sábado, 28 de dezembro de 2013

Carícia de mulher e paz nos estádios

          Queiramos ou não, um dos assuntos do momento é o pau que come solto nas arquibancadas da pátria amada. Para esclarecer de antemão, falamos de futebol. Apesar de briga entre torcidas organizadas não ser nenhuma novidade, a transmissão ao vivo e em cores da pancadaria que abrilhantou um sonolento jogo entre o Atlético Paranaense e o Vasco da Gama, realizado em Joinville no início de dezembro, causou comoção nacional e preocupa as autoridades esportivas. Pensando bem, isso não quer dizer nada, porque “autoridade preocupada” é o que não falta por aí sem consequência alguma, como demonstra a infalível repetição de nossas tragédias pluviais.
          No entanto, como estamos a menos de seis meses da próxima Copa do Mundo, as tais autoridades subitamente se deram conta de que torcidas organizadas às vezes se organizam mesmo é para torcer o pescoço dos outros. E tome entrevista coletiva, pronunciamento e mesa redonda com farto cardápio de indignações, interpretações sociológicas, culturais, políticas e psiquiátricas, apelos dramáticos e garantias de policiamento, identificação, proibição, cadeia e tudo o mais que, até parece, jamais nos ocorreu.
          Então, para não ficar de fora deste caloroso e, provavelmente, inócuo debate, vosso cronista predileto vem a público oferecer sua inestimável contribuição. Diretamente das cabines de imprensa, já instaladas no telhado para cobertura dos palpitantes eventos esportivos de que a nação será orgulhosa anfitriã, explicaremos a causa e informaremos a solução definitiva para a violência nos estádios, cujos protagonistas quase sempre são truculentos homens feitos que deviam ter ao menos um pingo de juízo.
          Em poucas palavras, a causa é falta de mulher e a solução é carinho feminino. E aí vai um pouco de Ciência por trás dessa inequívoca conclusão. Como se fosse de encomenda, esta semana foi publicado na revista científica Nature Neuroscience um artigo muito interessante sobre agressividade. Os autores do trabalho são Quan Yuan, Yuanquan Song, Chung-Hui Yang, Lily Yeh Jan e Yuh Nung Jan, os quais, é óbvio, são todos cientistas da…Universidade da California em San Francisco. Os chefes da equipe, o casal Lily e Yuh Jan, pesquisam há quarenta anos o desenvolvimento e a plasticidade do sistema nervoso, usando como modelo de estudo a mosquinha da banana – que atende pelo nome de Drosófila. Desta forma descobriram uma infinidade de características genéticas e funcionais que foram, ao longo dos anos, redescobertas ou comprovadas em outras espécies animais, inclusive em humanos.
