domingo, 21 de setembro de 2014

Sim, senhora, daqui a cem anos

     Vejo nos olhos marejados da gentil leitora a emoção de reencontrar este humilde cronista, depois de quatro interminávei semanas. Vossa fênix ressurge incólume das cinzas de um mês atulhado de compromissos inadiáveis, para deleite dos fãs e, é claro, para o inevitável muxoxo do notório resmungão que nos persegue desde sempre. Estavam com saudades? Aguardavam ansiosos a última insanidade a ganhar a nuvem, diretamente do borbulhante e desconexo cérebro deste que vos escreve? Podia ser pior, acreditem. Imaginem-se a descobrir que o próximo livro de seu escritor predileto – escritor mesmo, não eu – estará à sua disposição apenas em 2114. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     Ha, ha, coisa nenhuma. Pois em agosto de 2014, Katie Paterson, uma artista escocesa residente em Berlim, deu a largada para seu projeto que consiste em, a cada ano, encomendar um livro inédito a um escritor de renome, até um total de cem escritores. Parece uma mera proposta editorial que, eventualmente, será assumida sucessivamente por empresários mais jovens ou pelos descendentes da moça. Mas não, isso seria trivial. O busílis – lembram do busílis? - é que esses livros serão trancafiados num espaço especialmente reservado em uma biblioteca pública na Noruega, onde ficarão expostos, fechadinhos e proibidos para leitura até 2114, quando finalmente serão liberados para os leitores. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     Livros que só serão lidos daqui a cem anos, artista nascida na Escócia, residente na Alemanha, projeto na Noruega. Viram no que deu a União Européia? Coisa de doido, né? De cara, há quem diga que em pouco tempo os espertofones, tabletes, realidades virtuais e o escambau eletrônico tornarão obsoletos não só o livro, mas qualquer coisa escrita em papel. Já outros lamentam o crescente desinteresse da galera pela respectiva língua pátria a começar pelas vogais, ao que parece condenadas ao ostracismo – por falar nisso, vcs td blz? Sem falar numa frase que não existia há algumas décadas e se tornou comum na mudernidade – pô, cara, não tenho tempo pra nada, não leio um livro desde que entrei na faculdade! Apresso-me a esclarecer que os compromissos inadiáveis que mantiveram o cronista nas sombras por um mês incluiam, principalmente, escrever projetos. Na língua pátria. E, raios me partam, com versão em inglês também.
     Mas, voltando ao que interessa: sim, senhora, daqui a cem anos. Coisa de doido. Ou não?
     Pois a escocesa, que é muito conceituada por seus projetos visuais meio esquisitos para o meu gosto pessoal, conquistou como primeira escritora de seu ambicioso projeto nada menos do que Margaret Atwood, uma canadense que, aos 75 anos de idade, já escreveu dezenas de livros, ganhou mais de 55 prêmios - entre os quais o Booker Prize, um dos mais prestigiosos da literatura mundial - e foi homenageada por dezenas de universidades, incluindo Harvard. Como se não bastasse, Margaret inventou uma engenhoca robótica para que um autor possa autografar livros e conversar via tabletes com leitores à distância. Há controvérsias sobre essa invenção, mas não se pode acusar a escritora de saudosismo ou tecnofobia. Ainda assim, em lugar de arquivar seu livro na nuvem, ela fez questão de comprar papel especial de arquivo para que seus originais não deteriorem com o tempo.
     A esta altura, o leitor rabugento resmunga que não apenas é coisa de doido, mas a loucura atravessou o Oceano Atlântico. Será?
     Aqui no telhado, por princípio não posso me dar ao luxo de estigmatizar coisa alguma. Então, pensando bem, esse projeto é muito simpático. Minha própria carreira como cientista sempre foi voltada para pesquisa fundamental, aquela que contribui para o conhecimento e não tem prazo para virar um produto. Na história da Ciência, dessa categoria de pesquisa saiu muito que não valia nada ou foi provado falso ao longo do tempo. Mas também inúmeros conceitos formulados há décadas, séculos, são válidos ainda hoje e o serão até prova em contrário. Da mesma forma, ao contrário do festival de porcarias de consumo imediato que empesteia as livrarias modernas e mal dá espaço para a literatura verdadeira, obras escritas há décadas, séculos e milênios ainda hoje são lidas, admiradas ou veneradas. Portanto, não há nada estranho na previsão de um público para os exemplares do projeto, que ganhou o título de “biblioteca do futuro”.
     O filósofo George Santayana dizia que “quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo”. De fato, depois de tanto tempo de civilização, é cada dia mais difícil inventar algo de novo e quem aspira à originalidade precisa conhecer o legado de seus antecessores. De outra forma, como saber se o que sai de sua cabeça ou de suas mãos é de fato original? Ainda cética, pergunta-se então a gentil leitora, se não é um contrasenso encomendar e guardar livros em papel, sem saber se serão lidos, em plena era da proteção das árvores do planeta. Nisso a escocesa pensou, e para produzir o papel a ser usado na antologia estão sendo plantadas mil árvores em um bosque nas cercanias de Oslo. O resmungão pergunta “e a tinta?”. Não sei.
     E se de fato até lá se concretizar a profecia do fim dos livros em papel – na qual, entristecido e preventivamente nostálgico, lamento acreditar -, o que será do projeto? Há pouco tempo, a voz de Thomas Edison, gravada no fonógrafo que ele inventou em 1878 foi recuperada por cientistas norte-americanos. Não resta dúvida de que, em 2114, haverá tecnologia suficiente para transpor os textos deste projeto para qualquer meio que venha a substituir o que será então “aquela tralha obsoleta de espertofones, tabletes e computadores de outrora, que estão expostos no museu que fica perto da casa do Zé naquele asteróidezinho”. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     O mais interessante neste projeto é exatamente o mistério insondável. Por mais que autores como Margaret Atwood e outros luminares que venham a ser convidados para escrever seus livros tenham seguidores fiéis, gente que leu todos os seus livros, é intrigante imaginar o conteúdo desta coleção. Esse mistério é muito peculiar, porque é provável que nenhum de nós, escritor e leitores deste blogue, leremos esta antologia. Bem, sabe-se lá...Seja como for, isso já justifica que se chame a “biblioteca do futuro” de um projeto de arte, e não apenas uma empreitada editorial.
     No filme que Margaret Atwood gravou sobre o projeto, e justificando que o contrato obviamente impede a divulgação de qualquer informação sobre o conteúdo de sua obra, a escritora comentou, candidamente: “É muito otimismo acreditar que, daqui a cem anos, haverá pessoas, que estas pessoas ainda lerão, que estas pessoas estarão interessadas em abrir as caixas e ler os livros, e que nós escritores serermos capazes de nos comunicar com estas pessoas”.
     Sim, senhora, daqui a cem anos. A pergunta que não quer calar é se, do jeito que andam as coisas, ainda haverá pessoas. Mas, cá para nós, a aventura humana e as habilidades que nossa espécie desenvolve ao longo de sua história só tem valor quando miram o futuro.

