“Lá vai a
triônica, Formiga Atômica!!!”, era o grito de guerra do personagem de um
desenho animado produzido na década de 1960 no lendário estúdio de William
Hanna e Joseph Barbera, criadores de clássicos do cinema de animação como Tom e Jerry, Zé Colmeia, Flintstones, Manda-Chuva, Jetsons e, é claro, das duas dúzias de filmetes estrelados pela intrépida
formiguinha alada, que volta e meia era convocada pela polícia para ajudar no combate
ao crime. A Formiga Atômica usava um capacete, tinha em seu laboratório um
formidável computador, suas antenas captavam chamados radiofônicos, ela voava a
velocidades alucinantes e preparava-se para o combate à custa de exercícios com
um par de halteres pesadíssimos. Como consequência dessa malhação, era capaz de
erguer “50 vezes o seu próprio peso”, como se a estimada leitora pudesse, depois
de ouvir todo o repertório da banda brega que polui o ambiente sonoro da
churrascaria, tirar do chão uma van lotada com cinco casais de amigos chatos do
seu marido e atirá-la ao mar.
Cá para nós, duvido que o falecido
dublador Rodney Gomes, que fazia a voz da formiga na versão brasileira,
soubesse o que significa a inédita palavra “triônica” do retumbante brado do
herói – que, no desenho animado, era um macho. Curiosamente, nunca se soube a
razão pela qual o atlético himenóptero adquiriu tais superpoderes, embora
especule-se que seja porque há cinquenta anos “atômico” era usado coloquialmente
como sinônimo de forte, poderoso, ou tudo o mais que se aplicasse à formidável
formiguinha. Ainda assim, o desenho animado serve-nos como uma luva para a
crônica de hoje. En passant, nota o
rabugento que “servir como uma luva” é um contrassenso, dada a imensa variação
de tamanho da mão humana, na qual só serve luva de tamanho adequado. Voltando à
vaca fria – e, a muito custo, evitando piadinhas pecuárias - o que nos
interessa hoje é aquela premonitória mistura de “formiga” com “atômico”. Pois
nosso assunto é exatamente uma colônia peculiar de formigas, descoberta num
antigo depósito de armas nucleares dos tempos da Guerra Fria.
O depósito fazia parte de uma base
nuclear soviética localizada no obscuro vilarejo de Templewo, na Polônia, a cerca
de cinquenta quilômetros da fronteira com a Alemanha. O vilarejo é difícil de
encontrar até via Google, e apenas a
versão em francês da Wikipedia dá um
número para a população local, que seria de…sete habitantes em 2006. Também
pudera, já que está nas proximidades de uma base nuclear secreta que existiu por
mais de vinte e cinco anos e só foi desmantelada totalmente há menos de duas
décadas. Apesar desta infausta origem, os restos do complexo militar ficam em
meio a um rico ecossistema, devido aos numerosos pinheiros plantados estrategicamente
para disfarçar a instalação bélica. Nessa floresta há naturalmente uma profusão
de formigas disponíveis para fazer a felicidade de qualquer tamanduá que, porventura, emigrasse
clandestinamente para a Europa. Na falta dos nobres mamíferos da família Myrmecophagidae – que quer dizer
“comedores de formigas” – a vidinha dos insetos só vem sendo perturbada pela
atividade científica de biólogos como o polonês Wojciech Czechowski e o
finlandês Kari Vepsalainen, especialistas em comportamento e ecologia de
formigas.
Os dois lideraram o grupo de
pesquisadores que descobriu a tal colônia da espécie Formica polyctena, e os achados foram publicados na revista Journal of Hymenoptera Research em
agosto de 2016. Tudo começou quando os biólogos desrespeitaram os sábios ensinamentos
de suas respectivas mãezinhas, e entraram por um buraco escavado
clandestinamente através das grossas paredes de isolamento do depósito subterrâneo.
Não, senhora, não sei qual o nível de radiação que sobrou e também estimo
sinceramente que todos os que lá estiveram continuem com saúde. Dentro do bunker, em um cômodo estreito com dois
metros e meio de altura, encontraram um formigueiro com centenas de milhares de
formigas vivas e cerca de dois milhões de cadáveres de formigas mortas.
Examinando detalhadamente o ambiente e comparando com o lado de fora, os
pesquisadores descobriram que há um enorme ninho dessa mesma espécie de
formiga, habitado por milhões de insetos, bem em cima de uma tampa metálica, a
qual deveria servir para vedar um tubo de ventilação localizado exatamente no
teto do quartinho, mas que estava toda corroída por ferrugem. Durante as
expedições, eles flagraram formigas subindo pelas paredes e caindo do teto, e
concluiram que as que caiam do ninho de superfície através da tampa de
ventilação não conseguiam retornar à superfície e acabavam por se juntar à
colônia que, na ausência das lanternas dos pesquisadores, permanecia na
escuridão, ao contrário das formigas normais que pegam um solzinho maneiro
quando saem para passear fora dos ninhos.
E o mais estranho foi que, por mais
que procurassem, os pesquisadores não encontraram no depósito desativado nenhum
sinal de larvas nem de uma rainha, indicando que ali não há procriação, apenas
repopulação por formigas que caem do grande ninho de superfície e compensam a
morte de muitas das habitantes da colônia subterrânea. Ainda assim, os insetos,
todas fêmeas trabalhadoras, se comportavam como previsto na célebre fábula de
La Fontaine, incessantemente em ação construindo e reconstruindo partes do
ninho e buscando alimento, como se fosse uma colônia normal que não morasse num
buraco escuro, com um histórico macabro, sabe-se lá com que nível de
radioatividade residual e a poucos metros da nababesca colônia da superfície.
Qualquer semelhança com a organização social de inúmeras cidades por aí é mera
coincidência, não acha, minha senhora?...
O rabugento, que beberica um refrigerante
geladinho, confortavelmente instalado em sua chaise longue, está a matutar sobre esse trabalhão todo que
formigas sem futuro encaram sem parar, abstraídas da inutilidade de todo seu
esforço. E entre um gole e outro pensa “mas que bicho estúpido”. Porém, o
sabidinho ignora que essa mesma espécie de inseto foi, em 1996, protagonista de
outro artigo científico, dos cientistas russos Zhanna Rezhikova e Boris Ryabko,
da Universidad de Novosibirsk, na Sibéria, e que foi traduzido para o inglês na
revista Neuroscience and Behavioral
Physiology. Nesse estudo os pesquisadores, que são especialistas consagrados,
respectivamente, em comportamento de insetos sociais e em matemática aplicada, relataram
indícios de que formigas desta espécie são capazes de estimar números de
objetos e transmitir essa informação para outras da mesma colônia, coisa essa
que pode ajudar o exército de trabalhadoras a encontrar o necessário para
manutenção do ninho e alimentação da colônia. Durma-se com um barulho desses!
Ou seja, perto da Formica polyctena, a Formiga Atômica de
Hanna e Barbera é fichinha…
Rafael Linden
Muito interessante! [x]
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