sábado, 8 de junho de 2013

O pebolim


          Os que vivem ao sul de Minas Gerais não precisam de legenda, mas o resto do Brasil talvez necessite de tradução. Pebolim é conhecido nas latitudes que vão do Oiapoque a Camanducaia como futebol-totó e, reza a Wikipedia, em Portugal como matraquilhos, matrecos ou perceberitos.
          Para quem ainda não reconheceu, é o joguinho em que cada equipe conta com onze bonecos de madeira distribuidos em quatro espetos de metal, os quais são movimentados por um ou dois jogadores de cada lado com o objetivo de arremessar uma bolinha para fazer gols no adversário, como no futebol. O nome genérico deste jogo é “futebol de mesa”, mas já nisso há problemas, pois alguns usam a mesma denominação para o “futebol de botão”, que é outra coisa.
          Brincadeira de criança, dirão os apressadinhos. Nada disso, é coisa seríssima. A ponto do jornalista Derek Workman ter publicado na Smithsonian Magazine um artigo sobre a história do pebolim. E há dois aspectos curiosos no relato de Workman: um deles é a controvérsia sobre a invenção do jogo, que inclui a hipótese de seu aparecimento no final do século XIX, uma patente na Inglaterra em 1923, uma reivindicação de um francês nos anos 1930 e a explicação mais popular, de que o pebolim foi inventado por um certo Alexandre de Finesterre, o qual alegou ter idealizado o jogo, em 1937, quando convalescia de ferimentos sofridos na guerra civil espanhola.
          Outra curiosidade se refere aos nomes que o joguinho tem em diversos países e respectivas línguas. O artigo cita lagirt em turco, csocso em húngaro e, ora vejam, baby-foot na França (os numerosos leitores franceses deste blog teriam crises apopléticas se eu falhasse na revisão e escrevesse “em francês”...). Na Alemanha é Tischfussball (os dois “esses” são representados pela letra grega “beta” em alemão de verdade) e a corruptela foosball consagrou-se em inglês, derivada do nome em alemão. Ora, direis, mas são apenas nomes em línguas distintas, o que há de interessante nisso? É que, na verdade, o pebolim varia muito em países diferentes.
          Nos Estados Unidos o foosball é jogado em mesas com bonequinhos, assoalho e bola de madeira dura, enquanto na França usa-se uma mesa com assoalho de linóleo e bola leve de cortiça. Na Alemanha os materiais são diferentes de ambos. Apesar disso, existe uma Federação Internacional de Futebol de Mesa (ITSF), à qual são filiadas, entre outras, a Federação Portuguesa das Associações de Futebol de Mesa (FPAFM) e a Associação Brasileira de Pebolim (ABP). E o livro de regras da ABP, traduzido da Federação Internacional, tem nada menos do que trinta itens minuciosamente descritos em dezenove páginas.
          Toda essa organização parece um pouco exagerada para um jogo que, em geral, é praticado de brincadeira no churrasco de fim de semana, assim como o era em cafés e bares no mundo inteiro. No entanto, a ABP leva o jogo a sério e vem fazendo uma intensa campanha com o intuito de recrutar mais e mais aficcionados para suas hostes, em busca do reconhecimento oficial do pebolim como esporte. Um dia, quem sabe, tornar-se-á modalidade olímpica.
          Ainda bem que, na época da faculdade, não sabíamos de nada disso quando, nas vésperas das provas, passávamos horas a fio entretidos em torneios de futebol-totó na casa do Ronaldo - antes dele se mudar para Taubaté onde, naturalmente, passou a chamar o jogo de pebolim, com sotaque e tudo. Imaginem se, nos intervalos do estudo para a avaliação de Neurologia do dia seguinte, ainda tivéssemos que decorar as regras do joguinho...

Rafael Linden


8 comentários:

  1. Jamais poderia imaginar que um joguinho como o tal possibilitasse um texto como esse... Cheio de sofisticação... show!

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  2. É muita informação para um joguinho mesmo. kk. Gostei do Baby-foot!!!!

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    1. Pois é, e ainda há quem ache que é brincadeira...
      :-)

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  3. texto mto bacana.......

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  4. Meu Deus!!! Associação Brasileira de Pebolim (ABP)... É isso mesmo?!!!

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