Rafael Linden



12 comentários:

  1. Estava com saudades Rafael. Mas sei bem que a ausência era por uma boa causa. Continue escrevendo por aqui. Abraço, Luiza

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    1. Obrigado, Luiza. Acho que todos estivemos fora do mar pelo mesmo motivo...
      :-)
      abraços
      Rafael

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  2. Olá Rafael,
    Adorei!
    Será que não há aqui uma tentação de genialidade/imortalidade neste projeto? Se eu for muito bom daqui a 100 anos continuarão a ler-me; se eu não for muito bom, mas estiver neste projeto, daqui a 100 anos não estarei esquecido...
    beijos
    Helena

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    1. Não deve ser fácil entrar para o time dos convidados, mas acho que você tem razão.

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  3. Oi querido,

    :)))) Mario Quintana já dizia que "o futuro é uma espécie de banco ao qual vamos remetendo, um a um, os cheques de nossas esperanças. Ora, não é possível que todos os cheques sejam sem fundo".

    É, foram dias intensos estes! Bon retour sur le toit!!!!
    Bises
    CG

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  4. Oui, très bien, merci! :)
    Estamos super adaptados já e incorporando o idioma mais e mais. Encontrei umas ruelas ao redor da Sorbonne repletas de livrarias e sebos, estonteante! :) Bjs e inspiração!!

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  5. Olá, Rafael! Seu texto, como sempre, atraente e peculiar.

    Minha opinião: nada vai substituir uma leitura que dispensa bateria.

    Beijo grande!

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    1. Obrigado, querida. Eu gostaria de ser mais otimista, mas continuo torcendo pelo bom e velho livro livro (como diz o anúncio da Ikea...).
      beijos
      R

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