          Não sei se o Doutor Yuh é vascaíno, mas o fato é que o grupo de pesquisa resolveu, agora, estudar a agressividade, um comportamento universal e importante para a sobrevivência individual e a organização social de grupos de animais, desde a aranha d’água – aquele bichinho que caminha na superfície de poças, também chamado de “inseto-Jesus” – até nós todos, inclusive o simpático casal que ora nos lê na tela do computador de rostinho colado e curiosidade aguçada. Ora, direis, mosquinha agressiva? Pois assim se espanta quem nunca viu dois machos de Drosófila a trocar socos e pontapés para resolver quem pega a fêmea que esvoaça faceira, fazendo visage e passando rasteira. E, entre outras características da mosquinha que a tornam um modelo riquíssimo para pesquisa genética, há métodos consagrados para quantificar vários de seus comportamentos. Ou seja, um observador treinado é capaz de dar notas para a agressividade e verificar se algum evento consegue diminui-la ou aumenta-la mais ou menos do que outro evento.
          Para começar, não foi surpresa que dois machos mostram-se mais agressivos um com o outro quando estão na presença de uma fêmea do que na ausência desta. Quando eles estão sós há escaramuças para definir territórios ou hierarquia, mas na presença de fêmeas há um fortíssimo componente de agressividade de causa sexual. Porém, o mais interessante foi o que aconteceu quando os pesquisadores deixaram machos em contato com fêmeas por 24 horas, antes de colocá-los na presença de outro macho e de outra fêmea. Os felizardos ficaram muito menos agressivos do que os que tinham passado o dia anterior solitários. E mais, os pesquisadores mostraram que essa diminuição da agressividade era provocada por substâncias que funcionam como atratores sexuais – chamados feromônios – que passam das fêmeas para os machos através de contato físico entre o casal de mosquinhas, não necessariamente durante a cópula e sim durante as “preliminares”. Sim, minha senhora, até mosquinha de banana pratica preliminares, pode contar para seu marido porque é mais ou menos assim mesmo. Ou seja, carícia de mosca fêmea diminui a agressividade do seu respectivo macho.
          O estudo é muito mais amplo, pois os cientistas fizeram ainda diversos experimentos genéticos, bioquímicos e funcionais até desvendar boa parte dos mecanismos envolvidos nesse efeito do contato físico entre machos e fêmeas. Mas não vou cansá-los com detalhes. Apenas ressaltamos que este trabalho mostra claramente o que fazer para diminuir a violência nas arquibancadas. Basta que namoradas, esposas, amantes ou quaisquer outras mulheres na vida dos torcedores fanáticos os acariciem antes que os mesmos partam para os estádios. Afinal, não foi à toa que, há novecentos anos, o poeta Omar Khayyam escreveu – ou a ele se atribui - ”os sábios não te ensinaram coisa alguma, mas a carícia dos longos cílios de uma mulher poderá revelar-te a felicidade”. As mosquinhas aprenderam. Há uma chance, embora remota, de que o cérebro dos trogloditas que protagonizam espetáculos dantescos como aquele de Joinville seja ao menos tão sofisticado quanto o de uma Drosófila, para que consigam aprender também. Se é que, em pleno século XXI, ainda há fêmeas dispostas a acariciar machos daquela espécie.

