha da criança que perguntou à mãe por que, em vez de ter um trabalhão para dar banho no cãozinho e ainda levar uma chuva de respingos, não botava o bicho na máquina de lavar? Pois, cientistas do Instituto Tecnológico da Georgia, nos EUA, filmaram com câmeras de alta velocidade vários bichos peludos, incluindo cinco raças diferentes de cachorros e concluiram que esses animais, assim como camundongos ou ursos, são capazes de se livrar de setenta por cento da água em uma fração de segundo, com aquelas sacudidelas que eles dão quando encharcados.
          Os pesquisadores lembram que esta secagem rápida é essencial para evitar o resfriamento súbito do corpo em lugares frios, coisa que acontece com frequência a animais em seu ambiente natural. Recorrem ao exemplo de que qualquer um de nós, ao sair de uma banheira, do mar ou da piscina, carrega consigo cerca de meio litro de água. Já um rato leva o que, num ser humano, é equivalente a três ou quatro litros e uma formiga carrega o que equivaleria, nos nossos ombros, a mais de duzentos litros de água. Enquanto o líquido está na superfície do corpo do animal ele perde calor e, em lugares mais frios, se arrisca a sofrer hipotermia, que pode ser fatal. Isto, concluem os especialistas, explica porque foram bem sucedidos os mecanismos de secagem rápida que evoluiram e persistiram nos animais modernos. Tais como, acrescentaria eu, a toalha felpuda da gentil leitora que, pelo amor de Deus, de forma alguma deve se ofender ao ser arrolada, apenas a título de exemplo, junto com cachorros e ursos nesta prosaica crônica.
          Sempre atentos às possibilidades de beliscar a sabedoria da natureza, os cientistas, agora, estão estudando detalhadamente os movimentos do corpo, da pele e dos pelos dos, com perdão da palavra, cachorros molhados, para entender as razões de tamanha eficiência e, assim, encontrar maneiras de aplicar os mesmos princípios a situações que vão desde máquinas de lavar e secar, até veículos espaciais. Esses últimos podem ser prejudicados, não por água, mas pela poeira que neles se deposite, como aconteceu, por exemplo, no pouso em Marte do laboratório móvel Curiosity, o qual está funcionando com uma certa perda de energia devida ao pó que se acumulou nos painéis de captação de energia solar. Seria ótimo se os painéis pudessem se livrar, eficientemente, desta poeira com umas poucas sacudidelas.
          Mas quem realmente ficou feliz com esta descoberta foi a doceira da padaria aqui da rua. Quando soube desta história, seus olhos brilharam e ela disse que, até que enfim, descobriu a resposta para a dúvida que atormentava sua família há anos. Por que, sempre que terminava de pendurar a roupa lavada dela, do marido e dos oito filhos para, pelas próximas horas, secar (a roupa, não a família) no varal que fica no quintal de sua casa em Cordovil, seu cãozinho de estimação ficava por ali latindo por alguns minutos antes de voltar para dentro de casa? Sem pestanejar, ligou para casa e comunicou ao marido.
          - Benhê, descobri. O cachorro está cantando um trecho daquele samba-canção do Lupicínio Rodrigues, que diz “ah, se soubessem o que eu sei...”

Rafael Linden


4 comentários:

  1. raining cats & dogs: uns se livram rápido de líquido (dogs) e outros se abastecem rapidamente de líquido (cats).

    http://news.sciencemag.org/sciencenow/2010/11/cats-tongues-employ-tricky-physi.html

    http://www.wired.com/wiredscience/2010/11/cats-lapping/

    -Mauricio Trambaioli

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    1. Bem lembrado. Acho que não havia gatos no estudo do pessoal da Georgia Tech...
      :-)

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  2. Shirley Tenenbaum da Silva2 de setembro de 2012 11:05

    Adorei!!!!

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