segunda-feira, 20 de novembro de 2023

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A volta das cores no mundo cinzento

            Faz quase dois anos da chegada oficial da pandemia de COVID-19. E chove lá fora. Um dia cinzento, num mundo descolorido pelo vírus que nos trouxe incertezas e perdas de conhecidos e desconhecidos. Cá do telhado costumamos oferecer, aos nossos poucos e bons leitores, Ciência e Humor entrelaçados. Mas enquanto a bonança não vem, recorra-se ao léxico e mestre Houaiss nos lembrará que, pela ordem, antes de “comicidade em geral” Humor significa “estado de espírito ou de ânimo”, sem adjetivos. Daí sequer nos desculparmos ao confirmar que, nesse primeiro parágrafo, hoje reina o mau humor. Mau e cinzento, como se não houvesse futuro, não coubesse esperança e estivessem as cores para sempre perdidas.

            Só que não. Pois, de guarda-chuva aberto, aqui celebramos uma nova conquista da Ciência. Regozijamo-nos ao ler que, depois de um século cinzento, cores perdidas ressurgiram em obras de arte do reinventor do beijo. Saudosistas pra lá de maduros se apressarão a achar que falamos de roteiristas ou diretores de “O vento levou” ou “Casablanca”. Ledo engano. Décadas antes, o pintor austríaco Gustav Klimt declamara, em tela estática, um poema sem estrofes que celebrava o beijo como a mais valiosa de todas as manifestações humanas, majestosamente decorada em ouro.

            Porém, se hoje numerosas e multicoloridas obras do artista podem ser apreciadas em museus, galerias e telas de computadores, há aquelas que se perderam ao longo do tempo. Talvez algumas, em segredo, ainda enfeitem salões de abastados, mas outras se foram definitivamente. Entre elas, três pinturas que Klimt produziu a partir de 1894, como parte de uma encomenda do Ministério da Educação da Áustria. O contrato era destinado à decoração do teto do anfiteatro da Universidade de Viena, fundada no século XIV e alma mater de Freud, Boltzman, Mahler, Popper, Schroedinger e outras sumidades. 

Pois em pleno alvorecer do século XX, não é que os líderes da vetusta e respeitabilíssima entidade educacional repudiaram o vanguardismo de Klimt e exigiram que ele reformulasse as obras para um estilo tradicional! O artista ainda tentou suavizar, mas acabou se dando conta de que a capitulação não combinava com sua liderança da moderna e desaforadíssima Secessão Vienense. Daí mandou tudo às favas, graças ao socorro financeiro do seu patrono August Lederer, que devolveu o dinheiro adiantado pela Universidade e, provavelmente, ganhou um bom desconto ao comprar as pinturas. Essas, no entanto, junto com toda a coleção Lederer foram confiscadas de sua viúva pelos nazistas, armazenadas no Castelo de Immendorf por volta de 1943 e acabaram destruídas por um incêndio, ao que tudo indica proposital, em meio à retirada dos soldados alemães no último dia da segunda guerra mundial.

            Daquelas obras, intituladas MedicinaFilosofia e Jurisprudência, ficaram apenas relatos escritos e fotografias em preto e branco, prova de sua existência e, por muitos anos, emblema de tristeza e curiosidade de leigos que pouco sabemos da obra de Klimt até especialistas inconformados com a perda dos originais. Acontece que, por maior que seja a preocupação de adolescentes ou seus familares quanto à necessidade de uma profissão definida que lhe garanta o caviar de cada dia, o futuro não só chega sem roteiro mas teima em surpreender os incautos. E, como num conto de fadas, a combinação de habilidades de Franz Smola, curador do Museu Belvedere de Viena, e Emil Wallner, engenheiro da Google, levou a um feito extraordinário, a ressurreição do colorido das pinturas. 

