Há poucos dias, ao circular a notícia
de uma complexa operação para dedetizar o prédio de nosso instituto, ouvi uma
pesquisadora contar, com indisfarçável orgulho, um episódio de que foi
protagonista. Andava ela por um corredor no sentido contrário àquele de onde
vinha uma estudante, quando se depararam com uma robusta barata a meio caminho
entre as duas. Ato contínuo, a pesquisadora mandou o inseto desta para melhor
com um pisoteio certeiro, para surpresa da outra moça que, ante o perigo
iminente, só não se atirara escada abaixo porque o infausto evento ocorreu no
subsolo. A jovem, mal refeita do pânico, ainda cumprimentou efusivamente a
pesquisadora por sua coragem ao enfrentar inimigo tão temido por senhoras e
senhoritas mundo afora.
Sim, sim, cara leitora, eu sei que
isso não é nada, a senhora também não tem medo de barata, só nojo. E, se
necessário for, empunhará galhardamente as castanholas e sapateará sem dó nem
piedade sobre a asquerosa criatura ao ritmo da Buleria interpretada por Paco de Lucía com sua imponente guitarra
flamenca, olé! Entretanto, aqui no
telhado os malfadados insetos não sobem e, por isso, nos inspiram apenas a
celebrar um insólito exemplar de pesquisa científica, voltado para a
personalidade das - ora vejam - baratas.
Isso mesmo, e não se trata de notícia
fajuta na seção de curiosidades mundanas de algum jornaleco, mas sim de um
artigo científico legítimo, no volume de março de 2015 da revista Proceedings of the Royal Society, a qual
é editada pela respeitável Academia Real de Ciências da Grã-Bretanha há mais de
duzentos anos. O trabalho foi encabeçado pelo estudante de doutorado Isaac
Planas, membro do grupo do cientista belga Jean-Louis Deneubourg, que vem pesquisando
o comportamento social em insetos há mais de quarenta anos. Uma das proezas do
Professor Deneubourg com sua equipe da Universidade Livre de Bruxelas, foi
outro estudo publicado há alguns anos na icônica revista Science, relatando a incorporação de robozinhos de tres ou quatro
centímetros a uma comunidade de baratas, que os aceitou e adotou como membros
do grupo, compartilhando com as maquininhas decisões coletivas sobre busca de
abrigo em locais escuros. Inseto na mão de profissional não é biscoito,
concorda, madame?
Voltando à vaca, ou à barata
fria, como queiram, o quase-doutor Planas partiu do conceito já estabelecido
entre os especialistas, de que decisões coletivas dependem de redes de
interações sociais, mas ponderou que, de modo geral, os estudos da dinâmica
coletiva negligenciam o papel da personalidade individual de cada membro do
grupo. Por isso, formulou um modelo matemático e experimentos nos quais
examinou, ao longo de uma semana, o comportamento de cerca de
trezentas baratas, divididas em dezenove grupos de dezesseis indivíduos cada…e,
a esta altura, metade do fã-clube feminino deste blog já saiu atrás de um
comprimido para náusea. Aguardemos o retorno de todas, fiéis que são a este
humilde cronista, e logo prosseguiremos.
…pois então, dizia eu que o
pesquisador examinou individualmente o comportamento das baratas. Individualmente?
Como? Simples, cada uma delas tinha colado no corpo um micro-chip de
identificação por radiofrequência, cujo código era registrado por um sensor.
Definitivamente, barata com CPF não é coisa para amadores. A tarefa das bichinhas,
no entanto, era simples. De cada vez, um grupo de dezesseis era colocado no
centro de uma área circular, na qual havia dois abrigos idênticos cobertos por
filmes escuros. Sabemos todos que durante o dia as baratas se escondem em
locais escuros e, no caso, elas podiam escolher qualquer um dos dois abrigos.
De modo geral, ao longo de três horas
de teste, a maioria dos bichos escolhia um dos dois abrigos e lá ficava, com o
chip informando o tempo todo a localização de cada um. Mas, quando o
pesquisador examinou a trajetória e a velocidade com que cada barata chegava ao
abrigo, e o tempo em que ela permanecia por lá, verificou que cada uma tinha um
comportamento distinto, o qual se repetiu em três experimentos realizados na
segunda, quarta e sexta-feira ao longo de uma semana. Esse comportamento
específico, repetitivo e individual de cada barata foi interpretado como
“personalidade”. Os resultados mostraram também que a “personalidade” de cada
componente de um grupo influenciava o comportamento das demais, adicionando um
componente que o pesquisador chamou de “amplificação
social”. Porém, somente a combinação desses dois fatores foi suficiente para
explicar o comportamento de cada grupo.
