domingo, 22 de novembro de 2015

Alice no Mundo das Desmaravilhas

          Do jeito que as coisas andam aqui e alhures, sabe-se lá por quanto tempo ainda haverá o que comemorar, ou oportunidade para tal. Portanto urge celebrar tudo que há de bom, como bem apetece a este humilde cronista. Aniversário de criança, da sogra ou de formatura, prêmio da loteria ou distinção profissional de amigos, gol de placa no último minuto ou cesta do meio da quadra, sol de verão ou aquele friozinho ameno que emoldura um vinho esperto, vale tudo antes que banhos de sangue, de lama ou de cinismo acabem de vez com nossa combalida espécie.
          Então, ainda é tempo de comemorar o aniversário da Alice. Qual delas, minha senhora? Aquela que, um belo dia há cento e cinquenta anos, deu de escorregar por um buraco atrás de um coelho branco que, às carreiras, consultava um relógio de algibeira e confirmava estar atrasado. Criada pelo matemático Charles Dodgson, foi resultado de um passeio de barco com o reverendo Robinson Duckworth, quando ambos trouxeram de volta de um piquenique as filhas do Decano de um dos Colleges de Oxford. Ao longo do passeio uma delas, Alice, ficou encantada com uma história contada por Dodgson e lhe pediu que a escrevesse. O autor, que adotou o pseudônimo literário “Lewis Carroll”, publicou a história com ilustrações do artista John Tenniell, pela primeira vez, em Julho de 1865.
          Quem não leu não sabe o que está perdendo. Obras primas de nonsense, “As aventuras de Alice no país das maravilhas” e a sequela “Alice através do espelho e o que ela encontrou lá” vem desde então encantando crianças e adultos, particularmente os bem-humorados. Prova é que o leitor rabugento não gostou na infância, continua não gostando e, ora essa, não é ranheta à toa. Muitos continuam a reler, descobrindo pitadas de humor antes despercebidas entremeadas no texto e, volta e meia, revendo a escolha de sua passagem predileta.
          Há os que adoram o “desaniversário”, data adequada para ganhar um presente em qualquer dos trezentos e sessenta e quatro dias do ano em que não se comemora o aniversário propriamente dito; outros se identificam com a passagem em que Alice diz não querer andar com loucos, o gato de Cheshire responde que é inevitável pois todos somos loucos, a menina pergunta como ele sabe que ela o é, ao que o gato retruca que, se não fosse, não estaria ali. Cá no telhado este que vos dedica esta crônica, depois de repetidas leituras ao longo de décadas, ainda prefere o diálogo:

            “-Não posso acreditar nisso!” - disse Alice.
            -“Não pode?” - disse a Rainha com tom de voz penalizado. “-Tente outra vez:
            respire profundamente e feche os olhos.”
            Alice riu. “-Não adianta fazer isso.” - disse ela - “Ninguém pode acreditar em
            coisas impossíveis.”
             “-Eu diria que você nunca praticou bastante.” - disse a Rainha - “-Quando eu
            tinha a sua idade praticava sempre meia hora por dia. Às vezes me acontecia
            acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã.”

          Quem tem na memória outra passagem predileta é bem-vindo a escreve-la na seção de comentários. Não, senhora, não é uma enquete nem haverá prêmios, infelizmente a crise impede que este espaço distribua outras benesses que não nossas mal-traçadas linhas.
          A triste ironia deste aniversário é que o passeio de barco do genial Lewis Carroll com o Reverendo e as crianças foi feito ao longo do trecho do rio Tâmisa que passa pela cidade de Oxford e que, naquele lugar, é chamado de Isis. É consternador o contraste entre homônimos tão distintos.
          Mas, entre as coisas impossíveis em que cada um de nós deve acreditar antes do desjejum, quem sabe não cabe uma ou outra utopia, como bom senso na capital federal, respeito pelo entorno e pelos outros em tantas partes do país e do planeta, e paz por aí afora…
          Feliz Aniversário. E felizes todos os Desaniversários, Alice.


Rafael Linden


15 comentários:

  1. Rainha de Copas? Temos uma logo ali em Brasília.

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    1. Lindo Rafael, comme il faut.
      só vc pra nos alegrar, nestes dias tão sombrios como os que estamos vivenciando nestas catástrofes.

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  2. Pois é, temos mesmo uma rainha de copas...Feliz desaniversário!

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  3. Muito bom como sempre
    Feliz desaniversario
    Inez e Gil

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  4. :-)) É bom lembrar de vez em quando! Obrigada Rafa!
    [x] Doris

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  5. Como todas as crônicas desse blog: Irreparável.
    Adorei!

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  7. Aqui é manhã cedo e ainda não tomei café... Vamos a isso! :)

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