O autor deste blogue é um cidadão
perfeitamente equilibrado e isento de defeitos, haja vista sua incomensurável
modéstia. Mas o blogue, dotado de personalidade própria, tem lá suas manias,
entre as quais celebrar aniversários interessantes. Pois, neste ano da graça de
2018, comemoramos quarenta anos do lançamento do long play “Álibi”. Naquela antológica bolacha preta gravada por
Maria Bethania consta, entre muitos sucessos, a faixa “Explode coração”, obra
genial de Gonzaguinha. A música, composta por volta de 1977, embalou emoções de
um amplo espectro de ouvintes, desde jovens revolucionários com suas sandálias fabricadas
com sola de pneu usado, até fiéis telespectadores das novelas da TV, duas das
quais, separadas por cerca de vinte anos, tocavam diariamente a canção como
tema de personagens românticos criados por Janete Clair e Gloria Perez.
Assim sendo, acendamos as velinhas,
sopre-mo-las e devoremos a fatia do apetitoso bolo de laranja. Feito isso,
deixemos o “coração” de lado e concentremo-nos no “explode”. Pois é isso que o
blogue resolveu, por conta própria, oferecer à sua imensa platéia. Explosões.
Não nucleares, acidentais ou criminosas, não é disso que se trata. E sim um
tipo particular de explosão, de natureza biológica e muito curiosa, ainda que
não menos trágica para seres vivos que literalmente estouram. Formigas. Isso
mesmo, gentil leitora, formigas que explodem. Propositalmente. Coisa essa que
já se sabia existir há mais de um século, desde que o entomologista alemão Hugo
Viehmayer se deparou com esse estranho comportamento quando estudou formigas em
Cingapura e relatou suas observações em 1916 na revista Archiv für Naturgeschichte.
Sobre este assunto, há poucos meses a
pesquisadora Alice Laciny, do Museu de História Natural de Viena, em conjunto
com outros cientistas da Áustria, de Brunei e da Tailândia, divulgou na revista
científica Zookeys seus estudos de
formigas do grupo Colobopsis cylindrica, parte
das quais tem o hábito de explodir, não o coração, mas glândulas que ejetam uma
substância tóxica quando a formiga empina, com toda a força, a…o…ahn… o bumbum.
Depois de um trabalhão estudando as formigas em um centro de pesquisa de campo
em Brunei, Alice e seu colega Herbert Zettel concluiram que essa parcela de
formigas explosivas merece ser tratada com uma certa deferência, e batizaram as
bichinhas com o nome Colobopsis explodens.
Se esse nome vai ou não vai “pegar” depende do eterno balanço de boa vontade,
crítica construtiva e ciúmes de seus colegas cientistas, mas isso é assunto
para zoólogos profissionais. Neste blogue, o que interessa mesmo é o
comportamento inusitado das formiguinhas.
Nem todas as Colobopsis são explosivas, apenas um grupo de formigas
“trabalhadoras”, que diferem dos “soldados” e outras categorias dentre as
componentes da numerosa população que se encontra nos formigueiros. Sacrificam-se
pelo bem dos seus, um gesto análogo ao que é costumeiramente atribuído a um
certo príncipe regente, o qual mandou dizer ao povo que ficaria por aqui mesmo,
em nossa fração do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Como se tal
reivindicação lhe tivesse sido encaminhada pelo povo propriamente dito, e não
pelos grandes comerciantes e latifundiários escravocratas que estavam se dando muito
bem com a boa distância da corte portuguesa. Sim, sim, tergiversamos e, diante
do clamor da platéia, voltamos ao busilis.
Então, a coisa funciona assim: uma
das tarefas de uma humilde casta de formigas “trabalhadores” de baixo escalão, conhecidas
como minor workers, é compor a linha
de frente do exército que, volta e meia, precisa defender a colônia de hordas
de inimigos. Indivíduos daquele grupo tem o hábito de, no campo de batalha, empinar
o bumbum e mantê-lo pronto para, quando em desvantagem, contraí-lo com força
suficiente para provocar o estouro do próprio corpo, que esguicha uma secreção
viscosa, amarelada e tóxica, a qual mata os inimigos junto com a própria autora
da explosão. Esse comportamento era bem conhecido dos nativos da região, que
chamavam essas pobres coitadas de “gosma amarela”. Apesar de tóxica, a baba tem
cheiro de caril (curry, para os
adeptos da culinária indiana, iam, iam), mas duvidamos que alguém se arrisque a
prová-la, muito menos usá-la como tempero num menu degustação.
Analogias com terrorismo entre
humanos são tristes e óbvias, mas não serão tratadas neste blogue. Sabe-se, no
entanto, que outros insetos também usam o artifício de esguichar melecas
químicas, como cupins que rompem glândulas nos seus próprios pescoços e secretam
uma goma, que funciona como argamassa para seus próprios cadáveres selarem a
entrada do cupinzeiro e assim impedirem a invasão de inimigos. Esse
comportamento extremo das formigas, cupins e outros bichinhos explosivos, que a
empáfia antropocêntrica de alguns de nós costuma classificar como “indefesos”,
é chamada de autótise, derivada de palavras em grego que significam
“auto-sacrifício”.
Sei não, mas às vezes temos a
impressão de que, assim como as formiguinhas explosivas, Dom Pedro de Alcântara
teria pensado duas vezes antes de aceitar a autótise induzida por quem de fato
manda nos pobres coitados que se submetem a esse suicídio altruista.
Rafael Linden