Guiado por Smola, um especialista que conhece profundamente cada período das obras de Klimt, o engenheiro Wallner compilou informações provenientes de relatos da época e digitalizou centenas de milhares de fotos e dúzias de reproduções coloridas de outras pinturas do artista, datadas do período em torno da encomenda da Universidade. Os dados foram submetidos a um algoritmo, isto é, um conjunto de procedimentos que levam a uma solução lógica, desenvolvido por Wallner para uso da tecnologia de aprendizado de máquina em um computador poderoso. Assim conseguiu deduzir a cor mais provável para cada “pixel”, ou seja, cada pedacinho da pintura. A junção de campos aparentemente tão distantes na árvore do conhecimento tornou possível recompor cada detalhe das imagens e “recolorir” as pinturas. 

Isso tudo vem sendo abundantemente divulgado pelas midias, e quem quiser encontrará a história completa desta aventura extraordinária, bem como as imagens coloridas das três obras, em portais do Smithsonian Institute, do Google, do Museu Metropolitano de Nova Iorque, além de uma enxurrada de reportagens em jornais. A casa é sua, pensem o que quiserem. Mas, para finalizar, permitam-nos abrir uma cortina metafórica para, tão somente, celebrar o retorno das cores depois de oito décadas em que alegorias da Medicina, da Filosofia e da Jurisprudência permaneceram cinzentas. Encharcado de chuvas e receios em escalas que vão do municipal ao universal, tragédias que nos deixarão marcas por um tempo que nos parecerá infinito, ainda assim prefiro pensar que, eventualmente, o algoritmo certo nos levará de volta a um futuro colorido. 

            

              

Rafael Linden

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Explode formiguinha...

