sábado, 13 de fevereiro de 2016

O caminho das pedras

          O Novo Testamento contém uma passagem em que Jesus é visto caminhando sobre as águas do Mar da Galiléia. Se, por um lado, a doutrina cristã se refere a este episódio como um milagre que atesta a importância da fé, por outro a rapaziada, com seu inefável espírito de porco, inventou a piada em que Cristo exorta São Pedro a ensinar o caminho das pedras para um incauto que se afogava ao tentar semelhante aventura.
          À parte tanto a religião quanto a pilhéria, certos insetos não apenas caminham sobre a água, como conseguem escapar de predadores aos pulos como se tomassem impulso sobre um chão de pedras. Tal proeza é típica da família dos Gerrídeos, dos quais faz parte um simpático frequentador de rios e poças, conhecido pelo nome de aranha d’água ou, por motivos óbvios, inseto-Jesus. Para caminhar sobre a água, esses bichinhos se valem de uma propriedade da interface entre água e ar, chamada tensão superficial. Isso se deve à atração mais intensa entre moléculas no estado líquido do que entre essas e o ar, assim criando na superfície da água um comportamento semelhante a uma membrana elástica. Em consequência, os minúsculos e relativamente leves Gerrídeos podem flutuar e se movimentar na superfície da água sem muito esforço.
          Ao longe ouvimos o rabugento vociferar contra a dedicação de nosso precioso tempo às proezas malabarísticas de insetos quando, em se tratando de água doce, nossa única preocupação deveria ser o mosquito transmissor de dengue, chikungunya e zika. Para aquele leitor, só nos resta asseverar que, ainda agorinha, confirmamos não haver uma só gota de água parada exposta ao ambiente em nossa residência, a qual pudesse servir de criadouro para larvas de Aedes. Outrossim, a presença dos Gerrídeos na crônica se deve tão-somente à inspiração que ofereceram para o desenvolvimento de uma nova ferramenta de robótica.
          Engenhocas inteligentes não são novidade, e volta e meia aparece na televisão um robozinho capaz de coisas surpreendentes. A idéia de usar a tensão superficial para ajudar maquininhas a caminhar sobre a água também não é nova, e já foi materializada há mais de uma década. Mas nenhum microrobô era capaz de pular na água. Pois cientistas dos departamentos de robótica e de mecânica de fluidos da Universidade Nacional de Seul, na Coréia do Sul, lideraram uma equipe internacional que conseguiu produzir um microrobô muito parecido com uma aranha d’água, o qual foi capaz de pular a partir da superfície de água, usando a tensão superficial como base principal desta habilidade. Um trabalho relatando esta história foi publicado em julho de 2015 na prestigiosa revista Science.
          A Física envolvida no estudo não é para amadores, e este vosso criado não se atreve a tentar explicá-la, bastando-lhe o trabalho que teve para entender o conteúdo do trabalho de forma superficial – sem trocadilho. Mas o bacana é que os cientistas, antes de mais nada, usaram câmeras de alta velocidade para registrar detalhadamente os movimentos das patinhas deste tipo de inseto ao pular na água, depois mediram e calcularam um monte de parâmetros mecânicos e, com isso tudo, construíram insetos artificiais, que conseguem pular na água de forma quase indistinguível de um inseto de verdade. Finalmente, encontraram uma solução para um problema complicado na área de robótica, que era uma barreira para o desenvolvimento de novas máquinas móveis mais eficientes.
          Aquele leitor – lembram? - continua ranheta e, desdenhoso, pergunta para que serve uma engenhoca dessas. Já não nos basta insetos que transmitem doenças, agora teremos de conviver com insetos artificiais “Made in Korea”, à venda nas boas casas do ramo, para que desocupados nos apoquentem com mais essa praga? Pois, com toda a pachorra que nos é característica, em respeito à gentil leitora que nos acompanha há tanto tempo, apressamo-nos a concluir que a aplicação da biologia como fundamento de engenharia avançada é um dos caminhos mais promissores para o desenvolvimento futuro de máquinas mais úteis. De fato, quando a robótica começou, pouca gente acreditava que, hoje em dia, tantos destes equipamentos já estariam em uso rotineiro na prospecção de petróleo, na montagem de artefatos industriais, na mecanização de experimentos de laboratório, no controle de cirurgias de difícil acesso, e até nos robôs aspiradores de pó que, tenho certeza, o rabugento bem gostaria de ter em casa para poupar-lhe a incômoda tarefa de levantar de sua poltrona reclinável, a fim de coletar as migalhas dos biscoitinhos que consome enquanto lê nossa coisinhas.


Rafael Linden




3 comentários:

  1. A maioria das coisas que é inventada tem pouca utilidade na hora exata da invenção (a não ser que se estivesse buscando a solução de problemas específicos) - depois, os princípios usados na invenção são transferidos para coisas "úteis" ou então a própria invenção, ao existir, cria um novo nicho de aplicação. Assim, o seu leitor ranheta não tem razão e a sua crônica é excelente, como de hábito.

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  2. boa noite amigo vir lher convidar para agrega links conosco http://www.vidavadia.com.br/

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