Rafael Linden



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cobras e olhos negros


          Uma das razões pelas quais este cronista evita mergulhar fundo no próprio subconsciente é que bem sabemos da nossa mania de conjuminar assuntos desconexos. Sabe-se lá o que diria o velho Sigismundo ao topar com tal desvio. Portanto, queiram os ilustríssimos leitores, por caridade, perdoar o título acima e, com todo o respeito, conjuminemos.
          Cada um elege o assunto que lhe apraz. Então, esta semana escolhemos como a mais palpitante a descoberta, feita pelo Ibama junto com a Polícia Federal, de que uma jibóia valiosíssima foi vendida pela ex-administradora de um zoológico de Niterói a um criador de serpentes norte-americano, que a contrabandeou pela fronteira de Roraima com a Guiana e levou-a para os Estados Unidos. Levou a cobra, bem entendido. A cobra réptil, melhor entendido ainda.
          Acontece que esse bicho é raríssimo - ao que parece é a primeira cobra portadora da condição genética chamada leucismo, na qual partes ou até o corpo inteiro de um animal são brancos devido a falta de pigmentação. Não é o mesmo que o albinismo, pois nesse a cor dos olhos é vermelha. No caso em questão, trata-se de uma cobra com corpinho todo branco e olhos negros. Não, minha senhora, o cronista não tem leucismo, apenas não toma muito sol, entre outras coisas porque passa muito tempo escrevendo besteiras nesse blog.
          Consta que, quando o tal zoológico foi fechado, a administradora levou a cobra para casa e, tempos depois, declarou que o animal tinha morrido. Mas os federais encontraram fotografias da senhora, toda sorridente, com o marido e mais o contrabandista americano. E, ao vasculhar as redes sociais, acharam fotos da cobra com o gringo. Há rumores de que filhotes desta jibóia branca tem sido vendidos por uma boa grana, o que levou ao cálculo de que a mãe de todas as cobras vale coisa de um milhão de dólares.
          Não nos tocaria tanto esta história, não fosse ela mais um exemplo de assalto ao patrimônio genético que acontece aos montes do Oiapoque ao Chuí. E, não bastasse a espionagem, o Obama teve sorte de, por poucos dias, escapar de ser enquadrado em pirataria também. Sosseguem, porém, pois não será hoje que descambaremos para o colunismo político, já mais do que saturado em todas as mídias. Conforme reza a tradição deste espaço democrático onde eu mando sozinho, divaguemos outrossim sobre os dois componentes da insólita notícia.
          Em primeiro lugar, a pele branca com olhos negros nos remete ao último filme da carreira da maravilhosa atriz italiana Silvana Mangano. Aliás, passei décadas a pronunciar seu sobrenome “Man-gâ-no”. Eu e todo mundo por aqui, acho. Pois hoje estava eu tão-somente apreciando as imagens de um video falado em italiano no Youtube, quando descobri que na terra de Michelangelo e Berlusconi diz-se “Mân-gano”, com acento na primeira sílaba. Este blog é pura cultura, não é mesmo? Mas voltando ao assunto, a obra de 1987, dirigida pelo cineasta russo Nikita Mikhalkov, era Oci ciornie, ou seja “Olhos negros” e Silvana interpretava uma aristocrata chamada Elisa. A trama envolvia a paixão que seu marido, um bon vivant interpretado por - quem mais? - Marcello Mastroiani, nutria pela personagem da então jovem atriz russa Yelena Safonova, de quem o homem de meia idade se enamorou ao conhece-la num spa. Preciso ver esse filme, dizem que é ótimo.
          E de cobra, o que mais se pode dizer? Já não basta a negociata? Pois tomem ciência de outra história que envolve um americano e uma cobra. Há poucos meses estive em uma simpática birosca chamada Tippi Teas em El Paso, no Texas. É uma casa de chás de propriedade de um casal de remanescentes da era hippie. Pois eu soube que há tempos o marido comprou uma cobra lá mesmo nos EUA. E, sabendo que seu novo animalzinho de estimação era originário do México, não é que o cara levou consigo a cobra numa viagem de avião ao país vizinho para que, segundo ele, a bichinha conhecesse a terra natal?
          Só que na volta a cobra, que viajava enrolada no corpo do cidadão, deu de botar a cabeça para fora da camisa dele e o vizinho de poltrona, ao perceber do que se tratava, começou a berrar como todo bom primata. O resultado foi um tempão perdido em explicações junto às autoridades americanas até que, pasmem, o cidadão conseguiu levar a criatura de volta para o Texas onde, presumo, os três, marido, mulher e cobra, vivem felizes.
          Só mesmo o dono de um estabelecimento que vende uma centena de variedades de chás em folhas, algumas das quais meio suspeitas, bem como roupas que parecem sobras dos figurinos da peça Hair, consegue se tornar personagem de uma história dessas que, devo no entanto admitir, é mais inocente do que a saga da jibóia com leucismo. Afinal, que raio de obsessão estranha tem esses americanos com cobras, né?

