domingo, 8 de junho de 2014

Ao pé da letra

          Em décadas de docência universitária, este humilde cronista já alternou mais altos e baixos do que as montanhas russas da Disneylândia. Um dos baixos que nos assombra é a avaliação de provas. Corrigir dezenas de respostas à mesma pergunta, tarefa que se repete por várias questões a cada prova, é capaz de provocar uma lesão cerebral de esforço repetitivo. Desgosto adicional é a crescente ameaça à integridade da língua pátria, pelos atentados cometidos por alguns dos estudantes que teriam sido selecionados, vejam só, pela proficiência nas lições aprendidas ao longo de sua educação pré-universitária.
          Alguns colegas da egrégia Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil já murmuram entre dentes “Fez carreira acadêmica porque quis...”. Contenham-se doutores pois, como diria Bento Carneiro - o vampiro brasileiro, personagem do humorista Chico Anísio -, “minha vingança será maligna!”. Pois outro motivo de calafrios é a caligrafia. É um martírio decifrar a letra de muitos estudantes, vários dos quais, por casualidade, são de Medicina. Ainda assim podem sossegar, pois o tema desta crônica não é a “letra de médico”, e sim, a escrita à mão em geral.
          Antigamente, cadernos de caligrafia eram obrigatórios na escola, até que foram condenados por novas correntes pedagógicas, mesmo porque, no futuro, tudo será escrito nos teclados de computadores. Até entre os que defendem seu uso, há controvérsia sobre quando devem ser introduzidos e por quanto tempo os professores devem zelar pela qualidade estética da escrita dos alunos. E daí?
          Não apenas um calígrafo japonês, mas muita gente por aí deve apreciar uma letra desenhada com apuro. Com frequência, tecnófilos contumazes decoram seus textos ou diapositivos com fontes como Brush Script, Lucida Handwriting, Snell Roundabout e outras belezinhas desenvolvidas por designers gráficos para simular escrita manual. Mas é improvável que a mecanização de letras cursivas reproduza a infinita variedade de caligrafias. Assim espero, ecoando a professora Ermelina Tomacheski, da PUC do Paraná, que teria dito “...a letra também é um reflexo da personalidade e da liberdade de expressão, ou seja, cada um desenvolve seu próprio estilo...” (sic). Tempos atrás, ouvia-se muito “fulano tem uma letra muito bonita”, isso antes da letra do fulano se tornar Arial 12pt. E exames grafoscópicos – que não se deve confundir com a Grafologia pseudocientífica – são úteis para detectar rasuras e falsificações de textos manuscritos.
          Entretanto, o busílis – olha o busílis aí de novo, gente! - é se, afinal, escrever à mão se justifica perante a difusão dos computadores, tabletes e espertofones. Sobrou alguma utilidade, além da estética e da piedade para com os leitores de manuscritos manuscritos? Pois este foi o assunto de uma reportagem do New York Times, cujo logotipo ostenta uma elegantíssima fonte derivada de letras góticas a qual, reza o Google, corresponde a Old English ou Temporal. O texto de Maria Konnikova, intitulado “O que se perde com o desaparecimento da escrita manual”, indica que se perde muito.
          Senão, vejamos. Há alguns anos, a professora Karin James, da Universidade de Indiana, recrutou para um teste quinze crianças de quatro a cinco anos de idade, ainda não alfabetizadas. Não, Meritíssimo, não foram sequestradas, os pais concordaram em levar filhos e filhas ao laboratório e ficaram felizes em contribuir para entender mecanismos de aprendizado da leitura. Tudo bem?  Então, tá. A pesquisadora pediu a cada criança para olhar a imagem de uma letra do alfabeto e copiá-la, várias vezes, de três formas distintas: à mão livre, traçando por cima de um modelo, ou apertando uma tecla com o desenho da letra. Fez o mesmo para formas neutras como círculos ou quadrados. Depois do treinamento, registrou imagens de atividade do cérebro das crianças, por uma técnica chamada Ressonância Magnética Funcional. Sim, Meritíssimo, as crianças toparam tudo de livre e espontânea vontade, e adoraram a brincadeira.
          As imagens cerebrais foram feitas enquanto as crianças olhavam para letras treinadas, letras não treinadas ou formas neutras. Não foi surpresa ver que a prática de desenhar letras provocou atividade mais intensa que as formas neutras em regiões cerebrais sabidamente envolvidas na leitura. Mas, o mais interessante foi que estas partes do cérebro foram ainda mais ativadas pela observação das letras que a criança tinha desenhado à mão livre, do que das letras traçadas sobre um modelo ou tecladas num computador.
          A interpretação da doutora James se baseou em estudos do norte-americano Michael Posner, segundo os quais a percepção de variações na forma com que uma letra aparece para uma criança facilitaria seu reconhecimento independente dos detalhes da caligrafia. Ao escrever repetidamente uma letra, uma criança ainda não alfabetizada certamente produz múltiplas variações. Isso seria vantajoso para fixar o aprendizado daquela letra, quando comparado ao traçado sobre um modelo ou, ainda mais, o apertar de uma tecla no computador.
          A esta altura, não é necessário ser um renomado especialista ou adepto fervoroso da chamada Escola Construtivista para reconhecer que a antiga prática de obrigar crianças a treinar caligrafia padronizada não ajuda e poderia até atrapalhar o aprendizado, por reduzir a margem de variação na escrita manual. Mas é só isso? Não, tem mais.