Os próprios autores acharam surpreendente essa
robustez de “personalidade”, porque o tipo de comportamento
observado era uma resposta ao estresse do ambiente que, naquelas condições,
costuma ser relativamente padronizada; os
bichos eram geneticamente semelhantes; e todos eram machos de idades bem
próximas. Ou seja, tudo conspirava contra a descoberta de “personalidades”, mas
foi o que ocorreu. Evidentemente, “Maria” até pode ir, mas barata não “vai com
as outras” com tanta facilidade…
Superada a crise de asco provocada
pelo assunto, o rabugento pergunta como sempre: e daí? E prossegue na diatribe,
dizendo que todo mundo sabe da importância de características individuais na
geração de um comportamento social. Mas a gentil leitora, por acaso, esperava
isso de baratas? Então, se até entre esses bichos tão desprezados cada
componente do grupo mantém suas características individuais, por que diabos a
cada dia que passa nos aumenta a impressão de que tantos grupamentos de outra
espécia animal, dita a mais inteligente, evoluída e dominante, se comportam
como manadas amorfas?
Rafael Linden
Tampouco pouco compreender essas manadas amorfas...
ResponderExcluirpois é...
ExcluirExcelente texto como sempre Rafael! Fico me perguntando se a porcentagem de personalidades se mantinha semelhante entre os diferentes grupos de 16 baratas. Tipo, se para cada grupo, 15% eram mais lentas em sair dos abrigos, 30% costumavam errar de abrigo no segundo dia de testes e se 5% eram ousadas e ficavam muito tempo no claro... Coisas assim. Vou tentar baixar esse artigo para ler! Muito interessante... Adoro esse tipo de peculiaridade... Me faz pensar em epigenética, "anomalias" de desenvolvimento, aleatoriedade natural inerente à vida e afins... Mas ao mesmo tempo que as individualidades são necessárias para uma sociedade, seja de abelhas ou de pessoas, é necessária uma ressonância que transforme os indivíduos numa manada (mas não amorfa), para que a sociedade de indivíduos consiga sobreviver e vencer os desafios, garantindo a sobrevivência da espécie. Pensemos também que: se na sociedade, todos fossem indivíduos muito únicos, especiais, peculiares, floquinhos raros de neve, de personalidades insubstituíveis, procurando incansavelmente por fama e autoafirmação, o resultado também seriam: manadas amorfas. A manada ganha forma pela similaridade entre os indivíduos, e não pelas diferenças, não acha?
ResponderExcluirAcredito que a ressonância a que o distinto Anônimo se refere deve corresponder à "amplificação social", que coopera com as "personalidades". De resto, o problema com a manada amorfa, certamente, está essencialmente no adjetivo...
ExcluirInterpretar o comportamento de uma barata como “personalidade” é sensacional! he he
ResponderExcluirNão é qualquer barata. Cada uma tem seu CPF...
Excluir:-)
ha ha ha ha... show de bola o texto!
ResponderExcluirObrigado, Edmundo. Volte sempre!
ExcluirChama-me a atenção, muito mais que tudo, embora tudo esteja bom, a linguagem do autor. Coisa fina, parabéns!
ResponderExcluirObrigado, volte sempre!
ExcluirR
Quando a realidade torna-se ficção. Sabe que me identifiquei com a protagonista do texto? Digo a pesquisadora, não a barata. Ainda bem que a tal barata não tinha tanta personalidade... bjs Juliana
ResponderExcluirOs personagens das fábulas são anônimos...
Excluir:-)
Olá Rafael, como está meu amigo.
ResponderExcluirSobre o banner solicitado por você no turbonauta: o ideal seria você colocar um link simples , apenas para facilitar a sua ida ao agregador,pois se eu fizer outra imagem vai dar no mesmo problema.
Qualquer coisa você me fala, até mais
Obrigado, Alfredo. Vou providenciar o link simples.
ExcluirAbraço
Rafael