sábado, 10 de janeiro de 2015

O espertofone, o dedão e a evolução

          Assustar-se-á a gentil leitora que, embevecida, nos lê na tela do espertofone enquanto come uma saudável salada de frutas antes de voltar para seu escritório. Não carece, mesmo porque nada há a fazer. Mas convém dar-se conta de que seu cérebro está, literalmente, se deformando pelo hábito de usar o celular para interagir com seus oitocentos e quarenta amigos do fêice e responder de imediato às dezenas de uótisápes que outros tantos lhe enviam diariamente.
          Na verdade, sabe-se há tempos que movimentos treinados repetidamente, como os que fazem músicos ou atletas, modificam o mapa de representação corporal no cérebro. Se já não sabia, caro leitor, fique sabendo que existem tais mapas das diversas partes do corpo humano – sim, sim, daquelas também - em várias áreas do córtex cerebral. Muitíssimos neurônios cerebrais tem sua atividade associada a sensações ou movimentos de partes específicas, como o braço direito, a perna esquerda, ou o dedo mindinho. Além disso, há mais de vinte anos, pesquisadores de vários países mostraram, por exemplo, que violinistas tem um volume maior do cérebro ocupado pela representação de sensações na ponta dos dedos, enquanto jogadores de futebol americano e de tenis tem uma parcela maior do cérebro dedicada a representar, respectivamente, pernas e braços, quando comparados a quem não pratica música ou esportes.
          Não apenas o rabugento, mas os próprios pesquisadores pensaram na alternativa de que são as pessoas que se tornam músicos ou atletas como consequência de facilidades oferecidas desde a infância por essa proporção extra de cérebro adequada para aquelas atividades. Porém, experimentos controlados, assim como evidências de que os sucessivos anos de treinamento contribuem diretamente para as mudanças, indicam que o cérebro humano se adapta às exigências de atividades sofisticadas altamente treinadas.
          Sabendo disso e, possivelmente, enfurecido com o tempo que sua namorada gastava batucando na tela do espertofone em vez de retribuir sua insana paixão, o jovem pesquisador indiano Arko Gosh, do Instituto de Tecnologia de Zurich, na Suiça, resolveu testar se a mania de sua amada teria consequências para a organização funcional do cérebro. Para evitar bronca de Ministro dispenso o anglicismo spoiler e peço vênia pelo “estraga-prazeres”: tem consequências, sim.
          Gosh e seus colaboradores usaram técnicas de eletroencefalografia para registrar sinais cerebrais provocados por leve estimulação mecânica do polegar, do indicador e do dedo médio da mão direita de voluntários que pertenciam a dois grupos distintos: um de usuários contumazes de espertofones com tela sensível ao toque (touchscreen), e outro de donos de celulares “mais ou menos espertos”, com teclado de verdade (chamado teclado QWERTY, ou teclado físico). A idéia foi comparar entre esses grupos o mapa, na superfície do cérebro, da região que responde ao toque sutil de cada um daqueles dedos.
          Os resultados foram bacaninhas. Bastam dez dias de uso intenso de touchscreen para o cérebro reagir com um aumento da atividade e do volume de tecido nervoso ativado pelos toques no polegar, no indicador e, bem menos, no dedo médio, quando comparados aos usuários de celulares com teclas de verdade. E o aumento do volume cerebral que responde ao polegar era tanto maior quanto maior o uso, o qual foi estimado através de um aplicativo de carga da bateria do aparelho. Em outras palavras, escrever mensagens de texto no celular é uma verdadeira mistura de “arte” e “atletismo” do dedão, inclusive no que se refere ao cérebro. A diferença com os teclados verdadeiros provavelmente reside na sutileza dos toques na tela, que exigem mais habilidade do que tamborilar nas teclas de plástico. E o dedo indicador entra na parada por conta de movimentos compensadores para manter o celular firme na mão enquanto se tecla com o dedão.
          Sei lá se é bom ou ruim. Caso o leitor acredite que caminhamos inexoravelmente para uma era na qual nossas atividades serão totalmente mediadas por espertofones, essa reorganização funcional do cérebro deve ajudar. Por outro lado, mudanças produzidas por atividades repetitivas podem driblar os benefícios e, além das conhecidas lesões de esforço repetitivo, podem eventualmente interferir em outras funções motoras. Por exemplo, um virtuoso do violão não pode se dar ao luxo de beneficiar o polegar em detrimento de áreas do cérebro dedicadas aos demais dedos das mãos.
          Mas, cá pra nós, um dos maiores encantos da crônica é a licença oficial para a pilhéria. É consensual o reconhecimento do bem que a oposição do polegar aos outros dedos da mão ofereceu aos hominídeos, facilitando o uso de ferramentas com vantagens evolutivas principalmente para nós, humanos. Pois estou certo de que, ao final de uma ceia pantagruélica, não haverá quem resista à idéia de que a oposição do polegar foi, na verdade, invenção de um primata primitivo, precursor de nossa espécie, cujo nome científico era Steve Jobs.

Rafael Linden


6 comentários:

  1. Fico chocada com o tempo dedicado por alguns aos espertofones, como voce os chama.

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  2. É preciso ter dedos finos, como os dedos das gentis leitoras. Senão, acerta duas teclas virtuais ao mesmo tempo sempre...

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    1. Mais erros, mais correções, o efeito deve ser maior!
      R

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