          A professora Virginia Berninger, da Universidade de Washington, vem há anos mostrando que escrever à mão com letras cursivas ou letras de imprensa, ou ainda usar teclados de computador, ativam regiões distintas do cérebro; que crianças que escrevem à mão expressam mais idéias do que as que usam os outros meios; e que, quando pediu a crianças em torno dos 10 anos de idade sugestões de idéias para uma redação, as que escreviam melhor mostraram, na Ressonância Funcional, ativação mais intensa nas áreas cerebrais associadas a memória, leitura e escrita. Ponto para a boa escrita manual.
          E mais, a revista Psychological Science publicou um artigo dos pesquisadores Pam Mueller e Daniel Oppenheimer, os quais compararam, em adultos jovens, os benefícios de anotações feitas à mão ou em um computador. Sessenta e cinco estudantes da Universidade de Princeton, de ambos os sexos, assistiram a palestras gravadas e tomaram suas notas como estão habituados a faze-lo em aula. Depois, responderam a dois tipos de perguntas - factuais ou conceituais - que diferem por testar a memorização de fatos relatados nas palestras ou sua concatenação em idéias abrangentes.
          Os estudantes que usaram computadores tomaram notas mais extensas, geralmente limitadas à reprodução ipsis literis de frases ou dados, enquanto as anotações à mão livre, embora menos extensas, foram mais variadas e menos coincidentes com a transcrição exata das palavras do palestrante. Curiosamente, essa diferença persistiu quando eles foram instruídos a não fazer anotações ipsis literis! Nos testes, os anotadores à mão livre obtiveram resultados melhores dos que os tecladistas nas perguntas conceituais e, quando o exame foi feito depois de um tempo para estudar as anotações, ainda assim os anotadores à mão livre se sairam melhor tanto nos testes conceituais quanto, surpreendentemente, nos factuais. Ou seja, anotações à mão livre favoreceram o aprendizado dos conceitos, quando comparados ao uso dos computadores. Neste estudo não havia correio eletrônico, mensagens de texto ou qualquer outra interferência internáutica que pudesse explicar o relativo fracasso dos tecladistas. Tudo parece indicar a superioridade das anotações à mão livre para aprofundamento do aprendizado.
          É possível que quem faz anotações mais concisas e conceituais no computador tenha desempenho tão bom quanto, ou ainda melhor do que os que escrevem à mão. Mas, a julgar pela manutenção de anotações ipsis literis mesmo quando instruídos a não faze-lo, a mecanização da escrita é acompanhada por vícios prejudiciais. Estão todos convencidos? Não? Nem eu por completo, ainda. Mas a gentil leitora há de convir que os resultados de estudos científicos estão na contramão da idéia, muito difundida, de que não há mal em deixar a escrita à mão desaparecer no turbilhão da eletrônica. Há fortes indícios de que lápis e papel ainda são úteis pelo menos até a adolescência tardia e, provavelmente, muito além dos bancos universitários.
          Mas, perguntará o nosso conhecido leitor rabugento, o que tem isso a ver com a caligrafia? Pois saibam que, há cerca de dois anos, um inquérito encomendado por uma empresa britânica constatou que o tempo decorrido desde a última vez que um ingles escreveu à mão livre foi, em média, de seis semanas, e um terço dos entrevistados não precisou escrever nada de forma “adequada” por mais de seis meses. Pior, um em cada três entrevistados confessou que não entende suas próprias anotações à mão livre. Agora, imaginem o bom humor de um professor a avaliar várias dezenas de provas manuscritas...
          A computorréia chegou para ficar e a tendência de trocar a escrita manual pela eletrônica é inexorável. A não ser, é claro, quando falta luz e a bateria reserva se esgota. Antes que o rabugento pondere que na falta de luz não se escreve nem à mão, lembro que também falta luz durante o dia. Mas isso não é tudo. O cérebro humano vem evoluindo há mais de dois milhões de anos, a chamada proto-escrita já tem uns dez mil de idade e a escrita propriamente dita, uns cinco a seis mil. Alguma pressão evolutiva há de ter tornado essas três histórias congruentes, e muitas gerações ainda passarão antes que desapareçam os benefícios neurológicos da escrita manual. Se há de fato vantagens em escrever à mão, há também vantagem em conseguir ler, pelo menos, as próprias anotações.
          Vosso cronista predileto ainda acha que se deve cuidar com carinho da qualidade da caligrafia das crianças e jovens, no mínimo de sua legibilidade sem, naturalmente, retornar aos métodos draconianos da velha escola. Recentemente uma amiga, preocupada com o desprezo do filho de seis anos e meio por melhorar a qualidade da própria letra, escreveu uma mesma palavra de duas formas, com letra caprichada e em garranchos ilegíveis e surpreendeu a criança ao lhe mostrar que era a mesma coisa escrita das duas formas. Ainda é cedo para saber o quanto isso vai influenciar o guri, mas pode ser uma boa estratégia.

Rafael Linden


P.S.: Sim, senhora, tudo isso foi escrito no teclado de um computador. Mas, como os leitores deste blog bem o sabem, o autor não tem mais jeito.


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