sábado, 10 de outubro de 2015

Sorriso maroto

          Em 1995, na sexta temporada da série “Os Simpsons”, Homer arrumou um jeito de animar festas infantis como substituto de um palhaço endividado com a Máfia. Nesse enredo rocambolesco o autor do episódio, John Swartzwelder, colocou na boca de Simpson a frase “quando eu vejo o sorriso naquelas carinhas pequeninas, sei que eles vão me aprontar alguma…”.  Mundo afora, milhares de mamães, papais, vovós e vovôs estão convictos de que uma frase dessas só poderia sair de um personagem abjeto, típico de uma família disfuncional. Essa não, quem duvidaria da pureza do sorriso de uma criança? E que dizer de um bebê de dois ou três meses de idade que, pela primeira vez, sorri genuinamente para a mãe, ah, tem coisa no mundo mais inocente, mais desinteressada, mais bela, maich-cutchi-cutchi-du-qui-iiischooo??? Não, não tem. Porém…
          De início comunicamos ao distinto público que este cronista se derrete todo quando a neta lhe sorri. Ainda que pareça, o abaixo assinado não é um ogro, tá bom? Mas a Ciência é implacável e um artigo científico, publicado na revista PloS One, trouxe evidências de que o sorriso do bebê está longe de ser inocente. O trabalho é assinado por três pesquisadores que combinaram suas respectivas proficiências em Psicologia, Engenharia e Robótica. Não, minha senhora, não sei se eles tem filhos e netos. Não vem ao caso e, a propósito, reiteramos que este blogue jamais se prestaria a desmoralizar bebês indefesos, muito menos a refutar as opiniões totalmente isentas de seus progenitores e demais familiares, afinal nossos filhos e filhas, netos e netas sempre serão, indubitavelmente, os bebês mais lindos, mais inteligentes, maich-cutchi-cutchi…
          Bem o sabemos. Mas vamos aos fatos.
          O estudo foi liderado por Javier Movellan, da Universidade da California em San Diego, um especialista em máquinas “inteligentes”, engenhocas capazes de decodificar sinais do ambiente de forma análoga aos seres humanos. Entre outras façanhas, aquele cientista foi responsável por orientar a construção de um robô com cara de criança, chamado “Diego-San”, capaz de responder a ações humanas com expressões faciais variadas. Isso mesmo, madame, inclusive com um doce e inocente sorriso. O Doutor Movellan recrutou seu ex-aluno Paul Ruvolo e o psicólogo Daniel Messinger, da Universidade de Miami, e juntos testaram hipóteses sobre a meta, ou propósito, da interação entre o sorriso de bebês de um a quatro meses de idade e suas respectivas mães.
          Novamente, o leitor rabugento larga seu picolé no cinzeiro e bufa “lá vem esse…querendo atribuir maldades a um bebezinho…”. Esclarecemos, porém, que “meta”, no caso, se refere ao conceito de goal na chamada Teoria de Controle, uma interdisciplina de bases matemáticas destinada a definir o que é necessário para um sistema dinâmico (por exemplo, uma máquina complexa) reagir a condições externas para sempre produzir um resultado pré-fixado. Por exemplo, pergunte-se “o que é necessário para controlar a órbita de um satélite de comunicações?”. A meta é manter o satelite em órbita estável e para isso é preciso um conjunto de engenhocas e procedimentos, que constituem o chamado “controlador” do sistema. O mais importante é que a Teoria de Controle não atribui uma “intenção” ou uma “consciência” ao controlador, pelo contrário, serve para abstrair do problema concreto sua base teórica. Por isso esta teoria é aplicada não apenas na Engenharia, mas em Ciências Sociais, Psicologia e outras áreas do conhecimento.
          Na origem o comportamento esperado do sistema sob análise era pré-determinado (por exemplo, transmitir a malfadada Copa do Mundo do Brasil para outros países), coisa essa que determinava a meta do controlador (por exemplo, codificar sinais de televisão e encaminhá-los sem ruídos ao satélite, chova ou faça sol). Mas a Teoria de Controle pode ser invertida, visando entender o controlador a partir do comportamento observado quando o sistema está funcionando - por exemplo, inferir o que acontece no centro de midia a partir da observação de que países receberam imagens distorcidas.
          Então, os cientistas usaram essa teoria para identificar a meta da mãe ao sorrir para o seu bebê e, vice-versa, a meta do bebê ao sorrir para a mãe. Vixe, daqui dá para ver o leitor rabugento espumando de raiva e atirando sua caipirinha na tela do computador, que só não quebrou porque o copo era de plástico. Componha-se, homem, que ainda não acabamos! Eles analisaram detalhadamente os momentos em que o bebê e sua mãe começavam a sorrir e a duração de cada sorriso, e compararam os resultados com hipóteses acerca da meta do sistema em cada caso. Concluiram que, no caso da mãe sorrir primeiro, a meta mais provável era levá-los ambos (mãe e bebê) a sorrirem. Já no caso do bebê sorrir primeiro, a meta mais provável foi apenas da mãe sorrir. De modo geral, quando o bebê iniciava a interação, desmanchava o sorriso assim que a mãe respondia com outro sorriso.
          Durma-se com um barulho desses! Pois não é que o sorriso puro e inocente do bebê tem uma agenda? Mas vejam bem, nunca é demais repetir que a Teoria de Controle não atribui intenção, apenas concatena fragmentos de um sistema em uma lógica funcional. Assim também Javier Movellan e seus colegas, embora considerem a possibilidade do bebê estar ajustado a sorrir para obter um sinal de afiliação, abstiveram-se de lhe atribuir qualquer intenção consciente. Por outro lado, o estudo sugere que sorriso puro e inocente mesmo é o da mãe, essa sim, operadora de um controlador que tem como meta compartilhar o sorriso com seu bebê.
          E é aí que entra Diego-San – lembram do robozinho? Pois os pesquisadores recrutaram estudantes da Universidade da California para avaliar suas interações com o robô, quando este e a estudante sorriam juntos ou separados. Constataram que sorrisos simultâneos levaram as estudantes a avaliarem a interação de forma mais positiva do que quando apenas um dos dois sorria. Exatamente o que foi previsto pelos resultados da interação entre mãe e bebê de verdade, no caso da mãe sorrir primeiro.
          E agora, gente? Como fica nossa crença na inocência do sorriso de um bebezinho nos braços da mãe? Se os pequeninos, ainda que inconscientemente, já exploram a boa fé da própria mãe, o que dizer dos sorrisos marotos dirigidos ao pai, avó e avô, ao tio, tia, primo, ai, ai, ai, então Homer Simpson tinha razão?
          Querem saber? Desliguem o computador e olhem bem para a carinha dos bebês mais próximos. Se eles sorrirem, aproveitem o momento. Antes que alguém demonstre cientificamente que, além de tudo, eles sabem perfeitamente o que estão a fazer conosco…

Rafael Linden



8 comentários:

  1. Esses estudos... Enfim, quem sou eu para discordar?

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    1. Pelo contrário, discordar é fundamento da Ciência!
      abs
      R

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  2. Gostei bastante.
    Ana Maria

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  3. Muito bom... aliás, o blog inteiro é repleto de textos excelentes. Sempre me deparo com um link pra esse blog e acho incrível... dessa vez resolvi comentar, eu precisava dizer isso ha ha (mesmo sendo burocrático demais essa coisa de comentar em blog =D )
    Abraço e parabéns pela incrível arte!

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