          O autor deste blogue é um cidadão perfeitamente equilibrado e isento de defeitos, haja vista sua incomensurável modéstia. Mas o blogue, dotado de personalidade própria, tem lá suas manias, entre as quais celebrar aniversários interessantes. Pois, neste ano da graça de 2018, comemoramos quarenta anos do lançamento do long play “Álibi”. Naquela antológica bolacha preta gravada por Maria Bethania consta, entre muitos sucessos, a faixa “Explode coração”, obra genial de Gonzaguinha. A música, composta por volta de 1977, embalou emoções de um amplo espectro de ouvintes, desde jovens revolucionários com suas sandálias fabricadas com sola de pneu usado, até fiéis telespectadores das novelas da TV, duas das quais, separadas por cerca de vinte anos, tocavam diariamente a canção como tema de personagens românticos criados por Janete Clair e Gloria Perez.
          Assim sendo, acendamos as velinhas, sopre-mo-las e devoremos a fatia do apetitoso bolo de laranja. Feito isso, deixemos o “coração” de lado e concentremo-nos no “explode”. Pois é isso que o blogue resolveu, por conta própria, oferecer à sua imensa platéia. Explosões. Não nucleares, acidentais ou criminosas, não é disso que se trata. E sim um tipo particular de explosão, de natureza biológica e muito curiosa, ainda que não menos trágica para seres vivos que literalmente estouram. Formigas. Isso mesmo, gentil leitora, formigas que explodem. Propositalmente. Coisa essa que já se sabia existir há mais de um século, desde que o entomologista alemão Hugo Viehmayer se deparou com esse estranho comportamento quando estudou formigas em Cingapura e relatou suas observações em 1916 na revista Archiv für Naturgeschichte.
          Sobre este assunto, há poucos meses a pesquisadora Alice Laciny, do Museu de História Natural de Viena, em conjunto com outros cientistas da Áustria, de Brunei e da Tailândia, divulgou na revista científica Zookeys seus estudos de formigas do grupo Colobopsis cylindrica, parte das quais tem o hábito de explodir, não o coração, mas glândulas que ejetam uma substância tóxica quando a formiga empina, com toda a força, a…o…ahn… o bumbum. Depois de um trabalhão estudando as formigas em um centro de pesquisa de campo em Brunei, Alice e seu colega Herbert Zettel concluiram que essa parcela de formigas explosivas merece ser tratada com uma certa deferência, e batizaram as bichinhas com o nome Colobopsis explodens. Se esse nome vai ou não vai “pegar” depende do eterno balanço de boa vontade, crítica construtiva e ciúmes de seus colegas cientistas, mas isso é assunto para zoólogos profissionais. Neste blogue, o que interessa mesmo é o comportamento inusitado das formiguinhas.
          Nem todas as Colobopsis são explosivas, apenas um grupo de formigas “trabalhadoras”, que diferem dos “soldados” e outras categorias dentre as componentes da numerosa população que se encontra nos formigueiros. Sacrificam-se pelo bem dos seus, um gesto análogo ao que é costumeiramente atribuído a um certo príncipe regente, o qual mandou dizer ao povo que ficaria por aqui mesmo, em nossa fração do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Como se tal reivindicação lhe tivesse sido encaminhada pelo povo propriamente dito, e não pelos grandes comerciantes e latifundiários escravocratas que estavam se dando muito bem com a boa distância da corte portuguesa. Sim, sim, tergiversamos e, diante do clamor da platéia, voltamos ao busilis.
          Então, a coisa funciona assim: uma das tarefas de uma humilde casta de formigas “trabalhadores” de baixo escalão, conhecidas como minor workers, é compor a linha de frente do exército que, volta e meia, precisa defender a colônia de hordas de inimigos. Indivíduos daquele grupo tem o hábito de, no campo de batalha, empinar o bumbum e mantê-lo pronto para, quando em desvantagem, contraí-lo com força suficiente para provocar o estouro do próprio corpo, que esguicha uma secreção viscosa, amarelada e tóxica, a qual mata os inimigos junto com a própria autora da explosão. Esse comportamento era bem conhecido dos nativos da região, que chamavam essas pobres coitadas de “gosma amarela”. Apesar de tóxica, a baba tem cheiro de caril (curry, para os adeptos da culinária indiana, iam, iam), mas duvidamos que alguém se arrisque a prová-la, muito menos usá-la como tempero num menu degustação.
          Analogias com terrorismo entre humanos são tristes e óbvias, mas não serão tratadas neste blogue. Sabe-se, no entanto, que outros insetos também usam o artifício de esguichar melecas químicas, como cupins que rompem glândulas nos seus próprios pescoços e secretam uma goma, que funciona como argamassa para seus próprios cadáveres selarem a entrada do cupinzeiro e assim impedirem a invasão de inimigos. Esse comportamento extremo das formigas, cupins e outros bichinhos explosivos, que a empáfia antropocêntrica de alguns de nós costuma classificar como “indefesos”, é chamada de autótise, derivada de palavras em grego que significam “auto-sacrifício”.
          Sei não, mas às vezes temos a impressão de que, assim como as formiguinhas explosivas, Dom Pedro de Alcântara teria pensado duas vezes antes de aceitar a autótise induzida por quem de fato manda nos pobres coitados que se submetem a esse suicídio altruista.