Rafael Linden


sábado, 28 de setembro de 2013

Que bonito é...


          Se a frase aí de cima lembra uma bola de couro “alçando voo para pousar suavemente no fundo das redes”, então o leitor já passou dos quarenta anos e, se não gosta mais, já gostou de futebol. Ou não? Então explico. O título da crônica é o que muitos achavam ser, mas não é, o nome do samba que tocava nas sessões de cinema antes da atração principal, embalando um documentário em preto e branco que contava a história do mais recente clássico jogado no Maracanã. O locutor, com a voz solene e impostada da época, era Luis Jatobá, mais tarde Cid Moreira. A música, interpretada por Waldir Calmon e seu conjunto, foi composta em 1956 por Luis Bandeira e se chama “Na cadência do samba”, o mesmo nome de uma composição de 1962 de autoria de Paulo Gesta e Ataulfo Alves. Já as imagens, é claro, eram do Canal 100, o cinejornal criado em 1959 por Carlinhos Niemeyer, produtor cinematográfico, flamenguista e membro fundador do Clube dos Cafajestes. E primo do grande arquiteto Oscar Niemeyer.
          E para quem chegava no início da sessão a fim de não perder os closes do drible do Garrincha, do passe do Gerson, do toque sutil do Pelé, da rainha da Inglaterra na Tribuna de Honra ou, o melhor de tudo, da cara dos torcedores escolhidos a dedo entre os mais feios, gaiatos ou furiosos, a boa notícia é que a ESPN anuncia a volta do Canal 100. A vinheta é meio misteriosa, mas presumo que passarão a exibir a coleção de filmes do acervo, que chegam a setenta mil minutos de imagens segundo reza a página oficial criada por Alexandre Niemeyer, filho de Carlinhos. Isso tudo, no entanto, compreende todas as edições do cinejornal inteiro. Este começava com os eventos da semana, os quais iam da inauguração de Brasilia à eleição da miss Brasil, dos comícios do Lacerda aos bailes de carnaval do hotel Copacabana Palace, lançamentos de filmes, livros e foguetes. Mas o noticiário político, cultural e mundano, que o historiador Paulo Roberto Maia considerou condizente com o projeto de propaganda política da ditadura militar, servia apenas como prelúdio para a parte final. A mais aguardada. A do futebol.
          A teleobjetiva do cinegrafista Francisco Torturra, tricolor convicto e cunhado de Nelson Rodrigues, que dele dizia ser sua lente mais inteligente do que o olho humano, trazia imagens espetaculares do campo e hilariantes das arquibancadas e da geral do Maracanã. Nesta última, cujos ingressos eram os mais baratos, se encontravam os tipos mais engraçados ou curiosos, torcedores fanáticos que gastavam seus últimos caraminguás para se aproximar dos seus ídolos e, se possível, ao final do jogo pular o fosso e comemorar no gramado a conquista do campeonato carioca ou, simplesmente, uma vitória sobre o Madureira na terceira rodada. Valia tudo por uma felicidadezinha no domingo.
          Infelizmente o Canal 100 foi assassinado em 1986 por um decreto do governo federal que, no ano anterior, proibira a propaganda comercial em cinejornais, o que inviabilizou a produção. Uma pena. Mas se a ESPN fizer um bom trabalho, quem nunca viu o Canal 100 talvez se pergunte por que hoje em dia não se faz mais reportagens esportivas como aquelas. E quem viu naqueles documentários as imagens de jogos antológicos, como o Brasil x Paraguai de 1969, que botou cento e oitenta mil torcedores (este que vos fala, inclusive) no Maraca, vai estranhar que atualmente se ache ótimo quando uma final de campeonato brasileiro é assistida in loco por meros setenta mil torcedores.
          Tá bom, prevenção de acidentes. Concordo plenamente. Mas desconfio que se o estádio tivesse cento e oitenta mil lugares, todos sentadinhos em plena segurança, nem assim iria lotar. Creio que o Canal 100 era um dos grandes motivos pelos quais o carioca tinha vontade de ir ao Maracanã. Afinal, quem sabe se depois da reportagem sobre o baile do Copa e, com todo o respeito, das pernocas da miss Brasil, não seria você, caro leitor, a exibir as bochechas, em preto e branco, gritando “goláááááçooo!”, “falta!!”, “juiz ladrão!!!”. Ou então, declamando um daqueles palavrões épicos que apareciam por inteiro, em câmera lenta, na boca de arquibaldos e geraldinos sempre que o intrépido árbitro Armando Marques, certo ou errado, marcava um pênalti contra o Flamengo.

