Deu nos jornais do Rio de Janeiro. Na
sexta-feira, oito de fevereiro, ao meio dia, o prefeito do município entregou
ao Rei Momo as chaves da cidade, inaugurando o carnaval de 2013. No fim da
tarde, em uma rua pacata do bairro de Marechal Hermes, uma mulher de meia-idade
foi assassinada com cinco tiros por um homem que bateu à sua porta com um buquê
de flores.
O que tem uma coisa a ver com a
outra? Talvez nada, admito. Mas, em meio à bandalheira ética que assola a
pátria amada, não consigo apagar a idéia de que a presença ostensiva do poder
público no carnaval é apenas mais uma oportunidade de usar pirotecnia para disfarçar
a esculhambação em que se transformou nossa política. Assim como as flores suburbanas
esconderam a arma de fogo, quase todo dia somos brindados com um buquê sob o
qual se esconde uma maracutaia criminosa.
Deixemos, porém, a política de lado
pois um crime de morte premeditado já é desgraça suficiente, não só para a
vítima, sua família e amigos, mas para qualquer um que valorize a vida. Ainda
por cima, ao atrair a vítima com as flores o assassino usou de um requinte de
crueldade que deveria acrescentar ainda mais tempo à sua pena, se é que um dia ele
virá a ser identificado, preso e condenado. Mais uma semelhança com, bem, vocês
entendem.
Flores exercem um fascínio particular
sobre as pessoas. Antecedendo de muito a era dos buquês românticos, há indícios
de arranjos florais em vasos egípcios datados de vinte e cinco séculos antes da
era cristã. Na Europa, desde o século XVI deixaram de ser usadas exclusivamente
em poções medicinais ou na culinária e começaram a ser empregadas na decoração do
trajeto de procissões religiosas, em igrejas, palácios e residências. Pouco
depois, passaram a fazer parte de funerais e casamentos e, no século XVII, tornaram-se
adornos pessoais. Por aí se vê que, quando Scott McKenzie cantou San Francisco (be sure to wear flowers in
your hair), no Festival de Monterrey em 1967, reviveu uma tradição de mais
de trezentos anos. E a canção tornou-se um hino dos hippies que migraram para a California no final dos anos sessenta,
bem como dos jovens que participaram da Primavera de Praga.
Conta-se que, a partir do século
XVIII, as flores passaram a ser usadas como presentes, quando o rei Carlos Ii
da Suécia trouxe da Pérsia o costume de lhes atribuir signficados particulares,
a chamada “linguagem das flores” que se tornou um hábito na Inglaterra
vitoriana do século XIX. Cada uma e, dentre as da mesma espécie, cada cor tem
um significado, embora haja controvérsias em alguns casos. Portanto, se o
estimado leitor quiser enviar flores para alguém, deve consultar as tabelas de
significado, pois a destinatária pode ser versada em floriografia e uma rosa
vermelha, uma tulipa ou uma orquídea talvez venham a ser mal interpretadas.
Nota-se ainda nos
jornais ou nas páginas de notícias que deram destaque ao crime, a omissão de
que flores havia no arranjo. O noticiário especula sobre um romance mal
resolvido e quem sabe o buquê simbolizasse uma despedida macabra. Mas também
é possível que o assassino simplesmente soubesse, ou apenas imaginasse, quão
irresistível seria um buquê para a infeliz vítima. Seja como for, a omissão é
bem-vinda. É triste pensar que as flores do buquê da sexta-feira de carnaval pudessem,
a partir daí, ser identificadas com um significado tão trágico.
Rafael Linden