Rafael Linden


domingo, 15 de abril de 2018

Boné anti-virus

          Ô, me dá meu boné que eu já vou embora, porque brincadeira tem hora…” cantava Clementina de Jesus, no disco “Marinheiro Só” de 1973, a composição de Oswaldo Vitalino de Oliveira - o Padeirinho da Mangueira. Volta e meia aparecia um boné no meio artístico, como no programa humorístico “Me dá meu boné” da Radio Mayrink Veiga, comandado por Chico Anysio antes dele arrumar uma ponta na TV Rio e, daí por diante, tornar-se o que foi. Sem falar na expressão “pedir o boné”, comum mesmo para quem nunca o usou, muito menos na hora de largar o emprego por conta própria.
          Agora, em todo lugar se usa boné como acessório fashion, mas poucos se dão conta de que esse “item de vestuário” existe há quase um século e meio, desde que jogadores de beisebol começaram a usar chapéus com viseira para proteger os olhos da claridade. Aos poucos o modelito foi ficando parecido com o que hoje se vende no comércio e até vosso amado cronista usa um para se proteger do sol na careca, o qual – o boné, não o careca - é fabricado dum jeito que, dizem, bloqueia as perigosas radiações ultravioleta.
          Há quem abuse da empáfia, repetindo o bordão “o que vem de baixo não me atinge”, mas não conheço quem se arrisque a declarar imunidade contra o que vem de cima, como as coisas que às vezes despencam do céu sem aviso. Se a gentil leitora tiver a pachorra de consultar a Internet, vai achar relatos escabrosos dos mais variados objetos caídos do céu tais como minhocas, carne crua, cocô e até uma vaca inteirinha. De minhocas um bom boné ofereceria uma certa proteção, já de uma vaca...Há pouco, a humanidade passou pela angustiosa expectativa de saber onde cairia a estação espacial chinesa Tiangong-1, ao final de sua vida útil no espaço. Felizmente, a geringonça despedaçou-se ao re-entrar na atmosfera terrestre e seus fragmentos cairam no mar sem provocar vítimas humanas, embora o mesmo não se possa garantir para peixes e outros animais marinhos.
          Não é para menos que os geniais Albert Uderzo e René Goscinny, criadores dos quadrinhos de Asterix, descreveram o personagem Abracurcix, chefe da aldeia gaulesa onde morava o herói das historinhas, como um respeitável e corajoso líder que, no entanto, só tinha medo de uma coisa: que o céu caísse sobre sua cabeça. Pois agora os cientistas adicionaram mais uma preocupação ao valente Abracurcix e todos que se encontram pelas ruas, absortos nos seus afazeres cotidianos, passeando de braço dado com seu par ou correndo de cachorro bravo. Trata-se da chuva de virus. Façamos uma pequena pausa para o rabugento correr para o quarto, tirar do armário a capa de chuva com capuz, vesti-la e aninhar-se na espreguiçadeira encolhido em posição fetal debaixo de um guarda-chuva. Que diabo é isso? Está chovendo virus? Por que não saiu no jornal? Pois saiu, pelo menos no New York Times e, apesar da expectativa de uma saraivada de mensagens enviadas pelo Twitter por vocês-sabem-quem, não é “fêiquiníus”. É isso mesmo. Mas sosseguem, por mais que pareça a notícia não é alarmante.