Rafael Linden


sábado, 14 de setembro de 2013

Um príncipe agradecido


          O telefone toca.
          - Casa Branca, em que posso ajudar?
          - Chama o Barack, é urgente.
          - Quem gostaria? (em inglês deve ser “Who would like it?”).
          - É Michelle, rápido que eu estou com uma pessoa no outro telefone e preciso dar uma resposta imediata.
          - Desculpe, senhora, mas este é o celular privativo da família. Eu só posso transferir ligações de...
          - É a Michelle Obama, O-ba-ma, entendeu, sua abestada? (não sei exatamente qual é o equivalente a “abestada” no idioma de Shakespeare)
***
          Esse tipo de coisa, naturalmente, ocorre a toda hora. Por exemplo, deu no jornal que o Príncipe Andrew, quinto na lista de sucessão ao trono da Grã-Bretanha, foi confundido com um intruso e abordado por agentes da Scotland Yard nos jardins do Palácio Real.
          - Ei, você aí, os documentos.
          - Quem, eu?
          - Você sim, engraçadinho, os documentos na mão, agora!
          - Deixei em casa.
          - Tu tá querendo levar um tabefe, ô mau elemento? Identifique-se!
          - Eu sou o Príncipe Andrew. (na língua de Harry Potter “I am Prince Andrew”)
          - Que Prince o cacete! Então canta aí “Chuva ácida”!
          - Ô Almeida, não é ácida, é púrpura. A canção se chama “Purple rain”.
          - Ih, Sargento, é mesmo, eu misturo essas coisas desde que o Al Gore passou por aqui. Canta aí, marginal, canta!
          - Cavalheiros, eu não sou cantor, sou o Príncipe Andrew, Duque de York, filho da Rainha Elizabeth.
          - Chiii, Almeida, o cara se parece com o príncipe.
          - Caraca! (em inglês “Cahrêica”). É mesmo, Sargento! Alteza, pelamordideus, me desculpe, é esse maldito sol na cabeça e, além do mais, anteontem um salafrário escalou o muro do palácio e quase entrou aqui, deu um trabalhão, ele gritava que queria pedir um emprego de pajem, nunca se sabe de onde vem as ameaças, né, Sua Alteza Re... Principal... Ducal... quer dizer...
          - Cala a boca, Almeida. Meu caro príncipe, queira perdoar nossa atitude desrespeitosa. Vossa Alteza receberá imediatamente um pedido oficial de desculpas da Scotland Yard.
          - Tudo bem, Sargento, já que é assim você se incomodaria de pedir ao Almeida para tirar o cano desta pistola da minha orelha e largar o meu pesoço para que eu consiga me levantar da grama? Assim, deitado de bruços, está me dando câimbra.
          Dias depois, segundo o jornal inglês The Guardian, o príncipe se disse “agradecido” pelas desculpas da polícia e acrescentou que eles têm um trabalho muito difícil. De fato, convenhamos que reconhecer um dos filhos da Rainha da Inglaterra nos jardins do Palácio de Buckingham não é nada fácil, mesmo para um agente encarregado da segurança da família real.
          Depois essa gente impaciente ainda reclama das telefonistas que, ciosas de seu difícil trabalho, sempre perguntam “Quem gostaria?” quando atendem alguém. Imaginem se um maluco qualquer, desses que se dizem príncipes da Inglaterra, consegue falar com o sub-secretário do assessor do vice-chefe do Serviço de Assistência ao Cliente de uma firma que vende aspiradores de pó pela Internet, transação essa de incalculável importância estratégica e envolta em tamanho sigilo que nem a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos consegue penetrar com seus poderosíssimos computadores espiões.
          Como diria o príncipe, muito agradecido por sinal, o preço da liberdade é a eterna vigilância.


Rafael Linden


sábado, 17 de agosto de 2013

Pequeno catálogo de torpezas


O grito
          “Corno!” O som ecoa pela igreja, bem na hora da troca de alianças. O pai do noivo, desarvorado, começa a gritar com a mulher: “Foi isso que você ensinou para ele? A ser corno? Igual a mim?!”
          O padre eleva a voz, mas o grito se repete: “corno!!”. Amigos do noivo retiram à força o homem, que continua a berrar: “agora é a tua vez de ser corno!! é a tua vez!!!”
          A platéia confabula: “…é o ex-noivo…não se conforma em perde-la…por que está às gargalhadas?…não parou de rir nem quando levou aquele soco na boca...”.
          O noivo chora convulsivamente: “o que foi que eu fiz? troquei de lugar com ele!”. A noiva, impávida, passa-lhe as mãos de leve pelos cabelos e pede calmamente: “pode continuar a cerimônia, reverendo”...

Uma nova manhã
          O jornal escorrega-lhe pela perna até pousar ao pé da cadeira. O homem contempla em silêncio a silhueta indistinta da mulher. Esta lhe dá as costas e seu olhar se perde no exterior emoldurado pelas pesadas cortinas da sala de estar. Em seu rosto, a luz do sol atinge uma única lágrima, que brilha congelada como se a humilhação tivesse perdido o ímpeto da véspera.

Fim de caso
          Trinta anos de um casamento perfeito. Ele, promotor público, prestes a ascender a um cargo importante. Ela, advogada da maior financeira da capital. Dois filhos maravilhosos. Salários astronômicos. E, um dia, o telefonema dando conta de que sua esposa está presa junto com os grandes estelionatários que ele vinha perseguindo há anos.
          Estão todos na sala, aguardando o juiz. Ele se levanta, calmo, dirige-se ao banco dos réus e descarrega o revolver sobre a mulher. Surpreende-se com a própria indiferença.

