sábado, 13 de outubro de 2012

Poucas palavras, outra vez


          Há algum tempo escrevi, aqui no telhado, um texto (Poucas palavras*), sobre um “microconto” apócrifo, de apenas seis palavras, atribuído a Ernst Hemingway. Declarei minha admiração por quem, em texto tão curto, consegue provocar uma história distinta na cabeça de cada leitor.
          Hoje volto ao assunto dos “microcontos” porque, em uma aula da oficina de contos ministrada por Ana Letícia Leal, na Estação das Letras, fomos instados a criar um mote para um conto, a partir de uma de quatro “ministórias” do escritor paranaense Dalton Trevisan**.
          Escolhi esta, a mais curta das quatro:
“Só de vê-la – ó doçura do quindim se derretendo sem morder – o arrepio lancinante no céu da boca.”
          A seguir, minha versão da história:
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          Anos de solidão, perdido em tristeza.
          Foi um encontro fugaz no metrô, a mirada momentânea, freada, solavanco, a porta abriu e ela se foi. Cruzaram olhares uma vez mais e ele gravou, para sempre, o nome da estação.
          Correram os dias, um novo olhar, outro e mais outro, até que a chance os aproximou o suficiente para um discreto cumprimento, um sorriso, um rubor. Tempo, tempo e, sem palavras, o desejo cada vez mais intenso. E ela, o que sentia?
          A cor da pele, as formas do corpo, a sensualidade, beleza tanta que doía. Sentia-lhe o gosto num delírio de antecipação. Um dia lhe diria tudo. Se tivesse coragem. Nunca tivera, por que agora? Um dia teria. Não este. Um dia qualquer. Certo dia, ela não veio. Outro, outro. Ele chorou o sonho evaporado na cidade grande.
          Semanas de solidão, perdido em tristeza. De repente, ela reapareceu. Linda e luminosa. Ao longe. “Só de vê-la...”

Rafael Linden

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