          O jornal americano, na verdade, dá conta de um trabalho científico legítimo que foi publicado, na revista da Sociedade Internacional de Ecologia Microbiana, por um grupo de cientistas liderado pela espanhola Isabel Reche, da Universidade de Granada, e pelo canadense Curtis Suttle, da Universidade da Columbia Britânica. Os pesquisadores coletaram material depositado em filtros colocados em recipientes que ficaram expostos durante cerca de dois anos, no topo de uma montanha no sul da Espanha. A cada uma ou duas semanas o material era armazenado, novos filtros substituiam os usados e, ao final, tudo foi examinado em laboratórios dotados de equipamento e técnicas avançadas.
          Os estudiosos queriam ajudar a entender a dispersão a longas distâncias de aerosóis contendo bactérias e virus, como resultado de correntes de ar provenientes do deserto do Saara ou do Oceano Atlântico. Foram detectados microorganismos carreados pelos ventos, grudados em poeira desértica ou em matéria orgânica proveniente do oceano, mostrando que bactérias e virus “viajam” muito pela atmosfera antes de cair no solo. Esses resultados sugerem, por exemplo, uma razão plausível pela qual virus com características genéticas muito parecidas são encontrados em regiões do globo terrestre muito distantes umas das outras. Mas o que mais chamou a atenção dos jornalistas foi a quantidade de virus que “caiu do céu” nos recipientes usados para a coleta. Pasme a gentil leitora, foi da ordem de muitos bilhões de partículas virais por metro quadrado por dia! Ou seja, enquanto um leitor anônimo se deliciava com esta crônica, comodamente refestelado em sua cadeira de praia no terraço do prédio, à sua volta cairam alguns bilhões de virus, parte dos quais sobre sua respeitável careca.
          Acalmai-vos, porém, não há motivo para pânico. O trabalho não identificou os tipos de virus que andam a cair por aí, mas certamente uma fração ínfima deles é capaz de provocar qualquer transtorno para seres humanos, que dirá doenças com as quais nossa numerosa e respeitabilíssima platéia deva se preocupar. Além do que essa chuva de virus está por aí há muito, muito, muito tempo e cá estamos nós, alegres e felizes (tomara!) em que pese as agruras que existem pelo mundo. O rabugento pode fechar o guarda-chuva, tirar a capa impermeável e voltar a seus afazeres. Também não precisa correr às boas lojas do ramo perguntando, ansioso, se por acaso já chegaram os bonés anti-virus, porque brincadeira tem hora.