Negociação
          O Barriga foi o último a chegar, como sempre. Norival e Jamanta já tinham pedido a cerveja e a calabresa. O garçom deixou mais um copo na mesa e retirou-se rapidamente, trocando olhares significativos com o dono do bar. Ainda se lembravam da última vez e, caso contrário, lá estavam os buracos na pilastra como registro da pressa e da má pontaria. Fregueses de boa memória pagaram as contas e sumiram dali.
          O dono aboletou-se atrás de um barril de chope, à guisa de escudo. O garçom foi para a porta da rua, olhou as luzes das três favelas que cercavam o botequim, suspirou, fez o sinal da cruz e pensou na namorada.
          Depois de meia garrafa e duas fatias de amenidades, começou a conferência.         

Rafael Linden


sábado, 3 de agosto de 2013

O centenário do poetinha


          Entre tantas coisas interessantes que andam acontecendo por aí, o dia dezenove de outubro deste agitado ano de 2013 marcará o centenário do nascimento de Vinicius de Moraes. Poeta, compositor, dramaturgo, jornalista e diplomata. E boêmio. E mulherengo inveterado. Mas, do muito que ele fez em vida, quando alguém grita “Vinicius!” no meio da rua, é da poesia que a gente se lembra. A não ser que o gritado seja algum malandro que, por via das dúvidas, saia em disparada para fugir da polícia.
          De tudo ao meu amor serei atento. Tati, Regina, Lila, Maria Lúcia, Nelita, Cristina, Gesse, Marta e Gilda que o digam, cada uma alvo de terna atenção por algum tempo. Isso contando apenas o que está registrado, fora sabe-se lá quem. Outro dia recebi uma mensagem de spam que dizia “se quiser aprender como conquistar todas as mulheres, visite a página do fulano de tal…”. A patroa não ia achar graça nenhuma, mas de qualquer jeito duvido que funcione. Fulano de tal não é o poetinha, que sabia das coisas.
          E com tal zelo, e sempre, e tanto. Sei lá quanta energia Vinicius realmente dedicava à diplomacia. Imagino sua impaciência durante o expediente no consulado, o enfado ao enfrentar cerimônias de terno e gravata, em meio a tanta gente chata, o pensamento longe dali, maquinando as estrofes que penetram nos corações românticos como uma britadeira. Versos que flutuam no ar por sua própria conta, ou animados pelas melodias de Tom, Baden, Toquinho, João, Chico ou Carlinhos.
          Que não seja imortal, posto que é chama. Nosso poeta resolveu, desde cedo, que viveria tudo e todas em cada vão momento. Fumou desbragadamente, bebeu todo o uísque que encontrou pela frente, amou com as forças que tinha, sempre, tanto. Dissolveu em álcool e tabaco a ameaça de envelhecer demais. Acabou por nos deixar antes do que devia, pois calculem o que cada ano a mais de sua vida significaria para a poesia, para a música popular, para as noites ao luar em acampamentos na sub-sede do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, ou em qualquer outro lugar, para as transcrições de poemas em cartões de envio de flores ou, sejamos mudernos, para os SMS românticos.
          Dizem por aí que não há bem que não se acabe. Nada mais falso. O bem que o poetinha nos fez não se acabou em junho de 1980 quando, de repente, o sangue parou de correr em suas veias. Não há como substituí-lo, nem como continuar sua obra. Mas o que ele escreveu, declamou e cantou, continuaremos lendo, ouvindo, cantando. Enquanto o sangue correr dentro de cada um de nós. Nada do que acontece ou ainda vai acontecer, por mais importante que seja, nos privará de reviver a emoção da primeira leitura, da primeira audição da obra de Vinicius de Moraes. Nem mesmo em face do maior encanto. Ele foi infinito enquanto durou. E vai durar infinitamente.

