sábado, 28 de fevereiro de 2015

Cusparada e Fogaréu

          Gêmeos não eram, mas não precisava. Dia e noite, em qualquer circunstância, sempre pendurados um no outro. Carne e unha, falava-se, mas eles se diziam irmãos de rua, brôs. Bastava um daqueles assobios com os dedos nos cantos da boca e a língua enrolada. Um soava, o parceiro já sabia. Era pular a janela e sair.
          E tome duas senhoras aflitas, a mãe solteira de um e a avó do outro, que o segundo não tinha mãe nem pai. Tivera por um tempo, mas acabou. Onde estão esses meninos, não sei, nem eu, não tem nem sete anos e já aprontam desse jeito, ligue para a tal, que mora no fim da rua e pode ter visto, não viu, sumiram. Quatro horas depois, uma palmada em cada bunda com sermão. Validade curta, os castigos expiravam antes do por-do-sol do dia seguinte.
          Foram para a mesma escola, não estudavam, não aprendiam nada, mas sempre juntos e do mesmo jeito, sincronizados pelo sinal sonoro, que a vizinhança toda ouvia e sabia de quem era, para quem e para que. A surpresa era que os moleques passavam de ano, mas sempre por bajular as professoras, uma florzinha, uma goiaba fresquinha, um afago, sabiam engabelar qualquer um. Mas mãe de um e avó de outro não acreditavam e bem achavam que os meninos podiam parecer do desvio, mas no fundo eram bons.
          Conheciam todo mundo e vice-versa. Até uns onze anos tinham nome civil, mas logo viraram Cusparada e Fogaréu. Um porque mascava fumo de rolo e matava mosca com o esguicho que saia pela falha do dente perdido numa briga. Outro porque fumava um mata-rato sem filtro e, de vez em quando, esquecia de pisar na guimba no meio do mato. Não vão dar boa coisa, menina saia de perto deles, eu é que não me meto com esses marginais.
          Quando um ia preso o outro também, quando um era solto o outro igual. Não dava uma semana sem que fossem resgatados do distrito. Esse delegado é um frouxo, devia mandar à força pro serviço militar, só um coturno é capaz de fazer isso aí andar na linha. Já estão em casa graças ao bom Deus e ao estatuto, diziam mãe e avó respectivas, acendendo vela a Um e agradecimento pagão ao outro.
          Até que uma construtora com nome de gringo comprou as casas todas da rua. Aquilo tudo ia virar o maior centro comercial da cidade, com lojas, restaurantes, bancos, cinemas, que aquela gente bem gostaria de usufruir, mas quando ficasse pronto ia ter de pegar duas conduções para chegar. Por via das dúvidas, mãe e avó de cada um aproveitaram para livrar o seu da má influência do outro. São tão amigos, mas não custa, assim quem sabe se emendam. Uma prum lado, outra para o lado oposto da metrópole. E o tempo passou, levou as duas senhoras e deixou os rapazes sem o outro de cada um.
          Pois foi justo na terça-feira da semana passada que a recepcionista ligou da portaria do prédio exclusivo da empresa e, pelo interfone, comunicou ao Diretor-Presidente que o Senador havia chegado para o encontro marcado. Enquanto esperava o ilustre parlamentar tomar o elevador para o décimo andar e ser guiado à sua sala, o industrial saboreou antecipadamente a negociata combinada com um intermediário. A razão da visita era para selar o acordo e, é claro, entregar a parte que cabia ao visitante. Não, Meritíssimo, eles não se conheciam pessoalmente, jamais tinham se encontrado, é tudo calúnia, injúria, difamação. Logo a porta da sala se abriu e, lá no térreo, a recepcionista teve a impressão de ouvir ao longe um assobio.


Rafael Linden



6 comentários:

  1. Gostei muito, repito. Pena que seja tao realista.

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    1. Pois é, eu teria ficado mais feliz se isso fosse um conto...

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  2. Texto simplesmente maravilhoso!!!!

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  3. Que delícia de leitura... adorei!
    Belíssimo... amei o blog!
    BjossS!

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    1. Obrigado, Patrícia. Isso é que é incentivo. Volte sempre!!

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