Rafael Linden


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ora (direis) beijar galinhas

          Ainda grogue do furdunço outrora conhecido como tríduo momesco, o qual de uns tempos para cá está mais para novena desvairada, retomamos a rotina com mais um item do cardápio de curiosidades deste planeta improvável. Não sem antes homenagear o poeta Olavo Bilac, que sobreviveu ao desprezo dos modernistas, por escrito ou declamado, entre outras nas formosas linhas do soneto XIII de seu livro Via Láctea - “Ora (direis) ouvir estrelas, certo perdeste o senso”. Pois, na esteira do finado Parnasianismo brasileiro, ainda é oportuno parodiar Bilac no título desta crônica. Afinal, em matéria de insensatez, comparado com beijar galinhas ouvir estrelas é pinto (queiram perdoar).
          A historinha não é delírio de vosso amado cronista, muito menos “feiquiníus”, pois não somos de botar chifre em cabeça de ave. Foi noticiada numa de nossas fontes prediletas de esquisitices, Atlas Obscura. Lá consta ter o insuspeito Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apurado que, dentre cerca de um milhão de notificações de gastroenterites causadas anualmente pela bactéria Salmonella naquele país, vem aumentando o número de casos atribuídos à criação de galinhas no quintal da própria casa. E, pasmem, cerca de um quinto dos doentes nesse último grupo tinham, recentemente, abraçado ou beijado suas galinhas. Uma verdadeira epidemia de amor.
          Antes que o leitor rabugento implique com a crônica por, nas palavras dele não nossas, “perder tempo com diarréia de gringo”, é bom lembrar que tal flagelo pode ocorrer com qualquer um e é mais comum do que se pensa. Os casos graves que levam as pessoas aos hospitais são uma minoria mas, ainda assim, constituem um problema sério. Por aqui as estatísticas do Ministério da Saúde registram números muito menores do que nos EUA, mas não se sabe exatamente como se compara entre os dois países a fração de casos de gastroenterites por Salmonella que não são notificados.
          Seja como for, este telhado não comporta aspectos epidemiológicos das doenças transmitidas por alimentos. O que nos deixa de boca aberta é esse negócio de beijar galinhas, expressão que, no nosso tempo que já vai longe, tinha outro sentido…interrompemos nossa transmissão por recomendação expressa de nosso departamento jurídico. Como íamos dizendo é recomendável que, por mais afeto que um criador de galinhas caseiras tenha para com suas aves, abstenha-se de beijá-las ou abraçá-las por conta do risco de ser infectado. Isso porque a Salmonella é comum nas fezes de galinácios que, ao contrário de nossa combalida espécie, são resistentes a doenças transmitidas por aquelas bactérias. Os microorganismos acabam se espalhando na poeira em torno das aves e ficam só esperando uma mão amiga para catapultá-las para um de nós. O CDC americano também recomenda abster-se da prática comum de dar pintinhos vivos de presente para crianças. É tão bonitinho, né? Mas acontece que pintos em geral tem mais chance ainda de carregar Salmonella nos seus corpinhos amarelinhos, que cabem aqui na minha mão, na minha mão.
          Então taí, gente boa. Não faremos deste espaço campo de batalha entre Parnasianos e Modernistas, mas deixaremos por hoje, para nossa imensa platéia, o conselho de abolir, junto às simpáticas e comestíveis aves, arroubos como o retumbante brado de Bilac - “E eu vos direi: amai para entendê-las!”. Ou pelo menos, se for irresistível, amai vossas galinhas vivas a uma certa distância.