Rafael Linden


sábado, 20 de julho de 2013

Mil e uma utilidades de um programa social


          Pois é, minha gente. Toda semana, ou quase, eu faço um esforço, ainda que prazeroso, para amenizar com literatura as agruras da vida diária de meus fiéis leitores e, se possível, alegrá-los com um ou outro rompante de humor. Mas, apesar do capricho com que escrevo este blog, sou forçado a admitir que, amiúde, basta uma simples notícia de jornal, redigida com apuradas técnicas jornalísticas, incluindo a objetividade, a precisão e a economia de texto, para demonstrar que a vida, definitivamente, é muito mais engraçada do que a arte.
          Vejam as senhoras e os senhores que estava eu, placidamente, passando os olhos na edição online d’o Globo, um importante jornal carioca, quando vi uma chamada de capa que acendeu a frase “isso dá uma crônica”. Essas palavras, aprendi em oficinas na Estação das Letras, constituem a senha para a criação de um dos textos em relação aos quais vosmecês, as mais pacientes e tolerantes criaturas do planeta, costumam poupar o autor de insultos, muito obrigado.
          Porém, ao abrir o link daquela notícia e le-la por inteiro, convenci-me de que este humilde cronista jamais conseguirá produzir um texto de tal natureza, tão reminiscente do Festival de Besteiras que Assola o País, a impagável obra de Sergio Porto, na pele de Stanislaw Ponte Preta. Por conseguinte, peço-lhes perdão por recorrer ao suor alheio, numa semana particularmente cansativa e cheia de outros deveres a cumprir, e reproduzo abaixo, ipsis litteris, o que foi publicado no jornal. Acreditem, se o cotidiano assim prosseguir, em breve a crônica bem-humorada tornar-se-á supérflua.

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Homem tenta pagar prostituta na Bahia com cartão do Bolsa família
Agência A Tarde
SALVADOR – A Delegacia de Polícia de Itapetinga, a 316 km da capital baiana, está investigando um caso de uso incomum do cartão do Bolsa Família. Um homem, identificado apenas pelo pré-nome de “João”, teria tentado pagar os serviços de uma prostituta e o motel em que pretendia realizar o programa sexual com o cartão do principal programa social do governo. A confusão começou quando a prostituta tentou cobrar adiantado os R$ 50 do programa. “João” percebeu que estava sem dinheiro, e perguntou se ela não aceitaria o pagamento através do cartão do Bolsa Família.
          A mulher se recusou e, devido à discussão, uma radiopatrulha da PM foi chamada ao local. Para pagar a entrada no quarto do motel, o homem teria deixado o aparelho de som do seu carro. Os policiais militares contaram que “João” se irritou com o escândalo e reclamou da situação nos seguintes termos:
          — Itapetinga tá atrasada mesmo, nem as p... aceitam cartão!.
          O delegado Roberto Júnior, titular da delegacia de Itapetinga, informou que o caso foi registrado na delegacia como um “termo circunstancial” de um cliente que não pagou o motel. Segundo ele, a utilização do cartão do Bolsa Família ainda está sendo investigado.
          — O problema é que os policiais não retiveram o cartão, pois aí eu só liberaria na presença da titular — disse.
          Pelas regras do programa, a titular do cartão é, preferencialmente, a mulher da casa. O delegado explicou que se ficar comprovado o uso indevido, o cartão pode ser cancelado.
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          Melhor que isso, só mesmo o comentário enviado por um leitor: “O povo tem que comer”...


