sexta-feira, 9 de maio de 2014

Idéia de jerico

          Há poucos dias o jornalista Chico Felitti publicou na Folha de São Paulo uma reportagem estarrecedora, sobre a idéia de uma escritora de livros infanto-juvenis, chamada Patricia Secco, a qual, desde já convém esclarecer, não é a atriz Deborah Secco, muito menos sua personagem Bruna Surfistinha.
          O projeto da Dona Patrícia consiste em “simplificar” obras de Machado de Assis. O que significa isso? Segundo a autora, ela “entende porque os jovens não gostam de Machado de Assis…” pois “…os livros dele tem cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”.
          Por “simplificar”, esta senhora entende trocar palavras “difíceis” por “fáceis” como, por exemplo, trocar “sagacidade” por “esperteza”. Aliás, o exemplo escolhido por Felitti para ilustrar o método da escritora cai como uma luva. Esperteza é isso aí. Assinar e ser remunerada por uma versão “simplificada” do livro “O Alienista” que, segundo ela, é apenas o primeiro de uma série que, além de Machado, contemplará outras vítimas como José de Alencar, Aluísio Azevedo e Manuel Antônio de Almeida. Raios me partam, é cada coisa que aparece…
          Não contente com o literacídio, a criatura teria declarado, em alto e bom som, que “…a mudança não fere o estilo do escritor mais celebrado do Brasil. A idéia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil”. Fica então decretado por esta senhora que o estilo de um escritor não tem relação com as palavras escolhidas para seus textos. Queiram, por gentileza, todos os estudantes de Letras e Literatura anotar esse novo conceito e esquecer a lição de escritores como Autran Dourado que, relembrando seu mestre Godofredo Rangel, escreveu no Breve Manual de Estilo e Romance: “Na língua que falamos, o português do Brasil, leia mais de uma vez Machado de Assis. Não procure imitá-lo nos seus arcaísmos, que são parte de seu estilo…”. Ô, Dona Patrícia! Seu projeto é nada mais, nada menos, do que um crime de lesa-pátria.
          E a pá de cal é a informação de que os livros serão distribuidos em escolas por uma ONG e que o projeto foi apadrinhado pelo ínclito e sempre criativo Ministério da Cultura, que a autorizou a captar recursos pela Lei Federal de Incentivo à Cultura. Ou seja, enquanto você, caro leitor, solta fumaça pelas ventas ao descobrir quanto vai pagar de Imposto de Renda, alguma empresa vai descontar uma baba por financiar este abantesma. Se a escritora achar que é uma palavra difícil, tem minha permissão para trocá-la por “coisa repugnante”, mas não por “alma do outro mundo”, tá bom?
          A esta altura percebo que abusei das aspas e das citações, mas peço vênia (ooops, “licença”…) para encerrar com mais uma transcrição. Faço isso porque se encaixa perfeitamente na minha frustração ao tomar conhecimento desta idéia de jerico, que mereceria um lugar de honra numa nova edição do Festival de Besteira que Assola o País, fosse o inesquecível Sergio Porto ainda vivo. Trata-se de um texto de autor desconhecido, que por acaso li no Blog de José Costa, professor do Colégio Estadual Murilo Braga, de Itabaiana, Sergipe. Deixo-vos, portanto, com a alma despedaçada pela Dona Patrícia, porém adoçada pela historinha a seguir:

          “Um político que estava em plena campanha chegou a uma pequena cidade, subiu para o palanque e começou o discurso:
          - Compatriotas, companheiros, amigos! Encontramo-nos aqui,
 convocados, reunidos ou juntos para debater, tratar ou discutir
 um tópico, tema ou assunto, o qual me parece transcendente,
 importante ou de vida ou morte.
 O tópico, tema ou assunto que hoje nos convoca, reúne ou junta
 é a minha postulação, aspiração ou candidatura a Presidente da Câmara deste Município.
          De repente, uma pessoa do público pergunta:
          - Ouça lá, por que é que o senhor utiliza sempre três palavras para dizer a mesma coisa?
          O candidato respondeu:
          - Pois veja meu senhor: a primeira palavra é para pessoas com nível cultural muito alto, como intelectuais em geral; a segunda é para pessoas com um nível cultural médio, como o senhor e a maioria dos que estão aqui; a terceira palavra é para pessoas que têm um nível cultural muito baixo, pelo chão, digamos, como aquele alcoólico, ali deitado na esquina.
          De imediato, o alcoólico levanta-se a cambalear e ‘atira’:
          - Senhor postulante, aspirante ou candidato: (hic) o fato, circunstância ou razão pela qual me encontro num estado etílico, alcoolizado ou mamado (hic), não implica, significa ou quer dizer que o meu nível (hic) cultural seja ínfimo, baixo ou mesmo rasca (hic). E com toda a reverência, estima ou respeito que o senhor me merece (hic) pode ir agrupando, reunindo ou juntando (hic) os seus haveres, coisas ou bagulhos (hic) e encaminhar-se, dirigir-se ou ir direitinho (hic) à leviana da sua progenitora, à mundana da sua mãe biológica ou à puta que o pariu!”

Rafael Linden



12 comentários:

  1. Mas que barbaridade!

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  2. Nada que venha de homem nesse mundo me espanta, principalmente quando o assunto é referente a Lei e a moral.

    Realmente é uma grande besteira isso que essa Patricia Secco propôs e prontamente acataram.

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  3. novo agregador de links!
    www.migrando.com.br

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  4. Olá Rafael

    Que notícia triste, nossos jovens já estão cada vez mais burros e o governo parece que pretende ajudar nesse processo, triste e vergonhoso.

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    1. É lamentável mesmo. Que alguém tenha uma idéia estúpida vá lá. Mas a chancela do MinC é vergonhosa.
      abraços
      Rafael

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  5. É, nossa pátria mãe está cada vez mais desmoralizada. Não chegam as atrocidades (perdoem a má palavra) que somos obrigados a ler na grande teia, teremos que assistir nossos filhos sendo enganados com "dublagens" de nossos grandes literatos. Que pena. E o pior, diria Judas, é que ela não é a única com essas ideias de jerico.

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    1. É verdade. Não é preciso procurar muito, que se acha mais disso aí. Obrigado pela visita e pelo comentário.
      R

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  6. Pois é, Rafael. Talvez a moça não tenha idéias próprias. Fica mais fácil assassinar um já morto imortal e ganhar com isso do que tentar algo original e autoral.
    Abraço, (Nicole)

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    1. Eu imagino os livros infantis dela...VI seu conto no Google+, você escreveu já na terça?? Eu só consegui na quarta...
      :-)
      Abraço
      R

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