sexta-feira, 10 de junho de 2016

Buraco negro tem cabelo macio

          E lá vai a gentil leitora aos trambolhões, com o chinelo na mão atrás do Juquinha, ainda que esse jure de pés juntos que se trata de uma descoberta científica e não uma grosseria escatológica. Caso contrário ele não teria dito alegremente esta frase para a avó, que ipso facto jaz desmaiada no sofá. Pasmem, o guri pode ser um belo dum canalha, mas desta vez não tem culpa. É isso mesmo. Homessa! Como foi que esta pérola entrou para os…registros – registros, sim, melhor do que a alternativa – da Ciência contemporânea?
          Trata-se, mais uma vez, da velha e boa Física. Um “buraco negro” – black hole na língua do quatrocentão Shakespeare – é um corpo celeste no qual a força da gravidade é tão grande que suga para dentro de si tudo o que existe ao seu redor, inclusive a luz. Por isso não pode ser visualizado, e só se consegue detectá-lo pelos efeitos esdrúxulos que exerce sobre qualquer coisa na vizinhança, por exemplo uma estrela. Esse conceito é estudado por físicos teóricos através de modelos matemáticos complexíssimos.
          A obssessão capilar nesse campo de pesquisa começou na década de 1970, quando o físico norteamericano John Wheeler escreveu, em um artigo publicado na revista Physics Today, que “buracos negros não têm cabelo”. Ele queria dizer que esses corpos celestes tinham características muito bem definidas, determinadas simplesmente pela sua massa, pelo chamado “momento angular total” - uma característica do movimento – e, talvez, também pela sua carga elétrica. Todas essas propriedades são intrínsecas ao buraco negro, ao contrário do “cabelo”, que seria visível como o elegantíssimo penteado da gentil leitora, mesmo descabelada pela perseguição ao inocente Juquinha.
          Nem todo mundo concordava com essa idéia. De cara, a frase de Wheeler foi considerada obscena pelo genial físico Richard Feynman que, entre outras coisas, passou duas temporadas trabalhando e dando aulas no Brasil e aprendeu a batucar na frigideira na bateria de uma Escola de Samba. Mais importante, uma galera de pesquisadores da área saiu mundo afora procurando cabelo, não em ovo, mas em buracos negros. E não é que acharam? Entre eles, dois cientistas da Universidade de Aveiro, em Portugal, que em 2014 publicaram um artigo na prestigiosa revista Physical Review Letters, intitulado literalmente “Buracos negros de Kerr com cabelo escalar”, referindo-se aos trabalhos do eminente cientista neozelandês Roy Kerr. Não é surpresa que tamanha informalidade, de certa forma, acabe dando origem à inocência com que o Juquinha passou a comentar essas coisas com a própria avó. É a mesma candidez com que os editores da revista Superinteressante, em Portugal, celebraram maliciosamente a descoberta de seus compatriotas com uma reportagem intitulada “Cientistas portugueses defendem que buracos negros têm cabelo”.
          E o que vem a ser cabelo de buraco negro? O apelido representa propriedades inéditas de certos tipos de buracos negros diferentes daqueles que foram propostos ao longo das últimas décadas. A teoria é complicada pra chuchu, mas poderá vir a ser comprovada, ou não, no futuro com novas observações do comportamento de estrelas ou gases nas vizinhanças de buracos negros. Esse campo, é claro, tem também o dedo do notório cientista Stephen Hawking. Ele havia, há algum tempo, proposto que a evaporação de buracos negros era capaz de destruir informação. Como se não bastasse tudo o mais, buracos negros poderiam evaporar sem deixar vestígios! Entretanto, recentemente Hawking e dois outros cientistas publicaram, também na Physical Review Letters, um novo artigo em que reavaliam suas premissas e, agora, apresentam indícios do que chamam de “cabelo macio”, componentes que podem conter a informação que supostamente seria perdida quando um buraco negro evaporasse.  
          A proposta de sumiço de informação era um escândalo por ser incompatível com leis da Física Quântica.  Leitores de todos os cantos do planeta murmuram que não é nada demais comparado ao que certos políticos, empresários e outros potentados de países que não convém nomear fazem, ou tentam fazer, com outras tantas leis. Mas os cálculos novos parecem explicar melhor os buracos negros e – ufa! – aproximam-se de um conjunto de conhecimento mais coerente, sem violações de leis fundamentais da Física. Ou seja, foi mesmo o progresso da Ciência que levou o Juquinha a se encantar com a descoberta de que buraco negro tem cabelo macio, tal qual as longas e ondulantes madeixas de nossa mais gentil leitora, que ajudam nosso Universo a ficar mais belo.
          Tá certo? Então, alguém aí poderia, por favor, trazer para a avó do Juquinha uma aguinha com açúcar e explicar essa coisa toda para a respeitável senhorinha?

Rafael Linden



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