Rafael Linden

          

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Pimenta na ópera dos outros não arde

          O ofício de cronista amador tem altos e baixos. Se por um lado frustra-nos a distância astronômica que nos separa de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e outros bambas do gênero, por outro a consciência de nossa desimportância permite escarafunchar qualquer porcaria que valha uma crônica. Afinal nenhum jornal, muito menos a Internet, nos paga pelo crime de lesa-literatura que cometemos regularmente. E, se ainda há quem acompanhou o texto até esta linha, já podemos nos dizer mais lidos do que muita gente por aí. Queiram então reclinar seus assentos e relaxar, pois o garimpo habitual rendeu um par de reportagens curiosas sobre um nobilíssimo gênero musical.
          Uma notícia veio do portal Atlas Obscura, que ofereceu acesso a pedacinhos da ópera “espacial” Rigel 9, composta pelo músico britânico David Bedford para um libretto escrito por uma autora norte-americana chamada Ursula Le Guin. O texto que acompanha as gravações de uns poucos compassos foi escrito poucos dias após o falecimento de Ursula, a qual, ali aprendemos, foi muito conceituada e premiada no campo da ficção científica e literatura fantástica. As amostras não nos animam a buscar a obra completa no serviço de música digital Spotify, já que em matéria de ópera limitamo-nos, em geral, a apreciar certas overtures e uma ou outra ária. É bem verdade que, há quase uma década, encantamo-nos com uma bela apresentação de Fausto, de Gounod e Berlioz, na Ópera Lírica de Chicago. Porém, no dia seguinte nos deu muito mais prazer o jazz tocado em um clube próximo ao hotel. Ainda assim nenhum cronista que se preze, mesmo um tanto operafóbico, consegue resistir à segunda notícia.
          Trata esta de uma ópera bufa do século XIX que atraiu multidões a teatros nos Estados Unidos. Composta por um certo George Chadwick para um libretto de Robert Barnet, a peça é intitulada “Tabasco: uma ópera burlesca” e versa sobre – isso mesmo – um molho inventado nos EUA, feito à base de pimenta, também vendido em supermercados aqui mesmo no Brasil. Ora vejam, em meio ao espectro operístico que vai do trágico de Madame Butterfly ao cômico do Barbeiro de Sevilha, não é de arrepiar dar de cara com uma ópera dedicada a um condimento? Pois tal assunto foi tratado com a maior seriedade pelo respeitável portal do Smithsonian Institute, entre outras razões por conta do trabalho insano de reconstituição da partitura pelo maestro Paul Mauffray.
          “Tabasco…” é ambientada em uma ilha próxima à costa mediterrânea da Tunísia, e conta a história de um Paxá enfurecido com um jantar insosso que lhe foi servido. Quando isso acontece, o potentado costuma punir seus cozinheiros decapitando-os a golpes de cimitarra. Instado a resolver o problema de uma vez por todas, um ministro salva-se à custa de um irlandês que finge ser um chef francês, capaz de produzir iguarias deliciosas temperadas com um elixir mágico. Esse último não passa do molho de pimenta da marca Tabasco. Este palpitante enredo é decorado com uma historinha de amor entre uma jovem escravizada para servir no harém do Paxá e um marinheiro que planeja salvá-la daquela humilhação e desposá-la. Fofo, não?
          Pois, com esse libretto que oscila entre o inusitado e o ridículo, não apenas a opereta fazia enorme sucesso por volta de 1894, quando foi composta, como a New Orleans Opera topou bancar o projeto do maestro Mauffray e apresentou quatro sessões de “Tabasco…” no final de janeiro de 2018. Com casa lotada e elogios dos críticos. Tenho dúvidas sobre a chance de outras companhias repetirem a façanha, já que Nova Orleans é mesmo uma cidade sui generis para os EUA, com seu caráter cosmopolita, tradições marcantes, comida picante e estilo próprio. Assim como muitas heroínas das óperas mais famosas, a cidade é sofrida, tendo sido em boa parte reconstruída depois da trágica passagem do furacão Katrina em 2005. A fábrica principal dos produtos Tabasco persiste até hoje no sul da Louisiana, a cerca de duzentos quilômetros de Nova Orleans, um lugar que parece mesmo perfeito para sediar a ressurreição de uma ópera bufa.
          Portanto, caros leitores, da próxima vez que resolverem temperar sua comida com um bom Tabasco, lembrem-se de que estão lubrificando prosaicas salsichas com a inspiração de uma ópera. Sugiro que, a título de homenagem, cantarolem ao menos o trechinho que aí vai, traduzido para o idioma de Camões e Zeca Pagodinho: “…comprem-me temperos, os preços estão baixos, canela de Zanzibar, aqui está a pimenta do Ceilão, pepinos e tomates frescos, cebolas de Bermuda…”. Acreditem, tudo isso consta de versos originais da música devidamente interpretada por sopranos, contraltos, tenores e baixos, vestidos a caráter e, é claro, compenetrados como em qualquer outra ópera.
          Numa hora dessas, imagino amantes do bel canto bufando de indignação pela ousadia do maestro Mauffray. Vislumbro faces desfiguradas e vermelhas como se tivessem subitamente ingerido um punhado das temíveis pimentas Dragon’s Breath. Não bastasse o que para muitos já é o insulto de uma ópera “espacial” dedicada a um planeta imaginário, ainda aparece um molho, encontrado em lanchonetes furrecas espalhadas por aí, elevado ao pedestal em que reina o sofrimento de Floria Tosca, Violetta Valéry ou Cio-Cio-San.