Rafael Linden


sexta-feira, 12 de julho de 2013

O dicionário do diabo


          Neste ano da graça de 2013, mais precisamente em 26 de dezembro, fará cem anos desde que o jornalista e escritor norte-americano Ambrose Bierce desapareceu. Isso mesmo, sumiu, evaporou, escafedeu-se. Já ouço aquele leitor ranzinza a resmungar “lá vem mais uma daquelas inutilidades”. Não é de bom tom um cronista bem-educado sequer pensar em sugerir ao rabugento o mesmo destino do ianque. Au contraire. O escritor tem o dever de, humildemente, pedir à sua platéia, inclusive aos raríssimos ranhetas, que continuem a ler, pois algo de útil poderá aparecer. Portanto, assim o fazemos, humilde que somos.
          Mas quem era o tal Ambrose, antes de desaparecer? Assinou diversas colunas em jornais da California e, além disso, escreveu principalmente contos. O mais famoso foi publicado em 1890 com o título “Um acontecimento na ponte de Owl Creek” e tornou-se um clássico dentre histórias curtas inspiradas na guerra civil norte-americana, da qual o então jovem Bierce participou como militar do lado da União. Uma adaptação deste texto tornou-se um dos últimos episódios da série de TV “Além da Imaginação”.
          Entretanto, Ambrose Bierce ficou famoso mesmo com a obra publicada em 1906 sob o título “O livro das palavras de um cínico” e, em 1911, rebatizada como “Dicionário do diabo”. Esta é uma pretensa “obra de referência”, na qual o autor “definiu” palavras e expressões com fina ironia, subvertendo o significado de dezenas e dezenas de verbetes com seu humor ácido e crítico. Consta que ele começou a escrever os tópicos satíricos em 1875 e alguns dos mais antigos vem sendo redescobertos e acrescentados a novas edições do livro. Uma tradução para a língua portuguesa foi publicada em Lisboa, pela Editora Tinta da China. Outra no Brasil, pela Mercado Aberto, de Porto Alegre. Millor Fernandes ensaiou um similar nacional com 20 verbetes, sob o título “Dicionário Irrefletido”, em sua coluna na revista Veja de 30 de janeiro de 2008, mas ficou nisso.
          No dicionário do diabo há definições deliciosas como, por exemplo: “Intimidade, s.f. Relação a que  são providencialmente arrastados os tolos para destruirem-se mutuamente”; “Homem, s.m. Um animal tão absorto no êxtase contemplativo do que acredita ser, que não dá sequer uma olhada no que indubitavelmente poderia vir a ser”; “Nepotismo, s.m. Prática que consiste em designar sua avó para um cargo público pelo bem do partido”; “Paciência, s.f. Forma menor de desespero, disfarçada em virtude”; “Perseverança, s.f. Virtude inferior através da qual a mediocridade alcança um sucesso sem glória”; “Política, s.f. Conflito de interesses fantasiado em luta de princípios”; “Reflexão, s.f. Processo mental pelo qual obtemos uma visão nítida do passado, estando aptos a evitar perigos pelos quais não passaremos novamente”; “Santo, s.m. Pecador morto, revisto e editado”. E muitas outras.
          Curiosamente, há mais de trinta anos anos deparei-me, pela primeira vez, com uma destas “definições” numa nota de rodapé de um capítulo de livro escrito pelo cientista britânico Lawrence Weiskrantz, que foi chefe do departamento no qual fiz meu pós-doutorado em Oxford. Larry, como todos o chamavam, era um notável especialista em percepção e memória e tinha excelente humor que, frequentemente, inseria em suas palestras e publicações. Foi numa dessas que, a título de blague, para ilustrar a dificuldade de planejar experimentos rigorosos e objetivos na área de cognição, lembrou a definição da mente humana, uma de minhas prediletas no dicionário do diabo. O verbete se traduz mais ou menos assim: “Mente, s.f. Misterioso tipo de substância secretada pelo cérebro. Sua principal atividade consiste no esforço em determinar sua própria natureza, tentativa esta que tem sido infrutífera devido ao fato de não dispor de outro instrumento para se conhecer além de si própria”. Cá pra nós, até colegas que se dedicam à pesquisa em cognição e comportamento humano hão de convir que Ambrose Bierce tinha um talento excepcional para a sátira.
          O que terá acontecido com o escritor depois que, em 26 de dezembro de 1913, enviou a um amigo sua última carta, cuja autenticidade é, aliás, contestada? Dali em diante, nunca se soube de seu paradeiro, em que pese uma enxurrada de explicações e testemunhos inverossímeis. Na ocasião, Ambrose tinha 71 anos de idade e estava, ao que tudo indica, nas imediações de Ciudad Juárez, na fronteira do México com os Estados Unidos. Supostamente acompanhava como observador as tropas rebeldes de Pancho Villa, que lutavam na provínicia de Chihuahua em plena Revolução Mexicana. Há uma ironia perversa na história de que um ex-militar, com larga experiência em situações belicosas, simplesmente sumiu quando, presumivelmente, se dedicava a procurar subsídios para relatar o andamento de operações de guerra.
          Por outro lado, considerando as idas e vindas da Revolução Mexicana, com suas múltiplas lealdades de ocasião, alianças políticas e militares estabelecidas e rompidas em curto espaço de tempo, as quais logo se transformavam em ódio feroz, bem como eventos tortuosos que desafiam a compreensão deste humilde cronista, resta a possibilidade de que Bierce tenha resolvido desaparecer por conta própria, desapontado pela incapacidade de incluir no seu dicionário um verbete bem-humorado correspondente aos acontecimentos daquele sangrento e confuso episódio da história do México.

Rafael Linden