Rafael Linden

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Michelangelo vai às compras

          A semana começou com uma cerimônia de premiação de cinema e televisão nos Estados Unidos, cujo tom foi dado pela campanha internacional contra o assédio sexual e pelo empoderamento das mulheres em todos os níveis. De início deliciemo-nos com o termo “empoderamento”, com sorte criar-se-á alguma polêmica linguística entre nossos leitores. Pois há na internet quem garanta que a palavra, que traduz do inglês o substantivo empowerment, foi criada por Paulo Freire e está em dicionários badalados como o Aurélio e o Houaiss. Cá no telhado, lamentavelmente, não consta do Houaiss, nem do dicionário etimológico da língua portuguesa de Antonio Geraldo da Cunha, nem do vocabulário ortográfico do mesmo autor, todos editados mais de uma década após a morte do educador citado como inventor do neologismo. A palavra sequer dá as caras no portal do vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras! Mesmo assim, como um dia já escrevemos impunemente uma crônica sobre “espertofones”, fica o empoderado pelo não-empoderado e vamos em frente.
          Ainda antes que vosso amado cronista passe do introito ao busílis, advertimos que o longo e tenebroso primeiro parágrafo está lá para justificar nossa cautelosa atribuição ao leitor rabugento, e não à gentil leitora, de mil histórias sobre visitas ao supermercado, desde a importância de comparar preços - como está a carestia, né? -, até o encontro com alguma celebridade disfarçada com óculos escuros, peruca e outros adereços. A cautela nos foi aconselhada pelo departamento jurídico do blogue, por motivos óbvios. Só então revelamos que a presente obra prima da literatura mundial versa sobre lista de compras.
          Numa hora dessas, nos vem à mente um genial filme alemão - quase todo falado em inglês – de 1989, chamado “Rosalie vai às compras”. É uma hilariante sátira do consumismo, ambientada numa cidadezinha do interior de Arkansas, nos EUA, e magistralmente interpretada pelo elenco encabeçado pela atriz Marianne Sagerbrecht. Embora Rosalie, a personagem principal, tivesse compulsão por compras de todos os tipos, uma de suas manias era encher carrinhos de supermercado com iguarias variadas, tais como um bagre gigantesco ou uma cabeça de porco, além de montanhas de ingredientes destinados a prover sua numerosa família com refeições pantagruélicas, preparadas por um dos filhos que sonhava tornar-se um chef.
          Assim, pelos habituais caminhos tortos, finalmente honraremos o título da crônica. Na verdade nosso texto trata de um curto artigo encontrado num portal de reportagens não usuais, quando não francamente esdrúxulas, denominado Atlas Obscura. Lá, na categoria raridades, encontra-se a lista de compras de ninguém menos do que o toscano Michelangelo Buonarroti, uma das maiores figuras da história da arte universal, autor das esculturas de David e da Pietà, bem como da maravilhosa pintura do teto da Capela Sistina, entre muitas outras obras. Sim senhora, uma prosaica lista de compras, autêntica. E de um objeto criado por ninguém menos, naturalmente se espera nada menos. De fato, a lista vem decorada com desenhos feitos pelo artista, ilustrando os acepipes que, presume-se, teria ele mandado um servo analfabeto buscar no mercado da cidade. A lista com os desenhos foi rabiscada no verso de uma carta e sua sobrevivência é surpreendente, já que Michelangelo teria destruído ou mandado destruir quase todos os seus documentos provisórios, incluindo os esquemas originais de suas obras. Consta que o artista era um homem solitário, melancólico e de hábitos extremamente modestos. Sua propalada frugalidade, no entanto, não combina com a opulência do banquete que a lista de compras sugere, na qual se encontram os nomes e respectivos desenhos de pães, peixes, saladas, raviolis e vinhos em profusão. Coerente com a data da carta, o pacote compunha um belo cardápio de Páscoa, no melhor estilo da nobreza toscana da época.
          Pois é, galera, até mesmo um gênio das artes precisa comer de vez em quando. Não é à toa que, nessa estranha Renascença contemporânea que vem ressuscitando tantas coisas que achávamos devidamente enterradas no lixo da História, celebridade no supermercado é assunto sério nas redes sociais. Lá abundam flagrantes de “famosos” empurrando carrinhos, escolhendo frutas e legumes, examinando estantes de guloseimas e, nos intervalos, posando para selfies com funcionários do estabelecimento. A propósito, por que cargas d’água estivemos a polemizar com “empoderamento” e ainda não apareceu um Paulo Freire para traduzir selfie? Seja como for, uma rápida busca mostrou incontáveis instantâneos de membros de duplas sertanejas, suas ocasionais namoradas curvilíneas e sorridentes, atores atrozes e atrizes atópicas de cinema, teatro ou televisão, políticos do bem e do mal, e outros ícones das páginas de inutilidades jornalísticas. Uns se vestem como para uma ocasião de gala, outros ostentam roupas cuidadosamente desleixadas, as quais nossas avós sequer usariam para tirar o pó da mesinha de cabeceira. As fotos são acompanhadas de legendas palpitantes sobre o cardápio da casa do fulano, o segredo da maciez da cútis da sicraninha, a gracinha que ficou a beltrana dentro do carrinho empurrado por seu eterno amor, ou a simpatia cativante da celebridade que se mistura alegremente com os eufóricos circunstantes. Tem até página do fêice criada exclusivamente para emoldurar gente televisiva fazendo compras em um determinado estabelecimento. Nesse clima, será que a lista de compras de Michelangelo ainda tem alguma chance de bombar na rede?
            O tempora, o mores…


Rafael Linden